Veja quem está recebendo os contratos para reconstrução do Iraque

DeWayne Wickham


WASHINGTON - "Siga o dinheiro". Esse foi o conselho que um editor me deu, anos atrás, quando fui tolhido pela autoridade de um político que estava cobrindo.

Não fiz isso, mas o FBI sim, e o sujeito -governador de Maryland Marvin Mandel- acabou sendo condenado à prisão por aceitar suborno, sentença derrubada mais tarde, por aspectos técnicos.

Pensei neste conselho testado pelo tempo quando o governo Bush anunciou que a guerra com o Iraque custará aos contribuintes US$ 75 bilhões (cerca de R$ 252 bilhões), nos próximos seis meses. Grande parte da quantia -US$ 62,6 bilhões (cerca de R$ 210 bilhões)- custeará as operações militares.

A segurança nacional receberá US$ 4,3 bilhões (aproximadamente R$ 15 bilhões), para ajudar os estados e cidades a pagarem pelo reforço na vigilância contra outro ataque terrorista em solo americano.

Os US$ 8 bilhões (cerca de R$ 27 bilhões) restantes, segundo Bush, serão usados em ajuda humanitária e na reconstrução de partes do Iraque que agora estão sendo destruídas pelas forças americanas e britânicas.

Não ficou claro, porém, quanto dos US$ 8 bilhões irá para o tratamento de feridos e alimentação da população no Iraque -e quanto será pago a corporações para reconstruírem o país, quando o tiroteio parar.

Parece, porém, que, mesmo em tempo de guerra, o conselho "siga o dinheiro" é pertinente.

O que quero dizer? Apesar dos EUA e o Reino Unido serem parceiros na luta contra Saddam, aparentemente não concordam quando ao destino dos espólios da guerra. Durante várias semanas -ou seja, antes mesmo do presidente Bush publicamente decidir entrar em guerra- o governo federal vem negociando contratos com um pequeno grupo de empresas americanas para a reconstrução do Iraque após o conflito armado.

Autoridades do governo britânico do primeiro ministro Tony Blair estão delatando a decisão do governo americano de conceder todos os contratos principais -que serão de até US$ 900 milhões (cerca de R$ 3 bilhões)- apenas para firmas americanas. Isso significa que, enquanto os britânicos assumiram uma grande parte da carga da guerra, receberão apenas uma pequena parte dos frutos do conflito.

Empresas estrangeiras poderão competir por alguns dos subcontratos, disseram. A pequena lista de empresas consideradas para um dos principais contratos inclui algumas "com importantes conexões com o governo Bush", disse o jornal The Washington Post.

Uma subsidiária da Halliburton Co., que já foi chefiada pelo vice-presidente Dick Cheney, já recebeu um contrato para extinguir incêndios de petróleo no Iraque.

Surpresa, surpresa! Halliburton tem a conexão política mais proeminente com a Casa Branca de Bush. Foi ali que Cheney trabalhou entre seus cargos como secretário de defesa, durante a presidência de George H.W. Bush, e a vice-presidência de George W. Bush.

Quando foi diretor executivo da Halliburton, Cheney, que teve importante papel na Guerra do Golfo de 1991, usou duas subsidiárias estrangeiras para que a Halliburton trabalhasse na reconstrução dos campos de petróleo iraquiano.

Quando Cheney deixou a Halliburton para concorrer na chapa de Bush, a empresa deu-lhe um pacote de rescisão de US$ 34 milhões (aproximadamente R$ 114 milhões). Agora, ela consta da diminuta lista de empresas que poderão beneficiar-se com a segunda guerra deste país com o Iraque, em 12 anos.

Desde a saída de Cheney, em agosto de 2000, as ações da Halliburton desmoronaram. Além disso, a empresa está sendo investigada pela Comissão de Títulos e Câmbio (SEC, a CVM americana) por práticas contábeis questionáveis na época em que estava no leme da firma.

A sorte da empresa, porém, está virando -graças, ao menos em parte, aos benefícios financeiros que derivará da guerra no Iraque, com quem seu antigo diretor teve uma relação incestuosa.

Tudo isso traz à mente outro conselho que um editor me deu: "Quando a questão é dinheiro e política, o que vai, quase sempre, volta", disse ele.


Tradução: Deborah Weinberg

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