Tropas ansiosas quanto à transição

Steven Komarow


Bagdá, Iraque - Eles lutaram contra combatentes suicidas, passaram por uma ponte cheia de explosivos sobre o Rio Eufrates e tomaram o aeroporto de Bagdá. E depois, quando a capital caiu, encontraram hordas amistosas de iraquianos enquanto se movimentavam pela cidade.

Mas o cabo Joshua Robinson e outros jovens da Companhia Charlie do exército, do 2º Batalhão, 7ª Infantaria, não sabem ao certo como vão narrar as suas lembranças vívidas e, em alguns casos, sangrentas, sobre a guerra aos parentes e amigos.

"Um civil pode não ser capaz de entender o número de baixas", afirma Robinson, de 19 anos, de Baton Rouge, Louisiana. "Estou orgulhoso de estar aqui, lutando pelo meu país. Mas não creio que se trate de algo a respeito do qual devamos nos gabar ou sobre ou qual se deva sequer falar. Não vou entrar em detalhes sobre muito do que ocorreu."

Os seu avós paternos e o maternos lutaram na 2ª Guerra Mundial e retornaram para casa imbuídos de uma ética que se caracterizava por um "orgulho silencioso". Vários veteranos da Coréia, Vietnã e Guerra do Golfo de 1991 também guardaram para si as memórias de batalha. Agora, esses jovens soldados compartilham tal sentimento enquanto jogam cartas aos pés do Monumento ao Mártir, de Saddam Hussein.

"Toda a minha família é composta de militares, e também a dos meus amigos e seus parentes", diz o especialista em serviços médicos Samuel Anthony, de 21 anos, de Cannon Falls, Minnesota. "Portanto, eles vão entender que não vou querer falar sobre muita coisa. Eles não esperam isso de mim. Sabem o que se passa."

Com a cobertura das batalhas sem precedentes por parte da mídia, os soldados têm menos coisas a explicar do que os seus antecessores. Mas há ainda uma lacuna que eles não têm certeza que possa ser preenchida. "Honestamente, creio que seria necessário estar aqui para se experimentar a guerra e entender integralmente o que ocorreu", diz Aaaron Marn, de 22 anos, de Key West, na Flórida, motorista de um veículo de infantaria blindado Bradley.

"É uma loucura", afirma. "Eu poderia falar aos meus pais sobre o assunto, mas duvido que algum dia vá fazê-lo".

Odor de cadáveres

Ninguém sabe quantos iraquianos foram mortos na guerra. Mas poucos duvidam que tenham sido menos de dez mil.

Unidades como a Companhia Charles chegaram algumas vezes a matar centenas de iraquianos à curta distância em uma só noite. Muitas vezes os soldados podiam ver os rostos do inimigo. Alguns testemunharam a morte de civis que foram apanhados no fogo cruzado.

Mais tarde, sentiam o mau cheiro dos corpos apodrecendo sob o forte sol iraquiano.

O fato de que esses soldados não vão falar muita coisa quando voltarem para casa é algo que o exército e a sociedade aceitam. Ao mesmo tempo, a experiência demonstra os riscos para a saúde mental advindos da repressão de medos e dúvidas.

Portanto, não foi à toa que os soldados contaram com algum tempo extra para jogar cartas ou manusear seu equipamento antes de regressar. O exército quer que os combatentes conversem entre si sobre aquilo que passaram, já que são os que entendem melhor a situação.

"Esses caras formaram uma irmandade", diz o capitão Todd Kelly, comandante da companhia. "E assim como qualquer família, gostam de conversar sobre os assuntos que lhes dizem respeito."

"Embora eu fosse adorar entrar em um avião neste exato momento e voltar para a minha família, na verdade é bom para os rapazes passar por um processo de 'descompressão'", afirma. "E eu me incluo nesse grupo."

As equipes especialistas em estresse do exército, lideradas por médicos militares, assim como os capelães, ficam de olho para identificar soldados que estejam emocionalmente abalados.

O major-capelão Mark Nordstrom tem circulado pelas unidades que enfrentaram os combates mais pesados. "Alguns dos soldados apresentam uma fadiga de batalha em grau leve e moderado", afirma. "Ficamos tentados a retirá-los do grupo e lhes fornecer cama limpa, chuveiro quente e comida por vários dias. Mas isso seria a pior coisa que poderíamos fazer com eles."

