Impacto da guerra sobre a língua é de "espanto e medo"

Greg Toppo


Espantado e amedrontado pelo jargão militar embutido na Operação Liberdade do Iraque? Junte-se à coalizão. A guerra sempre contribuiu com a sua porção de termos militares que acabam se infiltrando na linguagem diária. Vários deles são eufemismos para designar coisas bem ruins: fogo amigo, cortadora de margaridas (uma bomba de poder devastador), danos colaterais. Mas, na atual guerra no Iraque, os especialistas dizem que os jargões estão sendo utilizados de forma especialmente intensa.

"O fenômeno parece ter começado mais cedo que o normal", afirma Robin T. Lakoff, professora de lingüistica da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Repetida por uma coalizão de "mídia voluntária" 24 horas por dia, a terminologia militar chegou antes do período esperado. Os aviões de combate dos Estados Unidos mal tinham retornado dos primeiros ataques na semana passada quando autoridades militares começaram a falar sobre uma "oportunidade de alvo", uma chance para uma "decapitação" de Saddam Hussein que era muito boa para ser desperdiçada.

Tais termos "fazem com que aquilo que estamos fazendo tenha uma ressonância grandiosa e dá a impressão de que temos controle da situação e que estamos cobertos de sucesso", diz Lakoff. A outra função do uso do jargão militar junto ao público é impedir que pensemos muito sobre os horrores da guerra, diz ela.

Eventos históricos podem fazer com que uma palavra ou frase se incorpore rapidamente à língua. A mais nova edição do "American Heritage College Dictionary", lançada em abril de 2002, inclui o termo "911" (número de chamadas de emergência para a polícia norte-americana), assim como "Taleban" e "weaponize" (transformar algo em arma).

Até mesmo termos estranhos e pouco usados têm uma longa vida nas páginas dos dicionários, diz Donna Jo Napoli, diretora do departamento de lingüistica do Swarthmore College. No início da década de 90, o presidente Clinton passou a falar sobre "crescer a economia". Os gramáticos resmungaram, mas, uma década depois, a frase ainda está entre nós.

Pickett diz que provavelmente levará anos até que quaisquer das novas frases militares sejam incorporadas aos dicionários. Os editores do American Heritage estão pensando no termo "espanto e medo", bem como em "pacotes de vôo", "desconflitar o espaço aéreo", entre outros.

Ainda é muito cedo para afirmar se "espanto e medo", uma estratégia militar por meio da qual um inimigo é persuadido a se render depois de presenciar uma demonstração aterrorizante de poder de fogo, será o termo mais marcante desta guerra.

Mas, apenas uma semana depois de a maior parte dos norte-americanos tê-lo ouvido pela primeira vez, ele se desdobrou em um perturbador sentido duplo, afirma Gary Hoppenstand, professor de Língua e Pensamento Norte-Americanos na Universidade do Estado de Michigan. Tropas iraquianas estão lutando de forma mais determinada do que se esperava. Em outras palavras, não estão nem espantadas nem amedrontadas. Com o passar do tempo, o termo pode vir a significar o oposto daquilo que pretendiam as forças armadas dos Estados Unidos.

"Será que esse termo vai servir para denotar algo que fracassou?", indaga. "É assim que funciona a língua humana".


Tradução: Danilo Fonseca

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