Polêmica sobre alimentos geneticamente modificados se concentra na África

Elizabeth Weise

Os Estados Unidos estão levando a sua luta para conquistar a aceitação global dos alimentos geneticamente modificados para a África, um continente atormentado pela fome.

Enquanto o presidente Bush visita cinco países africanos nesta semana, espera-se que ele reitere aquilo que disse a executivos do setor de biotecnologia há duas semanas, em uma conferência em Washington, D.C.: os alimentos geneticamente modificados salvarão milhões de seres humanos da morte por fome.

Mas os grupos contrários à biotecnologia discordam. Em uma manifestação durante um encontro de ministros da Agricultura de nações em desenvolvimento, realizado neste mês, em Sacramento, na Califórnia, eles proclamaram barulhentamente que a biotecnologia destruiria a agricultura africana.

Já os grupos favoráveis à modificação genética dos alimentos acreditam que a biotecnologia signifique que uma quantidade maior de alimentos de melhor qualidade possa ser cultivada em áreas menores, com a utilização de menos produtos químicos e gerando menos danos ambientais. Na África, os seus defensores vêem a biotecnologia como uma maneira de desenvolver novas variedades de produtos agrícolas africanos, criando alimentos mais nutritivos, que podem ser cultivados sem o uso dos caros fertilizantes e pesticidas, tão difíceis de se obter.

"Sei que algumas pessoas vão dizer que a biotecnologia é nociva, mas elas não conseguiram provar nada. É por isso que estamos pedindo aos Estados Unidos que nos forneçam toda a tecnologia de que precisamos", afirma Peter Rammutla, presidente da União Nacional dos Fazendeiros Africanos, da África do Sul. Rammutla foi convidado para participar de um almoço com Bush na quarta-feira (9/07).

Os críticos acreditam que essa tecnologia seja intrinsecamente perigosa, artificial e potencialmente tóxica para os seres humanos, os animais e o meio ambiente. Eles temem que a sua introdução na África contamine culturas tradicionais com características advindas da bioengenharia e que deixe os pequenos agricultores dependentes das companhias multinacionais que desejam apenas obter lucros.

"Eles estão falando em 'compartilhar' conhecimentos, em doar patentes e assim por diante", critica Amadou Cheikh Kanoute, da representação regional da organização Consumidores Internacionais, em Harare, no Zimbábue. "É possível que a questão das patentes fique esquecida por um período de três a cinco anos e, depois, no sexto ano, as multinacionais retornem e digam, 'Investimos muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento para a produção dessas sementes e agora vocês precisam pagar a conta'."

Segundo a Monsanto, a maior produtora de sementes por meio da biotecnologia nos Estados Unidos, essa acusação é inteiramente falsa. A companhia está trabalhando em vários projetos com pesquisadores africanos e de outros continentes, criando variedades de batata-doce, mandioca, mamão e ervilhas resistentes a doenças. Embora todas essas sementes ainda necessitem de passar por um período mínimo de cinco anos de testes antes de chegarem aos campos dos agricultores, elas já estão em processo de produção. "Com relação a esses projetos, estamos concedendo aos pesquisadores direitos de patente de prazo ilimitado", afirma o diretor da companhia, Robert Horsch. "Eles estão livres para distribuí-las."

Esse tipo de discussão que avança e retrocede tem sido comum no debate mundial sobre culturas geneticamente modificadas, desde que a sua utilização foi proposta pela primeira vez nos anos oitenta. Apesar da ávida adoção de milho, soja, algodão e canola geneticamente modificados pelos fazendeiros norte-americanos na década passada, o resto do mundo não abraçou a nova tecnologia de forma tão entusiasmada.

É a Europa que demonstra a mais profunda desconfiança. A sua moratória de cinco anos sobre os produtos gerados pela biotecnologia só foi relaxada na semana passada, com a aprovação de regulações que incluem rígidas exigências quanto à rotulagem desses alimentos. A China está criando de forma entusiasmada a sua própria tecnologia e o restante da Ásia observa. Alguns países da América Central e do Sul adotam a tecnologia, enquanto outros a rejeitam veementemente.

A África é apenas o mais recente campo de batalha. No mês passado, grupos antagônicos sul-africanos, favoráveis e contrários à biotecnologia, viajaram pelo país para se reunirem com a imprensa e políticos a fim de defenderem seus pontos de vista.

No início deste ano, a AfricaBio, um grupo sem fins lucrativos favorável à biotecnologia, ofereceu a jornalistas viagens inteiramente pagas à África do Sul, para que pudessem conhecer pequenos proprietários rurais que utilizam sementes geneticamente modificadas.

No decorrer de uma onda de fome no Sul da África em meados do ano passado, representantes dos dois lados da polêmica exploraram ao máximo o fato de Zâmbia ter recusado milho geneticamente modificado proveniente dos Estados Unidos.

Muita gente acredita que grupos ambientalistas europeus que se opõe a culturas geneticamente modificadas tenham convencido líderes africanos de que, caso aceitassem o milho criado pela biotecnologia, a União Européia deixaria de importar todos os seus produtos agrícolas.

O conflito não é de natureza meramente científica. Ele é também político e até mesmo ideológico, afirma Pedro Sanchez, diretor de agricultura tropical no Instituto da Terra da Universidade Colúmbia, em Nova York. Embora não acredite que os alimentos geneticamente modificados se constituam em uma panacéia para a África, ele diz: "Não há qualquer evidência de que as culturas criadas pela biotecnologia sejam diferentes, sob qualquer aspecto, de produtos como o milho híbrido ou quaisquer outras variedades cultivadas de forma natural. A ciência pende completamente a favor do argumento norte-americano", afirma Sanchez, que foi agraciado com o Prêmio Mundial de Alimentação 2002 devido aos seus vários anos de pesquisas na África sobre fertilidade e produtividade do solo. "Nesse sentido, a África está sendo mantida refém dos europeus. É algo que transcende a política; trata-se de malícia." Danilo Fonseca

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