Diário de repórter: uma viagem arriscada a Bagdá

Jack Kelley e Jim Michaels


Embora Bagdá tenha caído, a estrada para lá não é nada pacífica. Durante uma viagem de 480 quilômetros em 13 horas e meia da Cidade do Kuait a Bagdá, na quinta-feira, civis iraquianos atacaram nosso veículo 4x4 na cidade fronteiriça de Safwan e quebraram o vidro traseiro. Depois soubemos que civis já tinham montado emboscadas para vários veículos militares americanos, tentando roubar peças, e para dezenas de comboios de ajuda humanitária, na tentativa de roubar comida.

Horas depois, enquanto trocávamos um pneu furado sobre uma ponte no sul de Bagdá, uma granada projetada por foguete, disparada por iraquianos, explodiu perto de nós. Soldados americanos nos mandaram buscar abrigo sob uma ponte enquanto combatiam os mercenários egípcios e sírios que estão lutando com os iraquianos.

"Todo mundo tem uma granada lançada por foguete neste país", disse o soldado John Porter, 19 anos, de Nashville. "A situação é muito imprevisível aqui. Está mudando o tempo todo."

Tanques bombardeados

Nossa viagem do Kuait a Bagdá acompanhou a linha de suprimento militar dos Estados Unidos. Foi um percurso traiçoeiro, por estradas cheias de iraquianos acenando para os carros que passavam, na esperança de obter dinheiro ou comida. No caminho, colunas de fumaça preta escureciam o céu. Tanques iraquianos bombardeados obstruíam as estradas. E havia pontos de controle iraquianos abandonados sobre as pontes.

A maior parte da estrada tinha uma grossa camada de poeira. Veículos iraquianos destroçados ladeavam as estradas. Nosso pequeno comboio de seis veículos carregados de jornalistas e equipamento viajou quilômetros sem ver muito mais que camelos e burros.

Forças dos fuzileiros navais e do exército operavam os pontos de controle. Um fuzileiro pediu um cigarro e notícias.

Conforme a estrada se aproximava de Bagdá, os sons de artilharia e armas leves aumentaram. À distância pudemos ver a fumaça sobre Karbala, uma cidade ao sul da capital onde forças americanas estão combatendo bolsões de resistência.

Pouco ao sul de Bagdá a estrada asfaltada estava coberta de destroços retorcidos de tanques, transportes blindados de pessoal e armas antiaéreas iraquianas.

Quando chegamos à periferia de Bagdá as ruas estavam cheias de alegres saqueadores. Muitos iraquianos carregavam lenços brancos ou tinham bandeiras brancas presas aos carros, indicando que não eram combatentes inimigos. Davam as boas-vindas às tropas americanas -a estrada estava lotada de veículos militares- enquanto transportavam com carrinhos geladeiras, secadoras e outros itens.

"Eles estão saqueando, mas acenam e sorriem", disse o primeiro tenente Bevan Stansbury, 27, de Austin (Texas), o oficial executivo da Companhia B, 3/15 de Infantaria, atualmente em Bagdá.

Alguns iraquianos demonstravam um genuíno agradecimento aos soldados, aplaudindo, sorrindo e soprando beijos. Um deles segurava uma placa que dizia "Escudos humanos, vão embora", referindo-se aos pacifistas que foram a Bagdá demonstrar sua objeção à guerra.

As pessoas aplaudindo "nos fazem sentir que estamos aqui por um motivo", disse o soldado John Von Hagel, 19, de Frederick, Maryland.

Mercenários estrangeiros

Os soldados continuam sendo ameaçados por mercenários estrangeiros, soldados da Guarda Republicana Especial e da milícia Fedayin Saddam. "Ainda há alguns cabeças-duras por aí", disse o soldado William Scates, 27, de Oklahoma City. "São eles que estamos enfrentando agora."

No final da quinta-feira, soldados americanos próximos à ponte onde nos abrigamos olhavam pelos binóculos de visão noturna acompanhando os movimentos de milicianos iraquianos.

Os milicianos se escondiam atrás de construções e avançavam aos poucos para a passagem sob uma ponte onde os soldados estavam acampados. Em breve, cerca de uma dúzia de milicianos estavam a 100 metros de distância. Pareciam estar preparando uma emboscada. Vários carregavam lança-foguetes, outros estavam armados com fuzis AK-47.

Esperando um ataque, os soldados americanos dispararam duas salvas de canhão. Os milicianos não se moveram. Os soldados salpicaram a área com tiros de armas automáticas. Desta vez os milicianos responderam lançando uma granada com foguete. Os soldados se abrigaram. Ela pousou alguns metros depois da passagem onde tínhamos parado.

Os soldados continuaram atirando e os milicianos recuaram. Eles correram para casas próximas. Os soldados americanos, temendo ferir civis, pararam de atirar.

De repente, da rua adjacente, um carro aproximou-se da área onde os soldados e nós estávamos abrigados. Os faróis estavam desligados. Os soldados, temendo um possível ataque suicida, dispararam tiros de advertência para o ar. O carro continuou se aproximando. Os soldados dispararam uma salva de canhão. Ela errou o carro por alguns metros, mas foi suficiente para convencer o motorista a manobrar e se afastar.

"Eles voltarão para nos pegar", disse o soldado Mark McAuliffe, 21, de Oakland. "Para eles a guerra está longe de terminar."


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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