Sucesso de vacina contra Aids em negros gera onda de polêmica social

Steve Sternberg


Em um mundo mais simples, tais notícias seriam saudadas com um júbilo revestido de cautela. Após 20 anos de frustrações, o primeiro estudo em grande escala de uma vacina contra a Aids oferece uma indicação espantosa de que ela é capaz de proteger certos indivíduos da raça negra da doença.

Mas, ao invés disso, a descoberta, anunciada no final de fevereiro deste ano, desencadeou uma batalha racial entre os dois grupos que mais necessitam da vacina.

A vacina, chamada de AIDSVAX, fracassou no sentido de se sair melhor do que uma injeção inócua no teste que envolveu 5.400 pessoas. Mas, quando os pesquisadores verificaram os resultados para negros, asiáticos e pessoas miscigenadas, eles se depararam com a grande surpresa de suas vidas.

"Essa história de raças apareceu subitamente", conta o presidente da empresa VaxGen, Donald Francis. "E ela teimou em se fazer presente como um dedo machucado. Na hora pensamos: "Ah, meu Deus, como vamos lidar com isso?".

O anúncio provocou instantaneamente a contestação de tal fato pelos grupos de luta pelos direitos dos pacientes de Aids, que são formados principalmente por indivíduos brancos e homossexuais, além de manifestações de dúvidas da parte de alguns cientistas conhecidos, que alegaram que a vacina fracassou em proteger a maioria dos voluntários, que são brancos e hispânicos. Os céticos descartaram a descoberta como sendo um deslize estatístico de uma companhia que luta para salvar uma pesquisa que já dura dez anos e na qual foram investidos US$ 200 milhões.

Já os defensores dos direitos dos pacientes negros de Aids ficaram furiosos com a rápida condenação da primeira evidência que sugere que uma vacina contra a doença poderia funcionar em seres humanos, especialmente em se tratando de uma população que arca com o peso de responder por metade de todos os novos casos da enfermidade.

Phill Wilson, do Centro de Treinamento e Políticas sobre a Aids entre afro-americanos da Universidade da Califórnia em Los Angeles afirma que o estudo não gerou tensão racial entre os militantes da luta contra a Aids; o que a pesquisa fez foi revelar uma divisão que existe há anos. "Para ser franco, o estudo simplesmente nos obrigou a encarar o problema", afirma ele.

Imprensada entre as duas facções rivais está a VaxGen, cuja vacina foi ridicularizada por alguns dos seus mais ferrenhos críticos - um deles chegou a rotular a vacina de "detergente de louça".

Em uma reunião ocorrida na última segunda-feira em Banff, na província de Colúmbia Britânica, no Canadá, a empresa anunciou que a vacina fracassou no sentido de criar uma segunda linha de defesa, mostrando-se incapaz de melhorar o sistema imunológico de indivíduos que já estão infectados com o HIV.

Mas a análise mais nova e detalhada apresentada nesta semana sugere que a vacina funciona melhor quando uma pessoa é exposta a uma variedade do HIV que se parece bastante com aquela utilizada na fabricação do produto.

Além disso, mulheres que participaram do estudo pareceram ter mais tendência a produzir anticorpos mais potentes do que os homens. "A má notícia é que a vacina não parece ser eficaz em termos gerais", acrescenta. "E a boa notícia é que pode ser que tenhamos identificado uma brecha na parede".

As decisões da VaxGen podem reverberar por meses ou ano, na medida que a companhia explore os seus dados e os críticos dissequem a forma como a empresa lidou com eles. A crítica mais intensa emergiu na semana passada no Tribunal Federal do Norte da Califórnia, onde investidores entraram com um processo contra a companhia, alegando que a VaxGen teria cometido fraude contra eles, ao ter exagerado o potencial da vacina. Quando as descobertas foram anunciadas em 24 de fevereiro, o valor da ação da firma despencou 85%, para US$ 3, depois te ter alcançado o seu apogeu em 18 de novembro do ano passado, quando valia US$ 23,25. Os advogados da VaxGen afirmam que nenhuma das alegações têm procedência.

