Esforços em ações antiterroristas ainda são bastante grandes nos EUA

Fred Bayles, Debbie Howlett e Laura Parker *


Chicago - Os 600 bombeiros que aqui participaram de uma resposta simulada a uma ação terrorista aprenderam bastante sobre obstáculos imprevistos.

Quando corriam para atender ao desabamento simulado de um prédio de quatro andares e à emissão, também simulada, de uma substância tóxica em uma fábrica de produtos químicos, eles ficaram parados durante 20 minutos enquanto autoridades de outras agências avaliavam se seria seguro que os bombeiros entrassem na zona de perigo.

"Estamos enfrentando alguns obstáculos imprevistos", disse Jay Reardon, chefe do Corpo de Bombeiros de Northbrook, Illinois. Mas Reardon disse ter gostado de saber que os bombeiros seriam impedidos de se envolver apressadamente com riscos desconhecidos. "Há vantagens em aguardar e em não ser tão agressivo", explicou.

Essa foi uma das várias lições que as autoridades disseram ter aprendido com os treinamentos extensivos realizados nesta semana, aqui e em Seattle, a fim de aprimorar a capacidade da nação em responder a ataques terroristas simultâneos.

O secretário de Segurança Interna, Tom Ridge, cujo departamento, fundado há três meses e meio, preparou os cenários e financiou o exercício no valor de US$ 16 milhões, veio para cá na última quinta-feira e anunciou que a experiência havia sido um sucesso.

"Se quisermos tornar os nossos sistemas de resposta mais eficientes, temos primeiro que identificar os nossos pontos fortes e fracos", afirmou. Ridge se recusou a citar problemas específicos revelados pelo exercício. "Vamos examinar tudo sob um verdadeiro microscópio crítico", afirmou. "Esse processo começa amanhã".

Na segunda-feira, em Seattle, funcionários de serviços de emergência se apressaram a responder à detonação simulada de uma "bomba suja" radiológica. Já a simulação em Chicago foi mais elaborada. Na terça-feira, centenas de pessoas começaram a chegar aos hospitais reclamando de sintomas semelhantes aos da gripe. Mais tarde as autoridades anunciaram que um grupo terrorista desconhecido poderia ter lançado culturas da peste pneumônica no Aeroporto Internacional O'Hare, da estação de trens da cidade e no estádio United Center, durante uma partida de hockey.

Os desastres simulados se multiplicaram na quinta-feira com o colapso do edifício, a emissão química e uma colisão simulada no Aeroporto Midway entre um Boeing 737 e um helicóptero de socorro médico. A operação no aeroporto foi um exercício que é realizado pela cidade a cada três anos; ela foi sincronizada para funcionar como parte de uma simulação de ação terrorista. Ao fim do dia foi feita uma "batida" em um laboratório suspeito de fabricar armas biológicas.

"A cidade atuou bem sob as circunstâncias extremamente difíceis com as quais se defrontou nos últimos dois dias", afirmou Ridge.

Mas alguns especialistas em terrorismo alertam que as simulações foram muito ensaiadas, não tendo sido suficientemente realistas para expor as deficiências da rede emergencial de resposta da nação.

"Elaborar algo que funcione é inútil", criticou Matthew Lippman, professor de justiça criminal da Universidade de Chicago, que ministra uma disciplina sobre terrorismo. "Caso se queira verificar qual é o problema, é necessário descobrir aquilo que não funciona".

Ele disse que, se fosse real, o ataque biológico simulado no exercício poderia matar muito mais do que as 2.000 pessoas que fizeram parte do roteiro. Tal quantidade de mortes súbitas geraria o caos em toda a cidade, e não filas de pessoas bem comportadas buscando tratamento, advertiu.

Mas as autoridades em Seattle e Chicago afirmaram que os exercícios lhes ensinaram lições que não haviam antecipado.

O prefeito de Seattle, Greg Nickels, disse ter encontrado um ponto fraco quanto procurava decidir como alertar a população para o nível de contaminação radioativa na cidade.

Em um ataque real com uma bomba suja, os moradores teriam que receber ordens para evacuar a cidade ou para permanecer trancados em suas casas. Nickels disse que ficou confuso, olhando para documentos sobre radiação que eram praticamente impossíveis de serem decifrados.

"O que recebi foram mapas com grandes marcas verdes e modelos matemáticos", afirmou. "Eu pressionava a equipe do setor de saúde para que me fornecesse algo escrito em inglês de verdade. Acabamos por improvisar, chamando alguns técnicos locais para que me dessem um exemplo. Eles me disseram que nas áreas marcadas a radiação seria equivalente a da metade de uma exposição a um aparelho odontológico de raios-x".

Segundo Nickel, tal descrição era suficientemente inteligível para ser repassada à população.

Seattle contou com mais tempo do que Chicago para avaliar os desafios levantados pelas simulações: Como a cidade lida com motoristas urbanos que receberam a orientação de permanecerem temporariamente em seus escritórios? Quando houver segurança para partir, o tráfego de ônibus é retomado? Que ruas estão abertas? Quem decide quando reabrir uma ponte ligando o centro da cidade a um bairro do outro lado da baía, quando a cidade é dona da ponte e o Estado detém o controle das rampas de acesso?

Como a cidade controla o medo que o povo sente da radiação?

O que se deve fazer com a água contaminada, utilizada para retirar resíduos de radiação das vítimas e equipes de resgate?

Nickels disse que há limites quanto até que ponto uma simulação pode ser realista.

"Não se pode realizar o exercício na cidade sem alertar previamente a população", afirmou. "Tal atitude geraria pânico. Mas ele foi bem realista. Em determinados momentos senti a adrenalina fluindo. Ficamos em uma situação na qual tínhamos que pensar com bastante cuidado sobre que decisões deveríamos tomar".

* Bayles e Howard trabalharam para esta matéria em Chicago. Parker, em Washington, D.C.. Contribuíram para a reportagem Chris Woodyard e Tom Kenworthy, jornalistas do USA Today em Seattle.


Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos