A pergunta que não cala: onde está Saddam?

Jack Kelley


Bagdá - Embora a luta no Iraque tenha amainado, paramilitares da CIA e membros das forças de operações especiais dos Estados Unidos ainda tentam responder à maior das questões ainda pendente desta guerra: Onde está Saddam?

Ninguém parece saber. Alguns relatórios de inteligência dos Estados Unidos e interceptações de conversas de oficiais militares iraquianos indicam que ele talvez não tenha sobrevivido ao bombardeio de um bairro residencial de Bagdá no dia 7 de abril. Mas outras pessoas acham que o líder iraquiano pode estar vivo.

O que deixa algumas autoridades norte-americanas intrigadas é o fato de, até o momento, não haver sinais de Saddam Hussein, vivo ou morto. Boatos de que alguns líderes iraquianos escaparam para outros países, incluindo a Síria e a Rússia, que estão escondidos no Iraque ou que morreram nos bombardeios aéreos norte-americanos estão motivando uma busca intensa. Mas há poucas evidências que expliquem o seu desaparecimento.

"A liderança inteira desapareceu", afirma um oficial de inteligência graduado dos Estados Unidos que atua na região. Só se conhece uma autoridade iraquiana que tenha escapado para a Síria. Trata-se de Jaffar Dhai Jaffar, que chefiou o programa clandestino de armas nucleares iraquianas, e que fugiu para Damasco no início deste ano. Ele recentemente se entregou a autoridades dos Estados Unidos, enquanto procurava escapar para outro país do Golfo Pérsico. O ministro da Informação, Mohammed Saeed al-Sahhaf, o homem que alegou na televisão iraquiana que tropas dos Estados Unidos estariam longe de Bagdá quando os fuzileiros navais norte-americanos entravam na capital iraquiana, pode também estar na Síria, segundo uma ex-autoridade governamental do Iraque.

Na última segunda-feira o governo Bush ameaçou a Síria, vizinha do Iraque, com sanções econômicas, sob a alegação de que o país estaria abrigando membros do regime de Saddam.

Há poucas pistas na caçada a Saddam Hussein. As forças de operações especiais dos Estados Unidos, elementos operacionais da Agência de Inteligência de Defesa e paramilitares da CIA que vasculham palácios e escritórios do governo não encontraram um documento ou pista sequer que possa indicar o paradeiro do líder iraquiano, afirmam oficiais de inteligência dos Estados Unidos. Um oficial graduado das forças armadas dos Estados Unidos diz que palácios e escritórios tiveram todas as provas retiradas "de forma profissional e meticulosa".

As forças armadas dos Estados Unidos não acreditam que descobrir o que aconteceu a Saddam ainda se constitua em um objetivo. O general Buford Blount, comandante da 3ª Divisão de Infantaria do Exército, disse, "Não me preocupo com isso. Ele não está mais no poder e o seu regime não tem mais qualquer influência no país. Creio que está morto. Acho que provavelmente morreu durante um dos bombardeios".

Mas oficiais de inteligência dos Estados Unidos dizem que continuarão com as buscas. "Estamos determinados a pegar esse cara", diz um oficial graduado de inteligência na região. "A guerra não estará terminada até que o capturemos".

Uma rota possível: o caminho dos contrabandistas

A caçada está em andamento em túneis, palácios presidenciais e residenciais. As forças de operações especiais dos Estados Unidos também estão monitorando a fronteira com a Síria, que pode ter sido uma rota de fuga. E navios norte-americanos estão patrulhando o Mar Mediterrâneo e o Golfo Pérsico em uma tentativa de capturar qualquer um que tente escapar pelo mar.

As forças dos Estados Unidos já descobriram algumas passagens secretas e câmeras ocultas. Mas as buscas iniciais, que começaram na sexta-feira passada, não revelaram quaisquer pistas sobre o paradeiro do líder iraquiano.

Em uma outra tentativa, oficiais militares norte-americanos distribuíram cartas de baralho com as fotos de 55 líderes iraquianos procurados pelo governo dos Estados Unidos por terem, supostamente, cometido crimes de guerra contra as forças norte-americanas no Iraque. Eles também estão oferecendo recompensas, cujo valor não foi divulgado, por informações que levem a captura dessas pessoas. Civis iraquianos têm se prontificado a ajudar, mas oficiais de inteligência afirmam que receberam poucas informações valiosas. "Estamos explorando todas as pistas", afirma um oficial graduado de inteligência dos Estados Unidos que atua na região. "Infelizmente, não contamos com nada de definitivo".

Até agora, parece que apenas um dos altos líderes iraquianos foi morto. Autoridades do Pentágono declararam que Ali Hasan al-Majid, conhecido como "Ali Químico" devido ao fato de ter matado com gás um grupo de curdos no norte do Iraque, em 1988, foi morto quando as forças anglo-americanas bombardearam a sua casa no início deste mês, nas imediações da cidade de Basra, no sul do Iraque.

