Pesquisas comprovam: rir é mesmo um bom remédio

Debbie Howlett
USA Today

O terrorismo não é algo de engraçado. Ou é?

Tomemos como exemplo uma charge do publicada no "New Yorker" que a médica Sandra Ritz utiliza nas suas palestras sobre "humor de sobrevivência". A charge mostra um homem árabe, com o corpo envolto por explosivos, falando para quatro candidatos a homens-bomba. "Agora, prestem atenção", diz o professor. "Só vou fazer isso uma vez".

O fato de se encontrar humor na charge deriva da capacidade de enxergar o absurdo da situação.

E tal atitude também proporciona alívio.

"O momento em que se é capaz de enxergar humor em um desastre ou um fato traumático se constitui no instante em que você fica sabendo que vai melhorar", afirma Ritz, que dá palestra e presta serviços de consultoria. "É assim que ficamos sabendo que recuperamos o controle sobre a situação".

Para Ritz e seus colegas da Associação de Humor Aplicado e Terapêutico, não há dúvida quanto ao poder redentor de uma boa risada.

A julgar pelas discussões mantidas na conferência da associação, em Chicago, no último fim de semana, o humor é quase que uma cura universal. Ele pode te deixar mais rico, esperto e saudável. É capaz de protelar a doença de Alzheimer e fortalecer o sistema imunológico. Além disso, pode motivar o aluno pouco interessado nos estudos e levantar a moral no escritório mais asfixiante.

Está ficando claro que surge uma nova ciência a partir do trabalho feito pelos membros dessa associação fundada há 12 anos. Esse é a face séria do humor.

Mas face séria, quando o negócio é humor, significa riso, muito riso. Aquele tipo de risada de tirar o fôlego.

Esse tipo de riso vem do quarto onde Sobi Dobi, um palhaço, vestido com traje completo e armado de um equipamento para fazer bolhas de sabão, se prepara para participar de um seminário sobre humor e cuidados com enfermos.

Ou então do salão onde o comediante Tim Davis demonstra as suas técnicas para professores.

Ou até mesmo de uma palestra sobre humor na religião, feita por Susan Sparks, assistente do pastor da Igreja Americana Batista em Nova York.

"Amar o seu vizinho?", pergunta Sparks, se referindo aos Dez Mandamentos. "E se o vizinho for um profissional de telemarketing?".

Mas o discurso principal no domingo foi um apelo por um estudo do humor mais sério e acadêmico, incluindo uma compreensão melhor de uma máxima da sabedoria popular, segundo a qual o riso se constitui na cura para todos os males.

"Toda essa idéia de que quando rimos há uma série de efeitos físicos benéficos está equivocada. Não existem provas quanto a isso", afirma Rod Martin, um conhecido pesquisador do humor e diretor do programa de psicologia clínica da Universidade de Western Ontario, no Canadá. Recentemente, Martin publicou um estudo no qual revisou todas as pesquisas anteriores sobre humor. E descobriu que elas deixavam a desejar.

Devido ao fato de o estudo do humor ser deixado de lado em nome de empreendimentos acadêmicos "mais sérios", aqueles que pesquisaram os seus efeitos tiveram que fazê-lo com orçamentos apertados de pesquisa.

Segundo ele, não há desculpa para isso.

"Nas pesquisas, temos que nos concentrar mais. Precisamos deixar as coisas bem claras, demonstrando que estamos falando de humor terapêutico, e não de todo tipo de humor", diz Martin. "As pessoas ouvem dizer que o humor é benéfico, e acham que o fato de se sentar a noite toda vendo programas humorísticos na televisão vai torná-las mais saudáveis. Tenho certeza de que tal atitude não seria benéfica".

Segundo Martin, o que ficou claro a partir da pesquisa é que, ao invés de ter efeitos diretos sobre a saúde, como, por exemplo, a diminuição da pressão arterial, o humor traz benefícios indiretos. Por exemplo, ele auxilia a controlar as emoções ou a lidar com as dificuldades. Martin acredita que o maior potencial para o uso do humor está na psicologia, e não na medicina. Nestes momentos de problemas - com a guerra iminente, a economia em espiral descendente e os alertas contra o terrorismo aumentando de nível -aquelas pessoas que se sentem excessivamente angustiadas poderiam dar um grande passo rumo à cura ao assistir a televisão, segundo Ritz.

Ela passou dez anos estudando a forma como as comunidades lidam com desastres. A pesquisadora diz que após os ataques de 11 de setembro, foi a participação do prefeito Rudy Giuliani no programa "Saturday Night Live", duas semanas após a catástrofe, que assinalou um fim do pesar para toda a nação.

E embora os ataques continuassem a afetar as pessoas, especialmente aquelas que moravam próximas aos locais atacados ou que tivessem vínculos com as vítimas, cada novo dia trouxe um pouco mais de alívio.

"Em um desastre de tais proporções as pessoas seguem o exemplo dos sobreviventes", diz Ritz. "Os indivíduos querem rir. Eles procuram alívio. Mas trata-se de uma situação horrível. É preciso que os sobreviventes lhes digam que está tudo bem".

Allen Klein, autor do livro "Courage to Laugh" ("Coragem de Rir"), concorda: "O humor pode nos ajudar a lidar com qualquer coisa".

Klein define a si próprio como uma "alegrologista". O seu cartão de visita traz um retrato com um desenho de um nariz de palhaço. Ele desenvolveu a sua teoria do humor como forma de lidar com a angústia, quando foi diagnosticado um câncer terminal na sua mulher, que tinha 34 anos.

"O que vem ocorrendo atualmente, com a guerra e com a economia em mau estado não é algo de engraçado", afirma Klein.

É fácil ficar deprimido ou angustiado com os constantes alertas de ameaças terroristas. E os escândalos corporativos na Enron e outras empresas poderiam facilmente provocar uma onda de cinismo na nação.

"O que o humor faz é nos dar um senso de perspectiva", diz Klein. "Uma risada consiste em perspectiva instantânea".

Tradução: Danilo Fonseca

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