Saddam enriqueceu ilicitamente, dizem investigadores

Chuck Raasch
GNS Politica Writer/USA Today


Washington - Enquanto os soldados da coalizão anglo-americana se maravilham ante à opulência dos palácios de Saddam Hussein, os Estados Unidos e seus aliados confiscam os bens do líder iraquiano e de sua família, tanto aqui como em várias partes do mundo.

Antes do início da guerra, em 19 de março, Saddam acumulou uma fortuna pessoal que, segundo alguns analistas, passaria dos US$ 10 bilhões, por meio de vendas ilegais de petróleo, propinas cobradas pela venda do produto e sobre mercadorias importadas, como cigarros, e até mesmo através da exploração das operações cambiais de atletas, segundo relatórios governamentais e de empresas privadas.

Após o começo da guerra, os Estados Unidos confiscaram US$ 1,7 bilhão de bens de Saddam Hussein que estavam congelados aqui desde a Guerra do Golfo Pérsico de 1991. O dinheiro foi depositado no Federal Reserve Bank de Nova York para ser utilizado no pós-guerra pelo povo iraquiano. Cerca de US$ 125 milhões foram pagos a indivíduos que processaram o governo iraquiano e ganharam as ações na justiça, segundo um porta-voz do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Além disso, governos estrangeiros não identificados encontraram cerca de US$ 1 bilhão em bens de Saddam que serão reservados para um novo regime no Iraque, informou na terça-feira o Departamento do Tesouro.

O secretário do Tesouro, John Snow, disse que os Estados Unidos "estão liderando uma caçada mundial ao dinheiro sangrento que Saddam Hussein e seus asseclas roubaram do povo iraquiano".

Relatos feitos por jornalistas que viajaram com tropas anglo-americanas falam de banheiros com peças de ouro, mobiliário caro, espelhos d'água repletos de peixes ornamentais e outros sinais de ostentação em palácios construídos para Saddam e seus filhos, Uday e Qusai. O Departamento de Estado calcula que Saddam tenha gasto cerca de US$ 2 bilhões na construção de 48 palácios.

Tropas norte-americanas informaram ao USA Today que o contraste entre os palácios e a realidade dos iraquianos comuns é chocante.

"Passamos por cidades pequenas, onde as pessoa mal tinham água corrente", conta o cabo do exército Sam Hardy, de Richmond, Virginia. "E, considerando as condições sob as quais essa gente vive, seria loucura dizer que o adoram".

Um amplo estudo realizado pela Coalizão pela Justiça Internacional (CIJ na sigla em inglês), um grupo de direitos humanos sem fins lucrativos, que avaliou a riqueza de Saddam, estima que ele e sua família receberam cerca de US$ 2,5 milhões de forma ilícita somente no ano passado. O contrabando de petróleo, em sua maioria para os países vizinhos, respondeu por 90% desse valor, segundo o relatório.

A CIJ se especializou em monitorar abusos dos direitos humanos em Ruanda, Balcãs, Timor Leste e outros locais.

O relatório da coalizão lista outras fontes de rendimentos de Saddam, "de projetos do setor de transportes ao contrabando de cigarros, que se transformou em objeto de brigas e discórdia entre os filhos do ditador. Isso sem falar da exploração cínica de oportunidades propiciadas pelo Comitê Olímpico Iraquiano e da cobrança de taxas dos peregrinos religiosos que visitam os locais sagrados do Iraque".

O Departamento de Contabilidade do Governo calcula que a fortuna de Saddam estivesse na casa dos US$ 6 bilhões, mas o estudo feito pela CIJ estima que o presidente deposto tenha amealhado uma média de US$ 2 bilhões anualmente no decorrer dos últimos cinco anos.

Jules Kroll, um conhecido investigador internacional que se debruçou sobre a riqueza global do líder iraquiano, em um trabalho encomendado pelo governo do Kuait após a Guerra do Golfo Pérsico de 1991, concorda com as estimativas da CIJ, segundo as quais Saddam acumulou uma fortuna de mais de US$ 10 bilhões.

O estudo da coalizão também afirmou que os Estados Unidos e seus aliados demonstraram relutância em coibir o comércio ilegal entre o regime de Saddam e os vizinhos Síria, Jordânia e Turquia, já que esses países foram aliados dos norte-americanos na luta contra o terrorismo.

Quantidades significativas de petróleo vendido segundo o programa "comida por petróleo", sancionado pela ONU, são consumidas nos Estados Unidos, segundo o estudo da CIJ. Em janeiro de 2002, quando o presidente George W. Bush disse pela primeira vez que o Iraque seria parte de um "eixo do mal", 75% do petróleo vendido naquele mês pelo país foram consumidos pelos Estados Unidos, segundo a coalizão de direitos humanos.

O estudo da CIJ também identifica França, Rússia e Austrália como grandes importadores do petróleo iraquiano.


Tradução: Danilo Fonseca

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