Estados Unidos se preparam para esforço crítico de paz no Oriente Médio

John Yaukey
Gannett News Service/USA Today


Washington - Com a guerra no Iraque passando pelos seus estágios finais, o governo Bush já está ansioso para dar um empurrão nas conversações de paz entre israelenses e palestinos, empacadas desde setembro de 2000 por uma onda contínua de violência conhecida como a segunda intifada.

Diplomatas graduados do governo Bush pretendem agir rapidamente após a confirmação de uma nova liderança por parte dos palestinos na terça-feira.

Possivelmente ainda nesta semana o governo deve anunciar um plano de paz conhecido como "mapa da estrada", que foi elaborado com a Rússia, a União Européia e a Organização das Nações Unidas (ONU).

O secretário de Estado, Colin Powell, deve viajar para a região no mês que vem em uma missão de paz que o levará a Jerusalém, a Ramalá, no território ocupado da Cisjordânia, onde fica a sede da Autoridade Palestina, ao Egito, à Jordânia, à Arábia Saudita e à Síria.

Resgatar as conversações de paz é essencial para o plano de Bush para o Oriente Médio, simplesmente porque o mundo árabe muçulmano jamais aceitará como legítima qualquer política externa dos Estados Unidos caso essa não inclua um Estado nacional para os atualmente destituídos palestinos.

"A questão árabe-israelense continua se constituindo no prisma através do qual o mundo árabe vê os Estados Unidos", diz Shibley Telhami, professor de estudos sobre paz e desenvolvimento da Universidade de Maryland e especialista em relações entre os árabes e os Estados Unidos.

Antes da guerra com o Iraque, o mundo árabe garantiu aos Estados Unidos que promover a paz no Oriente Médio, ao invés de invadir Bagdá, seria uma abordagem mais eficiente para a erradicação do terrorismo.

Bush prometeu que essa seria a tarefa número dois, para pelo menos acalmar os Estados árabes moderados.

Um fracasso quanto à tarefa de obter conquistas no processo de paz neste momento comprometeria grandemente a já maculada imagem dos Estados Unidos no mundo árabe e confirmaria aquilo que muitos dos mais de um bilhão de muçulmanos do mundo já suspeitam - que os Estados Unidos e Israel estão conspirando para se apossar da terra e do petróleo do Oriente Médio.

"Temos um problema de credibilidade no mundo árabe", explica Michael Doran, professor de estudos sobre Oriente Médio da Universidade Princeton. "Não creio que a população árabe acredite em uma só palavra do que dizem os nossos porta-vozes".

A proposta foi elaborada para criar um Estado palestino dentro de três anos - caso o plano sobreviva. As conversações que estão por vir provavelmente suportariam alguns ataques extremistas isolados e as represálias israelenses. Mas, caso a violência que teve início em 2000 continue no mesmo ritmo, o "mapa da estrada" fracassaria e com ele toda a esperança de que os Estados Unidos obtivessem legitimidade no mundo árabe muçulmano.

Líderes do Oriente Médio estão indo para as conversações encorajados, mas desejam ver mais do que um movimento simbólico pela paz.

"Queremos ver diferenças concretas no terreno", afirmou Marwan Muasher, ministro das Relações Exteriores da Jordânia, durante uma visita aos Estados Unidos nesta semana. "Desejaríamos ver o fim dos toques de recolher impostos sobre os palestinos, o fim dos assentamentos israelenses e a melhoria da segurança para os palestinos".

Isso exigirá a cooperação tanto de Israel quanto de grupos extremistas palestinos, que juntos já são responsáveis pela perda de quase três mil vidas desde o início da segunda intifada.

O primeiro-ministro Ariel Sharon possui uma lista de desejos ambiciosa e conta com o apoio político no seu país para procurar implementa-la.

A coalizão de Sharon

A abordagem dura de Sharon com relação à violência palestina foi aprovada em janeiro deste ano em uma reeleição fácil, e novamente em fevereiro, quando uma nova coalizão de governo ficou fortemente representada por facções que se opõe a um Estado palestino.

Sharon procurou implementar um governo de base ampla, mas foi incapaz de conquistar o apoio do liberal Partido Trabalhista.

Isso o forçou a rumar ainda mais para a direita a fim de angariar o apoio de dois partidos nacionalistas que se opõe a um Estado palestino e apoiam a expansão dos assentamentos israelenses nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, duas das questões que têm inflamado a revolta palestina.

A coalizão de Sharon conquistou 68 das 120 cadeiras no Parlamento.

Saeb Erekat, o principal negociador da Autoridade Palestina, caracterizou a coalizão como sendo "um governo de colonos israelenses", significando que tal aliança provavelmente se negará a fazer quaisquer concessões e permitirá que os assentamentos continuem a ser estabelecidos em território palestino.

Nas conversações que se seguirão à divulgação do "mapa da estrada", Sharon poderá exigir como condição inicial que os palestinos reconheçam Israel como um Estado judeu, o desarmamento das milícias palestinas e que os refugiados palestinos que vivem em outros países abram mão do seu direito de retornar à Palestina.

É de se duvidar que Sharon vá resistir às manobras das facções favoráveis aos assentamentos, que fazem parte da sua coalizão. Se os assentamentos não forem pelo menos contidos logo, eles poderão desencadear outra onda de ataques palestinos e de represálias israelenses.

A liderança palestina

Parte do otimismo cauteloso que pode ser produzido pelo plano de paz deriva da nova liderança palestina.

Embora o novo gabinete exiba várias personalidades antigas da desgastada Autoridade Palestina, o primeiro-ministro recém confirmado, Mahmoud Abbas, também conhecido como Abu Mazen, vem se mostrando encorajador, pelo menos em sua retórica.

Abbas disse que deseja abandonar a intifada armada em favor da diplomacia e de uma reorganização da Autoridade Palestina, que a administração Bush descartou como sendo corrupta e incapaz de conduzir conversações legítimas.

Sharon descartou o líder palestino Iasser Arafat como irrelevante para a paz, mas mantém uma relação de trabalho com Abbas.

Além do mais, o provável novo chefe de segurança de Abbas, Mohammad Dahlan, que liderou a segurança na Faixa de Gaza, também é uma força a favor das reformas da Autoridade Palestina.

Tão logo as conversas se iniciem, seguindo-se à visita de Powell à região no mês que vem, o desafio será manter o processo em andamento.

Se o passado nos fornece alguma indicação sobre o problema no Oriente Médio, dá para deduzir que os vácuos nas conversações entre israelenses e palestinos podem ser rapidamente preenchidos pela violência.


Tradução: Danilo Fonseca

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