Há quem se preocupe com a possibilidade de uma rebelião xiita

Barbara Slavin


Antes da guerra do Iraque, os líderes muçulmanos sunitas de outras partes do mundo árabe advertiram que a derrubada de Saddam Hussein poderia ter conseqüências não planejadas. Eles temiam que a iniciativa pudesse fortalecer elementos radicais dentre os muçulmanos xiitas, que são uma maioria no Iraque, no Irã, no Líbano, em Bahrain e no leste da Arábia Saudita.

Agora que Saddam caiu, essas previsões poderiam se materializar. Indícios de rebeliões xiitas estão aparecendo: na última terça-feira, na cidade de Nasariyah, no sul do país, 20 mil xiitas fizeram uma manifestação contra os Estados Unidos, enquanto que os líderes xiitas apoiados pelo Irã boicotaram as primeiras negociações patrocinadas pelos norte-americanos sobre a criação de um novo governo iraquiano.

Autoridades dos Estados Unidos disseram que alguns membros da milícia xiita libanesa Hezbollah foram capturados ao tentarem cruzar a fronteira entre a Síria e o Iraque. Não se sabe quantos entraram no país sem ser detectados.

O objetivo dos Estados Unidos é substituir a ditadura de Saddam por um governo que represente todos os grupos étnicos e religiosos do país. A esperança é que a nova autoridade seja secular, ou pelo menos tolerante para com as várias religiões, e que não sofra influência excessiva dos vizinhos Síria e Irã. Mas, para ser realmente democrático, o novo governo teria que conferir o maior poder de decisão aos xiitas, que representam dois terços dos 24 milhões de habitantes do Iraque.

Historicamente reprimidos no Iraque e em outras regiões do mundo árabe pelas suas práticas religiosas, que diferem daquelas dos sunitas dominantes, os xiitas "parecem estar em ascensão neste momento", afirma Kenneth Katzman, especialista em Oriente Médio do Serviço de Pesquisas do Congresso. "O Iraque agora é deles".

As forças armadas anglo-americanas inicialmente encorajaram as autoridades clericais a preencherem o vácuo deixado pelo rápido colapso do governo de Saddam. Os britânicos colocaram um clérigo xiita na administração de Basra, a segunda maior cidade do Iraque, e um outro líder religioso se auto-proclamou prefeito da Cidade Saddam, a grande favela xiita de Bagdá. Também em Al Kut, ao sul de Bagdá, um clérigo assumiu a autoridade local.

Ao mesmo tempo, a rivalidade entre os xiitas iraquianos que era suprimida sob o regime de Saddam está emergindo com fúria sangrenta.

Na cidade xiita sagrada de Najaf, na semana passada, Abdul Majid al-Khoei, de 50 anos, filho de um grande aiatolá falecido, hierarquicamente mais importante até do que o líder revolucionário do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini, em termos de autoridade religiosa, foi assassinado por seguidores de clérigos rivais.

"Foi uma grande perda", lamenta Feisal Istrabadi, um xiita iraquiano, naturalizado norte-americano, que mora em Chicago, referindo-se à morte de Khoei. Istrabadi classificou de "um erro de proporções colossais" o fato de as forças dos Estados Unidos não terem protegido o exilado iraquiano, que foi para Najaf esperando conquistar influência na cidade.

Istrabadi ressalta que o pai de Khoei, que morreu no Iraque em 1992, após uma rebelião fracassada contra Saddam, "estabeleceu o princípio da separação entre igreja e Estado como sendo uma obrigação religiosa" para os 240 milhões de xiitas do mundo - e essa era exatamente a mensagem que os Estados Unidos gostariam de ver difundida no Iraque e em toda a região.

Segundo Katzman, Khoei foi assassinado por seguidores de um outro clérigo xiita, que foi morto pelo regime iraquiano em 1999. Esse grupo parece ter se alinhado a seguidores de Mohammed Bakr Hakim, herdeiro de uma outra família clerical xiita iraquiana proeminente que recebe apoio do Irã. Hakim controla entre 5.000 e 10.000 milicianos nas chamadas Brigadas Badr, que foram treinadas pela Guarda Revolucionária Iraniana. Eles parecem ter permanecido no Irã após o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ter advertido nos primeiros dias da guerra que o grupo não deveria intervir no conflito.

Alguns analistas dizem que o Irã veria com bons olhos o fato de Ahmad Chalabi, um xiita secular apoiado pelo Pentágono, se tornar o líder interino do Iraque, já que em tese ele poderia ser removido do poder tão logo os norte-americanos começassem a se retirar. Chalabi cairia "porque não conta com suporte interno", afirma Vince Cannistraro, ex-diretor de contra-terrorismo da CIA. "A seguir, Hakim e outros ocupariam o seu lugar".

Os xiitas não se constituem em um grupo monolítico, e uma vitória dos xiitas iraquianos não significa necessariamente uma vitória do Irã, um país não árabe, governado por clérigos desde 1979. Irã e Iraque travaram uma guerra intensa entre 1980 e 1988, e o nacionalismo iraquiano é forte entre os xiitas, assim como entre os sunitas. Mas poderia haver um efeito dominó caso os xiitas tomassem o poder no Iraque, reforçando os movimentos pelo fortalecimento dos xiitas da Arábia Saudita, Kuait e Bahrain.

Um Iraque governado por xiitas poderia também satisfazer a Síria, um aliado iraniano cujo presidente e elite governante têm origem no setor alawita, que é um que é um ramo da ala xiita.

Em uma entrevista publicada em 27 de março no jornal libanês "As Safir", o presidente sírio Bashar Assad previu que os Estados Unidos poderiam terminar por descobrir que a vitória no Iraque traria problemas enormes - de forma similar ao que aconteceu aos israelenses quando invadiram o Líbano, em 1982, somente para se verem metidos em uma encrenca que durou 18 anos, até que se retirassem do país, cobertos de frustração, em 2000.

"Não há dúvidas de que os Estados Unidos são uma superpotência capaz de conquistar um país relativamente pequeno", disse Assad. "Mas será que os norte-americanos serão capazes de controla-lo?".


Tradução: Danilo Fonseca

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