Os especialistas dizem que o estudo levanta várias questões científicas importantes:
  • Serviço público versus sobrevivência corporativa. Companhias de pesquisa privada têm obrigação básica para com os acionistas e tratam os dados científicos como segredos da companhia. As tradições científicas, incluindo o exame de dados de pesquisa por especialistas externos, são colocadas de lado antes de serem divulgadas. Como, então, o mundo será capaz de testar a validade das alegações científicas?
  • O problema do comércio interno. Empresas privadas precisam divulgar informação para todos ao mesmo tempo, a fim de garantir que nenhum investidor usufrua de uma vantagem injusta no mercado de ações. Mas isso pode significar a divulgação de dados antes que todos os aspectos da questão possam ser analisados.
  • Verdades, mentiras e estatísticas de subgrupos. A companhia afirma que a sua pesquisa revelou uma associação estatisticamente significativa entre a vacina e a imunidade contra o HIV em negros e, possivelmente, asiáticos, ainda que o produto tenha sido um fracasso para a maioria dos voluntários. Mas os estatísticos questionam a significância do resultado, afirmando que a VaxGen não aplicou ferramentas estatísticas suficientemente rigorosas.
  • O legado de Tuskegee, parte um. Caso as esperanças dos negros sejam frustradas, o estudo poderá aumentar ainda mais a desconfiança desse grupo racial para com o meio médico, motivada por episódios tais como o estudo Tuskegee, financiado pelo governo, no qual médicos brancos privaram pacientes negros que sofriam de sífilis de antibióticos, de forma que pudessem estudar o desenrolar da doença.

    "Se as pessoas não confiarem nos resultados e acreditarem que há algo de errado se passando, elas vão lembrar de Tuskegee", alerta Cornelius Baker, diretor da Clínica Whitman-Walker, em Washington, D.C.

    "Os negros não acreditam que os problemas quanto aos resultados da pesquisa realmente digam respeito à VaxGen; eles acham que é a estrutura de poder HIV-Aids que não deseja beneficiar os afro-americanos".

    Tuskegee, parte dois. Se as esperanças dos negros forem frustradas, os pesquisadores encontrarão dificuldades ainda maiores do que as que enfrentam no momento para recrutar afro-americanos para os testes com a vacina. O estudo feito pela VaxGen não conseguiu produzir resultados convincentes com relação aos negros porque os pesquisadores foram incapazes de recrutar um número suficientes de voluntários dessa raça para o estudo. O grupo formado de asiáticos foi ainda menor.

    A oposição à AIDSVAX vêm crescendo há muito tempo. A vacina é uma versão atualizada de uma outra, feita pela Genetech no início dos anos 90. Mesmo assim, alguns cientistas estão céticos quanto à possibilidade de que ela possa se mostrar efetiva, em parte porque os testes da companhia não são tão rigorosos como aqueles feitos em outros laboratórios.

    Testes anteriores foram conduzidos com uma variedade atenuada do HIV, e não com as variedades naturais que circulam em meio ao universo dos pacientes. E estudos com primatas envolveram um chimpanzé infectado com o HIV que se encaixava geneticamente de forma exata com o vírus da vacina.

    "O palco estava montado para o sucesso da vacina", conta John Moore, do Centro Médico Weill Cornell, em Nova York, um conhecido crítico da AIDSVAX que fez parte de um comitê de especialistas que analisou os dados de um estudo anterior com a vacina. A seguir, em 1998, a Administração de Alimentos e Remédios aprovou o teste em larga escala com seres humanos por parte da VaxGen, e o palco ficou pronto para mais polêmicas.

    Em 15 de fevereiro, uma equipe de analistas de dados da VaxGen se hospedou em um hotel que não fica distante dos escritórios da firma, a fim de analisar os resultados do estudo.

    Os pesquisadores não encontraram diferença alguma entre aqueles que receberam a vacina e os que tomaram doses de placebo. A seguir, começaram a examinar os dados, se concentrando em certos subgrupos, que incluíam sexo e raça. A vacina pareceu ter uma eficácia de 78,3% entre os negros e de 68% entre os asiáticos. "Descobrimos uma eficiência notável, especialmente entre os negros", conta Phillip Berman, da VaxGen, o inventor da vacina. "O resultado foi altamente significativo, do ponto de vista estatístico".

