Antiamericanismo cresce na Europa

Marco R. Della Cava
USA Today

Como celebridade de primeira linha, o ator Vince Vaughan lança mão de uma série de estratégias para lidar com indivíduos inoportunos, desde o humor até uma limusine estacionada em local próximo.

Mas durante o seu recente trabalho em um novo filme, na Inglaterra, Vaughan se viu batendo continuamente na mesma tecla: o Plano Marshall.

"Eu diria que uma em cada três conversas girava sempre em torno do mesmo tema: "Os Estados Unidos são o demônio". Mas aí eu pedia aos meus interlocutores que pensassem um pouco no Plano Marshall e depois dissessem qual era sua opinião sobre o meu país", conta Vaughan, de 32 anos, referindo-se ao plano aliado para a reconstrução da Europa após a 2ª Guerra Mundial. "No fim das contas, eu acabava tendo que dizer a essas pessoas, 'Não quero mais conversar sobre esse assunto'".

Mas, se você é americano e está se dirigindo ao exterior, prepare-se para esse tipo de discussão. Novamente. Se os últimos 100 anos foram em grande parte considerados como sendo o "Século Norte-Americano", o atual está se transformando rapidamente no Século Antiamericano".

Basta perguntar à turista Colleen Frost, de 33 anos, que recentemente pegou um táxi no seu primeiro dia em Berlim. Um motorista que falava inglês lhe pediu explicações a respeito do que chamou de "a megalomania norte-americana".

"Ele queria saber o que eu pensaria a respeito do meu país caso o meu irmão ou namorado fosse morto em uma guerra", conta Frost, uma higienista dental de Santa Fé, na Califórnia. Ela diz que a corrida acabou antes que ela fosse capaz de responder à pergunta do taxista decepcionado.

Como os tempos mudaram.

Um cenário marcado pela boa vontade, estimulado nas décadas que se seguiram à derrota da Alemanha nazista, foi reduzido a cinzas nos últimos anos. Um número cada vez maior de estrangeiros vê algumas das decisões políticas dos Estados Unidos (por exemplo, a retirada do Tratado de Kyoto, relativo às emissões poluentes globais) e as preferências pessoais dos norte-americanos (como o amor pelos carrões esportivos e que consomem muito combustível) na melhor das hipóteses como unilaterais, e na pior como egoístas. O atual confronto com relação ao Iraque é meramente mais gasolina jogada na fogueira.

Das praças espanholas aos táxis de Berlim, os turistas norte-americanos estão sendo ridicularizados, xingados e têm sido até mesmo alvo de cusparadas de pessoas que não aprovam a obsessão do governo Bush por lançar uma guerra contra Saddam Hussein.

Como resultado, um número cada vez menor de norte-americanos (54% atualmente, contra 79% um ano atrás) acredita que os Estados Unidos desfrutam de uma imagem favorável no exterior, segundo uma recente pesquisa Gallup. E uma maioria dos norte-americanos (64%) menciona o temor de serem tratados de forma pouco amigável como a sua principal preocupação ao viajarem para o exterior em época de guerra, segundo uma pesquisa publicada na edição de fevereiro da revista "Condi Nast Traveler".

Casos bizarros ocorridos na Europa demonstram que tais medos não são infundados.

"Passei 100 dias por ano no decorrer dos últimos 30 anos na Europa e, geralmente, a população sempre soube distinguir entre as ações dos governos dos Estados Unidos e os cidadãos norte-americanos", afirma Rick Steves, agente de turismo que mora em Seattle e que se especializou em viagens à Europa.

"Mas nunca presenciei tal nível de frustração com os Estados Unidos em toda a minha vida. Os europeus simplesmente não entendem a nossa volúpia pela guerra, especialmente aqueles das gerações mais jovens".

Steves diz que o clima atual contrasta vivamente com o espetacular sentimento que tomou conta da Europa, em 11 de setembro de 2001, do tipo "somos todos norte-americanos". No momento, ele não tem desencorajado os seus fregueses a viajar, e até agora houve poucos cancelamentos de passagens. Apesar disso, a sua página na Internet traz uma série de recomendações e preocupações relativas às viagens ao exterior. Steves pede aos turistas que adotem a postura correta.

"Cair na defensiva não é bom. É preciso manter as coisas sob perspectiva e saber ouvir", diz ele. "Na melhor das hipóteses, as viagens continuam sendo uma força vital para a promoção do entendimento".

E realmente é preciso fazer algum planejamento antecipado para situações desse tipo. Se as críticas européias aos Estados Unidos no passado se limitavam a notícias de jornal e a discussões em cafés, o atual jogo de guerra que a administração Bush impõe ao Iraque desencadeou uma enxurrada de injúrias carregadas de frustração nas ruas.

Grande parte das críticas é dirigida contra o governo Bush, que nunca esteve tão em evidência quanto no dia 15 de fevereiro último, quando mais de seis milhões de pessoas em aproximadamente 60 países foram às ruas para participar de algumas das maiores manifestações pacifistas desde a Guerra do Vietnã. Mas algumas vezes essa hostilidade se reflete diretamente sobre o turista norte-americano.

Laurel Scapicchio e a sua filha de 13 anos esperavam por um trem no metrô de Paris algumas semanas atrás quando a conversa que travavam foi subitamente interrompida. Dois homens, com cerca de 20 anos de idade, ouviram o sotaque americano e gritaram, "Porcas!".

"O episódio nos fez cair na real", diz Scapicchio, de 42 anos, uma despachante de cargas de Saugus, Massachusetts, que visitava pela primeira vez a capital francesa. "Foi um pouco assustador. Mas não demos maior importância ao fato. Não foi algo de pessoal. O incidente ocorreu apenas porque somos norte-americanas".

As autoridades de turismo européias, que atualmente se defrontam com uma queda de 19% nas viagens de norte-americanos para o Velho Mundo, desde que um número recorde de 13,1 milhões de turistas estiveram na Europa em 2000, minimizam tais incidentes, dizendo que tratam-se de aberrações.

"Estou certo de que um certo número de visitantes norte-americanos será questionado sobre a política do governo dos Estados Unidos com relação ao Iraque. Mas se realmente têm havido alguns encontros nada prazerosos, acredito que são casos isolados", diz Patrick Goyet, vice-presidente da Comissão Européia de Viagens em Nova York. "Além do mais, falando como europeu pela grande maioria dos meus colegas do continente, considero tal comportamento idiota e embaraçoso".

Não obstante, muitos norte-americanos no exterior têm histórias para contar. O conselho que dão? Espere pelo inesperado. Recentemente, enquanto morava na Espanha, Jane Kelly, de 20 anos, viu um amigo tomando uma cusparada pelo simples fato de ser norte-americano.

"Em todo país do mundo há gente que faz esse tipo de coisa", opina Kelly, que estudava no campo de Madri da Universidade Suffolk, de Boston.

Uma outra estudante, Kate Perlis, de 20 anos, diz que a atmosfera anda carregada. "Parece que as únicas palavras da língua inglesa que muita gente
conhece são 'Nós odiamos Bush'".

Joshua Eckblad, de 28 anos, um gerente norte-americano do setor de alta tecnologia, que atualmente mora em Madri, passou por experiências semelhantes. Ele diariamente se defronta com comentários de espanhóis, que "se sentem à vontade para dizer qualquer coisa contra os Estados Unidos, que acreditam que Bush e seus assessores não sabem nada sobre o mundo".

A sua irmã, Vanina, de 27 anos, uma arquiteta que mora em Paris, não tem se saído melhor. Ela conta que um dia, na rua, um homem lhe disse para "voltar para o lugar de onde veio".

Tais episódios podem fazer com que alguns visitantes pensem em voltar para casa. Quando Linda Severson, uma norte-americana que mora em Bruxelas há dois anos, estava visitando recentemente Amsterdã com a mãe, as duas se viram encurraladas em um Hard Rock Café, rodeadas por manifestantes antiamericanistas.

"Ficamos olhando para todas as manifestações e cartazes que diziam 'Matem Bush, não os iraquianos', e ficamos sentadas, totalmente paralisadas", conta Severson. "Sentimos saudade de casa".

Mas alguns norte-americanos no exterior preferem enfrentar a tempestade de frente.