Oficiais de inteligência norte-americanos dizem que um grande comboio composto por várias dezenas de veículos cruzou a fronteira com a Síria na primeira semana da guerra. Eles acreditam que um dos carros pode ter levado autoridades governamentais iraquianas e a primeira mulher de Saddam, Sajida Khairallah. Ela é a mãe dos dois filhos de Saddam Hussein, Uday e Qusay.

Poucos dias depois, forças de operações especiais dos Estados Unidos se dirigiram para a área e passaram a bloquear as estradas que levam à Síria. Mas a fronteira de 600 quilômetros de extensão entre os dois países, uma área plana e fértil entre os rios Tigre e Eufrates, é cortada por centenas de pequenas trilhas usadas por contrabandistas. Os oficiais de inteligência suspeitam que alguns dos líderes iraquianos podem ter utilizado essas rotas para escapar.

Autoridades norte-americanas estão interrogando um coronel iraquiano que supervisionava a fronteira, buscando informações sobre quais rotas de fuga - se é que houve alguma - os líderes iraquianos poderiam ter utilizado para se dirigirem a Damasco.

Na semana passada, autoridades dos Estados Unidos estavam otimistas quanto à possibilidade de estarem realmente próximos a capturar alguns dos líderes iraquianos. Forças militares dos Estados Unidos se engajaram em um intenso tiroteio com soldados iraquianos na cidade de Qaim, próxima à fronteira síria. Isso fez com que alguns oficiais militares norte-americanos acreditassem que Saddam estaria escondido no local. Mas nenhuma autoridade iraquiana foi encontrada após as forças dos Estados Unidos terem assumido o controle da cidade, dizem oficiais militares.

Segundo um ex-funcionário do Ministério da Informação do Iraque, as forças dos Estados Unidos deixaram de captura-los por pouco. Al Sahhaf, o ex-ministro da Informação, se aproximou do funcionário no dia 7 de abril e perguntou se ele gostaria de se juntar a um comboio que se dirigia para a Síria. O funcionário disse que ficaria, por acreditar que não estava fazendo nada de errado. Ele disse ainda que todos os funcionários de escalão médio e alto do Ministério da Informação aceitaram a oferta de al-Sahhaf. O funcionário disse que acredita-se que o comboio tenha chegado à Síria dois dias antes do combate ocorrido em Qaim, no domingo.

Naquele período, havia poucos membros das forças de operações especiais dos Estados Unidos na área para impedir que o comboio cruzasse a fronteira. Além disso, autoridades norte-americanas dizem que havia a preocupação com a possibilidade de que se tratasse de um comboio civil. Alguns desses comboios foram atingidos pelas tropas anglo-americanas durante a guerra, matando dezenas de civis.

Mentimos para a CIA

Oficiais militares dos Estados Unidos dizem que não recuperaram nenhum resto mortal identificável de Dora Farm, o condomínio residencial próximo à Universidade de Bagdá que foi bombardeado pelos norte-americanos no dia 19 de março, após estes terem recebido informações de que Saddam, seus dois filho e líderes graduados do regime estariam se reunindo no local.

Eles dizem ainda que também não encontraram nenhum resto mortal de uma casa do bairro nobre de al-Mansour, no oeste de Bagdá. Aeronaves dos Estados Unidos jogaram quatro enormes bombas sobre a casa no dia 7 de abril, após a CIA ter recebido informações de que Saddam e outros líderes da cúpula iraquiana lá estariam.

Na quinta-feira passada, equipes de resgate iraquianas e moradores escavaram até o fundo da cratera de 30 metros de profundidade, composta de tijolos, entulho e árvores, criada pelas bombas norte-americanas. Eles, também, disseram não ter encontrado nenhuma evidência de que Saddam, os seus dois filhos e membros da cúpula do regime tenham sido mortos no local. E não se mostraram surpresos com tal fato.

"Nunca vimos Saddam entrar nesta casa", afirma Ghazi Hussein, de 48 anos, fornecedor de peças de automóveis importadas, que mora em Mansour. "Acho que os informantes árabes que trabalhavam para a CIA cometeram um erro. Saddam está vivo". Agências de inteligência dos Estados Unidos freqüentemente empregam árabes do Iraque e outros países do Oriente Médio para trabalharem como informantes, já que eles conseguem se misturar facilmente à sociedade iraquiana.

Os moradores dizem que vários táxis e carros oficiais chegaram ao bairro em 7 de abril, dia do bombardeio. Um dos homens que saiu de um carro oficial parecia ser Qusay, um dos dois filhos de Saddam. Os outros pareciam ser membros do Partido Baath, de Saddam. Ninguém na rua diz ter visto Saddam. Horas depois, a casa foi bombardeada.

Porém, dias antes do bombardeio, os moradores dizem que vários árabes que eles acreditam que trabalhavam para a CIA se aproximaram, oferecendo "malas de dinheiro" em troca de informações sobre o paradeiro de Saddam.

"Nós lhe dissemos aquilo que eles queriam ouvir", conta Samir Ibrahim, de 52 anos, que mora na área. Ele disse ter recebido US$ 100 pela informação passada. "Eles nos perguntaram, 'Vocês viram Saddam?'. Dissemos que sim. E mentimos, porque precisávamos do dinheiro".


Tradução: Danilo Fonseca

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