Doutrina Bush tem fortes implicações que vão além da questão iraquiana

Chuck Raasch
Opinião / GNS Politica Writer


Washington - No segundo debate dos candidatos à Presidência, em 2000, aquele na qual o comportamento derrotista de Al Gore foi objeto de várias manchetes na mídia, George W. Bush perguntou sobre a projeção do poder dos Estados Unidos no exterior.

"Se formos uma nação arrogante, os outros países ficarão ressentidos", disse Bush. "Caso agirmos como uma nação humilde, mas forte, seremos bem-vistos."

A transformação do posicionamento de Bush, de uma doutrina de atuação relutante para aquela de uma guerra global contra o terrorismo deixa uma série de questões não respondidas que vão além da questão do Iraque. Os eventos deste mês podem ressoar por décadas nas futuras relações, nos futuros confrontos com as chamadas "nações renegadas" e nas novas normas que regem o comércio, a diplomacia e a visão de mundo norte-americanos. As conseqüências poderão ser tão abrangentes quanto aquelas das duas guerras mundiais ocorridas no século passado.

No momento em que as Nações Unidas lutam contra as demandas norte-americanas relativas ao desarmamento do Iraque, os Estados Unidos vêm sendo tachados de potência arrogante em várias capitais do mundo -"bastardos", segundo a definição de Carolyn Parrish, representante do Partido Liberal no Parlamento Canadense. Tais ações podem ser justas ou não, mas elas não podem ser colocadas de lado.

Alguns norte-americanos ficam irritados ao ouvirem sermões a respeito de arrogância vindos da França, por exemplo, devido à história daquele país, que tradicionalmente tratou bem ditadores repletos de más intenções. Mas tal percepção se transforma em realidade em todo o mundo, à medida que os Estados Unidos se preparam para remover Saddam Hussein do poder à força. Incrivelmente, são as ações dos Estados Unidos - e não as de Saddam - que são tidas como uma ameaça maior para o mundo em vários países que há muito são considerados nossos amigos.

Raramente a história se inverteu de maneira tão rápida. Quando Bush tomou posse, as atenções nacionais estavam voltadas para as questões internas. O país estava concentrado em uma economia que criou uma classe de milionários especuladores mas que começava a se acelerar rumo a uma estada esburacada. Nos anos anteriores, as aventuras particulares de Bill Clinton na Casa Branca contaram com mais espaço na televisão do que aquelas de Saddam Hussein no Iraque.

Uma semana antes das eleições de 2000, o jornal "The New York Times" questionava se Bush seria um pacifista. Ao ser perguntado sobre como lidaria com os ressentimentos que se acumulavam contra os Estados Unidos em todo o mundo, Bush disse ao jornal: "Usarei humildade estratégica". O jornal "The Baltimore Sun" escreveu sobre a sua relutância para se engajar em "construção de nações". O "Strait Times" de Cingapura descreveu Bush como sendo um "internacionalista hesitante".

Agora que está liderando uma "coalizão baseada na vontade", composta de 200 mil soldados estacionados na fronteira iraquiana, pergunta-se o que teria causado uma mudança tão dramática. É muito simples. O dia da infâmia: 11 de setembro de 2001.

Desde os ataques terroristas, a Doutrina Bush se transformou, passando da relutância e humildade à extensão e confronto. Olhando de forma retrospectiva, o que incomodou tanto os Estados Unidos naquele 11 de setembro foi o mesmo fator responsável pelo estabelecimento de uma nova estrutura de engajamento nas questões internacionais.

Bush raramente aparece em público sem lembrar à população, com uma repetição digna de um Reagan, que aquilo em que ele acredita está em jogo.

"O 11 de setembro deve sinalizar ao povo norte-americano que estamos no momento dentro de um campo de batalha, que armas de destruição em massa nas mãos de uma organização terrorista poderiam ser utilizadas em nosso solo", disse Bush em uma conferência televisiva no início deste mês.

A Doutrina Bush deve fazer com que os norte-americanos evitem fazer muitas previsões quanto aos dias que há pela frente. Muita gente encara erroneamente o Iraque como sendo um fim, quando as crises nucleares emergentes na Coréia do Norte e no Irã poderiam significar que trata-se apenas do começo de um processo. Os norte-americanos começaram apenas a se preparar psicologicamente para uma guerra que poderia durar bem mais do que o mandato de Bush, quer este seja de quatro ou de oito anos.

A Doutrina Bush deixa as seguintes questões em aberto:

  • Quais são as ramificações da política de construção de nações no Iraque por parte de um presidente que no passado expressava um desdém óbvio com relação a essa idéia? A história recente dessa política no Afeganistão não é um exemplo de sucesso - e trata-se de uma guerra bem menos polêmica.

  • O que aconteceria se os ataques verbais de Donald Rumsfeld desferidos contra a "Velha Europa" se tornarem manifestos em uma cisão dos aliados europeus? Será que o centro de gravidade da política externa dos Estados Unidos iria inevitavelmente migrar para o antigo bloco soviético da Europa Oriental?

  • As tensões da Guerra Fria com a Rússia poderiam retornar caso - conforme sugerem algumas autoridades norte-americanas - a oposição russa a uma nova resolução para o desarmamento do Iraque no âmbito das Nações Unidas prejudicasse a relação entre os dois países?

    Em momentos como esse, pode-se perguntar se a história é relevante. Alguns crêem que se uma nação algum dia demonstrasse relutância em agradar ditadores com um histórico de más intenções, essa nação seria a França. Mas quando os franceses marcham contra a guerra, é Bush - e não Saddam - que é pintado como sendo um novo Hitler.


    Tradução: Danilo Fonseca
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