Terapia genética avança entre derrotas e vitórias

Tim Friend


A idéia de uma terapia genética possui uma simplicidade elegante e ilusória: ela seria a substituição de um gene defeituoso por um outro saudável, que curaria uma doença.

Porém este prodígio relativamente jovem da revolução genética iniciada há meio século tem sido a fonte de esperança e sofrimento para os cientistas.

A esperança surge da promessa de um tratamento para tudo que se possa imaginar, desde os males de Alzheimer e Parkinson até calvície, obesidade, Aids, diabetes, doenças cardíacas e câncer.

O sofrimento está presente porque, após mais de dez anos de estudos, a terapia genética chegou a becos sem saída e apresentou resultados incertos ou por vezes catastróficos.

Apesar de tudo, esta continua a ser uma das áreas mais dinâmicas da pesquisa genética e poderá um dia fazer valer todo seu potencial. Desde a primeira terapia genética realizada pelo Instituto Nacional de Saúde em 1990, mais de quatro mil pacientes foram tratados em todo o mundo, e cerca de 500 estudos foram publicados.

E recentemente os cientistas expandiram o alcance da terapia genética para transformar as células em fábricas de medicamentos através da adição de genes que produzem substâncias determinadas, tais como a insulina em casos de diabete.

A terapia genética se assemelha, pelo perigo e pela dificuldade, ao programa espacial, segundo afirma Inder Verma, um dos pioneiros da terapia genética do Salk Institute de La Jolla, Califórnia. Assim como a NASA enfrenta o desafio de chegar ao espaço sideral, os pesquisadores da terapia genética almejam chegar ao espaço microscópico da célula humana.

"O programa espacial possui a vantagem de contar com engenheiros que conhecem os princípios para se navegar pelo espaço, mas nós não conhecemos os princípios das entidades com as quais trabalhamos", afirma Verma. "Para alcançar o espaço interno de uma célula, é necessário cruzar as membranas externa e interna da parede celular, percorrer um pântano de citoplasma (fluido celular) e centenas de organelas (partes especializadas das células), e depois ainda cruzar uma membrana externa do núcleo e uma membrana interna, para finalmente chegar ao genoma".

O transporte dos genes até este microespaço continua a ser o maior dos desafios, afirma Joseph Glorioso, presidente da Sociedade Americana de Terapia Genética. A cápsula espacial da terapia genética é o vírus, que graças a um bilhão de anos de evolução possui o mais acabado maquinário molecular para conduzir o DNA diretamente até o núcleo de uma célula por intermédio de uma infecção. Para transformar um vírus em uma cápsula para a terapia dos genes, os cientistas removem as partes responsáveis pelas doenças e preservam o "hardware" da infecção.

O problema é o ataque ao vírus pelo sistema imunológico humano, que não poupa nem mesmo os vírus inócuos modificados especialmente para a terapia. "Não identifico qualquer área da saúde humana em que a terapia genética não seja capaz de realizar alguma contribuição", diz Verma. "Mas a grande questão é saber como fazer com que os genes cheguem à célula".

O entusiasmo inicial gerado pela terapia genética transformou-se em decepção após os cientistas terem descoberto que suas terapias eram anuladas pela reação do sistema imunológico de seus pacientes aos vírus. Na maioria dos casos, os pacientes sentiam apenas uma ligeira febre e arrepios enquanto seus sistemas imunológicos se adaptavam. Após nove meses de experimentos para tentar ludibriar o sistema imunológico, a terapia genética viveu seu equivalente ao desastre da nave Challenger no dia 18 de setembro de 1999.

Cientistas da Universidade da Pensilvânia injetaram altas doses de vírus carregados com genes para aplacar a resposta imunológica de um paciente. O paciente Jesse Gelsinger, 18, morreu em decorrência de uma resposta imunológica similar à síndrome de choque tóxico.

O falecimento levou os pesquisadores novamente à estaca zero, e o aprendizado resultou em mudanças substanciais do método de pesquisa, afirma Glorioso. Pouco tempo depois, a disciplina obteve suas primeiras conquistas incontestáveis com experimentos realizados a partir de 2000, que restauraram os sistemas imunológicos de nove entre onze garotos que sofriam de graves deficiências do sistema imunológico.

Veio então o equivalente ao desastre da Columbia.

Os cientistas que trabalham com a terapia genética temiam que os genes inseridos em uma célula pudessem estacionar no ponto errado do código genético e ativar por acidente genes que resultassem em câncer. A hipótese era considerada improvável. Mas após dois anos de bons resultados com os garotos, dois entre eles desenvolveram um gênero de leucemia porque a terapia genética ativara algum gene causador do câncer.

"Foi uma surpresa e uma decepção, algo que levou as comunidades médica e científica a iniciarem um amplo esforço para a compreensão dos fundamentos desta ocorrência e começara pensar em alternativas para contornar o problema", afirma Glorioso.

Ele afirma que apesar dos reveses, seu campo de pesquisa continua a realizar avanços constantes. Trata-se de um campo extremamente jovem, se comparado aos trinta anos que geralmente foram requeridos para adoção de outros tratamentos médicos, tais como o transplante de órgãos.

"Avançamos muito de 1990 para cá, e houve um empenho mundial de milhares de cientistas", afirma Glorioso. "Veremos os primeiros frutos deste trabalho daqui a cerca de cinco anos".


Tradução: André Medina Carone

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