    Mas os subgrupos eram pequenos, algo que quase sempre prejudica a validade de um estudo. Havia apenas 314 indivíduos negros entre os 5.400 voluntários, metade do número que a firma necessitava para contar com uma população representativa. O número de asiáticos foi tão pequeno que os pesquisadores não podem descartar a possibilidade de que os resultados positivos sejam fruto de pura sorte.

    Não obstante, a descoberta fez com que os pesquisadores da Rede de Testes com Vacinas contra o HIV, com sede em Seattle, passassem a se mobilizar no sentido de buscar quaisquer diferenças quanto à proteção contra a doença relacionadas a raça entre os voluntários participantes de todos as pesquisas prévias.

    "A verdadeira história que estamos presenciando é que a comunidade científica está começando a olhar cuidadosamente para as diferenças que podemos esperar entre homens e mulheres quando se leva em consideração a raça", afirma Steve Wakefield, diretor da rede para relações comunitárias e educação.

    Segundo Francis, a VaxGen não teve tempo de analisar todos os dados, e a firma não é capaz de sonegar os resultados. A informação, não importa qual seja, afetaria o preço das ações da VaxGen. Caso a informação vazasse para alguns acionistas, mas não para outros, aqueles que conhecessem os resultados contariam com uma vantagem econômica injusta.

    "Tivemos que anunciar esses resultados porque a legislação exige que todos os investidores recebam as informações simultaneamente", explica.

    No dia 23 de fevereiro, Francis revelou as descobertas para cientistas e ativistas importantes em uma conferência aberta apenas para convidados. Os resultados seriam divulgados pela mídia na manhã seguinte, antes da abertura das bolsas de valores.

    Devidos às implicações raciais, Francis pediu a Wilson que o convidasse para participar do encontro. A medida que Wilson ouvia, as suas preocupações cresciam. "Chamei Francis de volta depois da meia-noite", diz ele, e lhe disse que "o anúncio seria problemático. Uma companhia branca vai dizer que tem uma vacina que funciona apenas para os negros, e, portanto, não vamos vacinar os brancos?".

    Moore disse ter ficado chocado com a forma como a companhia tratou tais descobertas preliminares. "Eu sabia que eles fariam algo para se manterem à tona. O que eu não sabia é que iriam se concentrar na questão racial", conta. "Assim que tiraram a carta racial da manga, tudo mudou. A ciência passou para o segundo plano. Fiquei embasbacado".

    Um consórcio de grupos de defesa dos direitos dos doentes de Aids, incluindo a Federação Americana para Pesquisas sobre a Aids, o Crise de Saúde dos Homens Gays, a Coalizão de Defesa da Vacina contra a Aids, o Projeto Inform, de Los Angeles, e a Iniciativa Internacional pela Vacina contra a Aids contestou o resultado.

    "Nos preocupávamos com a possibilidade de estarmos sendo excessivamente otimistas, e sentimos que era importante que enfatizássemos a cautela quanto à interpretação dos resultados", afirma Chris Collins, diretor-executivo da Coalizão de Defesa da Vacina contra a Aids. "Não é do interesse do campo de estudos nem das comunidades envolvidas que se tire alguma conclusão antes de avaliarmos o que de fato temos em mãos".

    "Eles vieram com uma marreta nas mãos, dizendo que a vacina é um fiasco", diz Wilson. "Foi aí que o pessoal se irritou. Sentimos que, caso os dados tivessem demonstrado qualquer eficiência da vacina entre a população branca, eles não a teriam descartado de forma tão rápida".

    Collins diz que a lição não passou desapercebida. "Vários grupos cresceram a partir dessa experiência", diz ele. "Estamos trabalhando juntos com mais freqüência".

    Baker, da Clínica Whitman-Walker, diz, "A realidade é que a pesquisa para a obtenção de uma vacina está apenas começando. É melhor colocarmos as cartas sobre a mesa agora do que daqui a quatro anos, quando teremos outras pesquisas em andamento".


    Tradução: Danilo Fonseca
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