Louis Nebelsick, de 45 anos, é um arqueólogo de Louisville que organiza exposições para o museu de arqueologia de Dresden. Ele afirma que nunca viu tal grau de antiamericanismo na Alemanha desde a época de Ronald Reagan, quando, em 1983, as multidões européias protestaram contra a instalação de mísseis nucleares de alcance médio na Europa.

Mas, apesar do atual rancor existente, Nebelsick usa com orgulho uma bandeira dos Estados Unidos no seu boné de beisebol. É algo como usar um pára-raios na cabeça em meio a uma tempestade elétrica.

"Um cara percebeu que eu era norte-americano e disse que precisava me dizer o que pensava do meu país", conta. "A sua opinião era que os Estados Unidos estão sendo governados por um caubói hidrófobo".

Nebelsick porta também um isqueiro que traz uma estampa da bandeira norte-americana . Ultimamente é comum os indivíduos recusarem a sua oferta para acender cigarros quando vêem as listas e estrelas.

"A era dos heróis norte-americanos acabou", diz ele.

Mas isso não quer dizer que seja impossível manter conexões positivas entre nacionalidades em um nível pessoal. Alguns turistas entrevistados falaram sobre encontros não muito agradáveis, mas também ressaltaram que há quem veja com bons olhos os norte-americanos que, apesar do clima atual, optam por viajar.

Quando Tony Vitanza, de 42 anos, de Fort Worth, revelou o seu sotaque texano para uma lojista na Bélgica, ela imediatamente lhe perguntou de que Estado era.

"Eu deixei bem claro para ela que não votei em George W. Bush", diz Vitanza, um comissário de bordo que toma o cuidado de remover todos os alfinetes decorativos com temas nacionalistas da jaqueta do seu uniforme antes de sair para as ruas européias. "Mas a mulher retrucou que estava interessada no meu sotaque, e não na minha posição política".

De forma similar, quando Jay Rooney, de 57 anos, e Bruce Plank, de 35, estiveram na Europa há algumas semanas, a negócios, as únicas discussões em que se meteram foram sobre preços em mercados de pulga.

"Não tivemos problema algum", diz Rooney, enquanto passeia pelo famoso mercado Portobello Road. "Algumas das pessoas que nos receberam pareceram até nos defender. Não recebi nenhuma crítica. E tampouco fui alvo de rudeza ou pressões. Pelo contrário, percebi que certas pessoas se esforçaram para ser educadas".

Um antigo analista das questões européias acredita que o norte-americano comum ainda é bastante apreciado pelo cidadão europeu médio. A confusão só acontece quando a política praticada por uma nação é vinculada a um cidadão de tal país.

"Descobri que a maioria dos europeus geralmente gosta dos norte-americanos", afirma Pieter Ockers, analista sobre a Europa da iJet Travel Intelligence, uma empresa norte-americana que fornece relatórios com riscos de viagem e conselhos sobre gerenciamento para viajantes a negócios ou turistas.

"Mas a mídia européia muitas vezes bota lenha na fogueira", acrescenta. "Ela pinta os norte-americanos como culturalmente inferiores, ignorantes a respeito das políticas mundiais, arrogantes em sua interação com o resto do mundo e, o pior de tudo, ameaçadores para com os seus vizinhos".

Durante a estada de Vaughan na Inglaterra, ele se sentiu criticado em todos esses níveis. Com se fosse um boxeador se defendendo de cada soco, ele contra-atacou dando as melhores respostas que conseguiu. Algumas vezes as críticas o deixam perplexo, como daquela vez em que um garoto usando uma camiseta Kobe Bryant e ouvindo o rapper DMX lhe disse, "Os Estados Unidos não têm cultura".

Mas um incidente realmente machucou o ego de um norte-americano.

"Cara, foi terrível", conta Rat Pack-y, astro do "Swingers". "Havia umas garotas nos paquerando e elas não paravam de perguntar se éramos americanos. Finalmente respondemos que sim e elas se mandaram. Uma delas se virou e disse, 'Achamos que fossem canadenses'. Canadenses? Desde quando é considerado legal ser canadense?".

Tradução: Danilo Fonseca

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