Laboratório tenta obter vacina mais sofisticada contra a varíola

Fred Biddle
The (Wilmington, Delaware) News Journal/ USA TODAY


Newark, Delaware - A varíola - uma doença que foi declarada extinta em 1980 - era capaz de matar cegar ou cobrir de cicatrizes grandes contingentes populacionais. A vacinação que começou a ser feita também pode matar, cegar ou causar cicatrizes em uns poucos indivíduos.

Tendo esse problema em vista, Barry Marrs, chefe do laboratório Fraunhofer USA, em Newark, Delaware, está trabalhando no desenvolvimento de uma vacina melhor contra essa doença contagiosa e assustadora.

O laboratório de pesquisas, que não tem fins lucrativos, está esperando receber uma verba de US$ 3 milhões (cerca de R$ 10,8 milhões) do Departamento de Defesa, neste momento em que o bioterrorismo é uma ameaça crescente nos Estados Unidos.

O governo Bush anunciou em dezembro do ano passado um plano para vacinar 500 mil profissionais do setor de saúde e mais de 500 mil soldados norte-americanos como um primeiro passo para a defesa contra um ataque com o vírus da varíola. A varíola matava entre 30% e 40% das pessoas que a contraíam, e deixava com freqüência os sobreviventes com cicatrizes terríveis ou cegos.

Mas, apesar disso, um número cada vez maior de hospitais e de enfermeiras está desaconselhando que se tome a vacina, que mata entre uma a duas pessoas a cada um milhão de indivíduos inoculados, além de produzir complicações que geram risco de vida em doze pessoas por milhão de vacinados. O mais comum é que a vacina cause febres temporárias e dores e inchaços nos braços. "Trata-se de uma vacina velha e suja", diz Marrs. "Ela não melhorou muito desde que foi criada em 1796, como a primeira vacina fabricada na história".

A vacina atual seria ainda inútil contra variedades mutantes de varíola, que teriam sido produzidas na ex-União Soviética.

Marrs imagina que seja possível inocular fragmentos de proteínas do vírus da varíola em indivíduos. Esse material não seria capaz de provocar a doença. As proteínas não seriam na verdade originárias do vírus da varíola, mas sim sintetizadas em plantas geneticamente modificadas.

Em tese, a combinação correta de fragmentos criaria a chamada "subunidade de vacina" que seria reconhecida como uma ameaça pelo sistema imunológico humano, que por sua vez produziria anticorpos que protegeriam o organismo contra o vírus completo. "Podemos fazer tal coisa de maneira mais rápida do que outros são capazes de criar uma arma biológica", gaba-se Marrs. "Acreditamos que em 18 meses, com uma verba de US$ 3 milhões, sejamos capazes de fornecer um material que possa ser utilizado em experiência clínicas". Não há nenhum fabricante exclusivo de vacinas licenciado nos Estados Unidos, havendo somente quatro unidades de fabricação que fazem parte de grandes companhias.

No ambiente empresarial de hoje, talvez apenas um grupo sem fins lucrativos pudesse realmente começar a desenvolver um produto pelo qual pessoas saudáveis não pagassem, que fosse comprado apenas pelo governo por um preço mínimo, que trouxesse o risco de ações na justiça devido aos seus efeitos colaterais e que fosse administrado somente em uma ou poucas doses para prevenir uma doença, ao contrário de outras drogas que podem ser compradas por toda a vida para o tratamento de doenças crônicas.

Além do mais, embora certas pessoas estejam resistindo à atual vacina na ausência de uma epidemia, outras poderiam resistir a uma vacina não testada, caso houvesse um surto epidêmico.

"Não quero uma nova vacina. Quero uma que funcione", afirma Gigi Kwik, pesquisadora do Centro de Estratégias de Biodefesas Civis da Universidade Johns Hopkins. Kwik, que tomou a vacina baseada na varíola bovina três anos atrás, diz dos efeitos colaterais: "Eles me deram uma aparência mais grotesca do que o esperado".

Quando se examina uma sala do laboratório Fraunhoffer, cheia de plantas e repleta de lâmpadas fluorescentes, é possível perceber de que forma Marrs está propondo não só a fabricação de uma vacina melhor, mas também fazê-la de forma mais rápida.

Os empregados esfregam as folhas jovens de tabaco, espinafre e outras plantas dotadas de folhagens de rápido crescimento com um vírus do mosaico da alfafa geneticamente modificado. Dentro de seis semanas, a infecção resultante se espalha pelas plantas, possibilitando à produção da proteína necessária. As plantas são colhidas e picadas em um triturador e o suco é separado e purificado, de forma a se extrair os componentes brutos da vacina de testes.

"Somos capazes de fabricar toda a quantidade de vacinas contra a varíola necessária em estufas, ao invés de em laboratórios de tijolos e cimento", afirma Marr. "Tais laboratórios são mais caros e levam mais tempo para serem construídos".

Não menos desafiador que criar produtos científicos novos é competir com antigos produtos científicos. Por ora, os Estados Unidos estão armazenando doses diluídas de uma vacina de 45 anos de idade, e contrataram uma filial da Baxter, juntamente com a Acambis Incorporation, uma empresa de capital parcialmente britânico e que tem sua sede nos Estados Unidos em Cambridge, Massachusetts, para fabricar 155 milhões de novas doses.

"Somos responsáveis por demonstrar que vacinas mais seguras podem ser fabricadas. Mas ninguém está falando sobre os benefícios. Se houver um ataque, as pessoas que não forem vacinadas morrerão", afirma Una S. Ryan, diretora executiva da Avant Immunotherapeutics Incorporation, uma empresa pública de Needham, Massachusetts, que recebeu verbas no valor de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 29 bilhões) do Departamento de Defesa, segundo os termos de um contrato firmado em janeiro deste ano para o desenvolvimento de uma vacina oral combinada contra o antraz e a peste bubônica.


Tradução: Danilo Fonseca

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