Em certos países, a maternidade é perigosa

Chuck Raasch
Analista Político do GNS/USA Today


Washington - No Níger, somente uma entre cada seis mulheres dá a luz com o auxílio de um profissional de saúde especializado. Uma mulher nesse país da África saheliana possui uma probabilidade 600 vezes maior de morrer durante o parto do que um outra na Suécia.

No Dia das Mães, a avaliação dessas condições tão divergentes se constitui em um lembrete sombrio de que em 2003 muitas mães ainda vivem em condições mais assemelhadas às da Idade Média.

As mães ganharam liberdade no Afeganistão e no Iraque, onde as mulheres que sofrem há tanto tempo conquistaram uma esperança nova em meio à destruição causada pela guerra. Mas em países como a Etiópia e o Iêmen, a maternidade ainda é sinônimo de uma vida de trabalho braçal pesado, de perigo e de repressão.

A Save the Children, uma organização internacional de ajuda humanitária, colocou 117 países em uma nova "Lista das Mães". O sistema de pontos leva em conta a mortalidade materna e infantil, influência política, alfabetização, saúde e outros fatores que são importantes para as mães e seus filhos.

A Suécia se encontra em primeiro lugar na Lista das Mães, seguida pela Dinamarca, Noruega e Suíça. A Save the Children colocou os Estados Unidos em 11º lugar na lista, em parte porque o governo norte-americano possui um número bem menor de parlamentares do sexo feminino do que a maior parte dos países à sua frente.

A Finlândia ocupa o quinto lugar na lista, seguida pelo Canadá, Holanda, Austrália, Áustria e Reino Unido, fechando assim o grupo dos dez primeiros.

Os dez últimos, começando pelo pior colocado, são nações predominantemente africanas ou do Oriente Médio: Níger, Burkina Fasso, Etiópia, Guiné-Bissau, Iêmen, Serra Leoa, Guiné, Mali, Chade e Angola.

O Iraque ficou em 80º lugar. Alguns países, dentre os quais o mais notório é o Afeganistão, não entraram na lista porque as condições sociais são tão caóticas que os pesquisadores não conseguiram coletar informações básicas.

O relatório citou 36 conflitos violentos no mundo, além daquele no Iraque, que continuam tendo "um efeito devastador sobre milhões de mulheres e crianças".

"Por mais perigosa que tenha estado a situação para mulheres e crianças no Iraque nos últimos meses, a vida continua sendo ainda mais perigosa para aquelas que vivem em várias outras zonas de conflito", afirma Charles MacCormack, presidente da Save the Children.

O estudo deve gerar polêmicas, já que vincula planejamento familiar, especialmente o uso de contraceptivos, com o bem-estar das mães. Tal vínculo conflita com práticas religiosas ou governamentais adotadas em vários países, incluindo os Estados Unidos, onde as questões relativas ao planejamento familiar são muitas vezes cercadas de controvérsia.

Mas os dados demonstram de forma indubitável a ligação entre práticas contraceptivas e o bem-estar materno. No Reino Unido, por exemplo, 82% das mulheres praticam os métodos contraceptivos e somente uma em cada 5.100 morre de complicações com o parto. Já em Guiné, somente 4% das mulheres utilizam os métodos anticoncepcionais, mas uma em cada sete morre durante o parto. A taxa de mortalidade infantil em Guiné - 109 por mil crianças - é 18 vezes mais alta que a do Reino Unido.

"Mais de dez milhões de crianças com menos de cinco anos morrem anualmente devido a causas que poderiam ser evitadas", diz o relatório da Save the Children. "O planejamento familiar poderia prevenir 25% dessas mortes ao estabelecer um espaço de pelo menos dois anos entre cada parto, ao ajudar as mulheres a criarem seus filhos durante os anos reprodutivos mais saudáveis e ao possibilitar que os pais tivessem o número de filhos que desejassem."

A divulgação do relatório coincide com a aprovação de uma lei de iniciativa bipartidária pelo Congresso dos Estados Unidos que fornece US$ 45 milhões a mães e seus filhos nos países afetados pela guerra.

A Save the Children divulgou também uma "Lista de Proteção contra Conflitos", que conclui que a República Democrática do Congo, Serra Leoa, Afeganistão, Angola e Burundi são os países mais perigosos para as mães devido à guerra.

O Iraque não faz parte dessa lista, mas o terrorismo de Saddam Hussein dirigido contra as mulheres era um componente importante da sua brutal estratégia para se manter no poder. Segundo organizações de direitos humanos e relatos feitos no pós-guerra por iraquianos, os agentes repressivos de Saddam estupravam mulheres para obrigar seus maridos a assinar confissões, ou torturavam filhos para obter confissões dos pais.

No Iraque de Saddam Hussein a tarefa de criar filhos se constituía em um fardo de peso formidável.

Nota do tradutor: O Brasil está em 44º lugar na lista.


Tradução: Danilo Fonseca

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