Primeiro o Iraque, depois Cuba?

DeWayne Wickham
Gannett News Service/USA Today


Washington - Seria Cuba o próximo alvo da política de mudança de regimes praticada pelo governo Bush? Embora nenhuma autoridade governamental em Washington esteja afirmando tal coisa, há sinais de que a ilha caribenha faz parte da pequena lista de países que podem ser o próximo alvo da campanha do presidente para acabar com aqueles líderes dos quais não gosta.

Antes mesmo do fim dos combates no Iraque, a administração Bush passou a aumentar a pressão sobre o governo de Fidel Castro. Em maio do ano passado, John Bolton, subsecretário de Estado, disse em um discurso na Fundação Heritage que Cuba "possui pelo menos um estoque limitado de material biológico para fins ofensivos" e que poderia estar transferindo tecnologia relativa a esses armamentos para alguns dos inimigos dos Estados Unidos - uma acusação que o governo Bush não conseguiu provar.

Mais recentemente, o Departamento de Estado elevou o tom de voz na sua guerra de palavras com Cuba, quando pressionou a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas para que condenasse as prisões, efetuadas pelo regime de Castro, de 75 indivíduos acusados de colaborarem com os esforços dos Estados Unidos no sentido de derrubar o governo comunista. A medida foi rejeitada em votação, por 31 votos a 15.

Mas talvez a indicação mais perturbadora a respeito daquilo que Bush tem em mente com relação a Cuba possa ser encontrada na forma como o governo está lidando com aqueles cubanos que desejam deixar a ilha. Em 1994, o governo Clinton fez um acordo de imigração com Cuba que permite que "não mais de 20 mil cubanos" migrem anualmente para os Estados Unidos.

É compreensível que esse fato deixe as pessoas surpresas.

Embora vários veículos da mídia falem sobre as levas de cubanos que deixam a ilha ilegalmente e cruzam o Estreito da Flórida em barquinhos, praticamente nenhuma dessas publicações menciona os milhares de indivíduos que imigram legalmente da ilha caribenha para este país todos os anos em vôos comerciais que saem de Havana. Em 2001, somente 76 cubanos receberam asilo e 2.767 conseguiram o status de refugiado político. Muitos - mas não todos - desses indivíduos fizeram a temerária viagem de barco até este país.

Naquele mesmo ano, o governo de Castro permitiu que 27.703 cubanos se mudassem legalmente para os Estados Unidos. Mas embora o governo Bush tenha permitido que os indivíduos que recentemente seqüestraram dois aviões de passageiros cubanos ficassem nos Estados Unidos, ele reduziu drasticamente o número de vistos concedidos àqueles que querem vir para cá de maneira legal. Durante os cinco primeiros meses deste ano fiscal, o governo Bush forneceu 505 vistos para cubanos que querem se estabelecer de forma permanente neste país, segundo disse no mês passado o ministro cubano das Relações Exteriores, Felipe Perez Roque.

Autoridades cubanas acreditam que a diminuição do número de vistos seja parte de um plano sinistro, e pode ser que tenham razão. Da mesma forma que o governo Bush se desdobrou para pintar o regime de Saddam Hussein como sendo um Estado terrorista que possuía secretamente armas de destruição em massa, que estava vinculado a grupos terrorista e que brutalizava o próprio povo iraquiano, Washington agora parece estar fazendo esforços similares no sentido montar o palco para um confronto com Cuba.

Ao reduzir o número de imigrantes cubanos legais a um mínimo, o governo Bush aumenta a possibilidade de que os indivíduos que se sintam aprisionados naquele país economicamente deprimido se engajem em agitações por mudança política. Tais iniciativas poderia fazer com que Castro respondesse com mais prisões, uma ação que poderia causar mais agitação civil em Cuba e dar ao governo Bush um pretexto para enviar à ilha tropas para derrubar Fidel.

"Não somos nós que estamos ameaçando o governo dos Estados Unidos", disse Cosme Torres Espinosa, vice-chefe da Seção de Interesses Cubanos em Washington. "Os Estados Unidos é que estão nos ameaçando com tais atitudes".

Tendo se comprometido - e também os Estados Unidos - a utilizar a força de maneira preventiva a fim de mudar regimes, Bush parece agora ter colocado Cuba sobre o fio da navalha desta sua má política.


Tradução: Danilo Fonseca

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