A política que vem sendo seguida, pelo contrário, é fornecer um banho e um pouco de descanso para os soldados que exibem sinais de estresse, colocando-os, a seguir, imediatamente de volta às suas unidades, onde é mais provável que conversem.

"Eles se recuperam rapidamente, e a seguir começam a falar de novo normalmente, com uma dose de arrogância. É isso o que queremos ver", explica Nordstrom.

Os soldados da Companhia Charlie demonstram claramente essa arrogância, assim como um forte impulso para retornar à normalidade. A correspondência do correio está atualizada na unidade, de forma que eles têm recebido petiscos de casa que suplementam a ração militar.

O fato de estarem se adaptando rapidamente à passagem do estado de guerra para a paz é um sinal de sua maturidade e profissionalismo, diz Kelly. "Pegue como exemplo qualquer cara que tenha participado de combates, encarado o inimigo, e que teve que apertar o gatilho com raiva", explica. "Para tal indivíduo, fazer a transição de guerreiro para guardião da paz é uma tarefa difícil."

A Companhia Charlie deve voltar para casa dentro de poucas semanas, juntamente com outras unidades que compõe a 3ª Divisão de Infantaria. Além de falar entre si, os soldados serão encorajados a conversar com capelães e psicólogos do exército.

Os capelães ouvem preocupações diferentes daquelas que os soldados expressam aos seus colegas de farda, diz Nordstrom. "Eles querem saber se o que vêm fazendo é o correto, e por que é o correto", afirma.

A constância desse tema tem sido surpreendente, afirma. "Achei que os soldados já tinham resolvido esse problema em suas cabeças. Mas creio que quando se mata soldados inimigos às centenas, fica-se querendo ter certeza de que a atitude foi correta".

"A segunda coisa com a qual mais se preocupam é sobre o que terão que fazer para ser capazes de retornar para casa como pessoas integrais. Pensam no que as famílias acharão deles. Sobre a possibilidade de terem sido corrompidos por toda morte e destruição das quais participaram".

"Foi um pouco assustador"

Falando para jornalistas, os soldados se referiram diretamente a uma outra sensação: o fato de terem tido sorte. "Eu era um grande fã de filmes de guerra, de forma que creio que ver tais filmes será bem mais difícil que antes", diz Anthony. Ele diz que, antes do início da guerra, a sua única expectativa era viver o bastante para ajudar a salvar as vidas de alguns dos seus companheiros. Em vez disso, os casos mais graves de que tratou em soldados norte-americanos foram dois ferimentos causados por estilhaços, que não representaram ameaça à vida dos feridos.

"Foi um pouco assustador", diz o sargento Robert Dove, de Blacksburg, Virgínia, artilheiro de um carro de combate Bradley. Porém, ele afirma: "Estava esperando mais. Honestamente, esperava algo maior. Achei que Saddam usaria armas químicas contra nós. Estava 110% convicto de que isso fosse ocorrer".

Assim como a maior parte dos membros da 3ª Infantaria, os soldados da Companhia Charlie viveram durante semanas dentro de trajes de proteção contra armas químicas, com as suas máscaras contra gás sempre prontas a tiracolo. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos alertaram que armas químicas deveriam chover sobre o exército norte-americano, assim que este começasse a se aproximar das defesas instaladas nos arredores de Bagdá. Não se sabe porque isso jamais ocorreu.

Nordstrom conta que o medo de armas químicas era um tema constante. Mas, segundo ele, esse medo nunca os desviou de sua missão. "Li anteriormente que nunca seríamos capazes de colocar no campo de batalha soldados como aqueles que invadiram as praias da Normandia. Onde encontraríamos uma geração capaz de realizar tal façanha? Terminamos por encontrá-la bem aqui", afirma.

Nordstrom diz que ficou encorajado com aquilo que viu e ouviu. "Esses rapazes não são frágeis", afirma. "São jovens maduros, bem treinados e disciplinados. A minha intuição, baseada no que vi por aqui, me diz que eles voltarão para casa equilibrados."


Tradução: Danilo Fonseca

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