Os Estados Unidos observam os gays

Craig Wilson

Será verdade, como muitos de nós acreditamos, que os homossexuais têm um gosto mais refinado que os heterossexuais?

E quanto àquela afirmação de que um gay é capaz de andar por um mercado de pulgas, achar o único objeto que preste no local - quem sabe até mesmo uma antiguidade de valor -, levá-lo para casa, limpá-lo e exibi-lo para que o mundo todo o veja?

Será que os gays possuem um gene especial, um cromossomo extra, algo que lhes permita colocar simultaneamente peças de tapeçaria com estampas xadrez e floridas no mesmo ambiente sem quebrar a harmonia do aposento?

É claro que o bom gosto é algo subjetivo, mas qualquer gay digno da sua cadeira Eames dirá que basta colocar os olhos sobre algo para saber em essência do que se trata. E agora o resto dos Estados Unidos os está observando.

O programa "Queer Eye for the Straight Guy" (algo como "Um olho homossexual para os heterossexuais") foi o grande sucesso de audiência deste verão norte-americano, mesmo para o padrão relativamente modesto do canal Bravo. De fato, os 2,8 milhões de telespectadores ligados no canal na semana passada estabeleceram um recorde para o Bravo, que na semana anterior registrou uma audiência de 1,7 milhões de telespectadores. Sete episódios estão sendo adicionados aos 12 originais.

Cinco gays que se autodenominam os " Fab 5" ("Cinco Fabulosos") - cada um deles um especialista em áreas, como moda, design ou estética pessoal - "transformam" um desafortunado heterossexual que é incapaz de diferenciar DKNY de NYPD (respectivamente, a sofisticada rede de moda DonnaKaran New York e o Departamento de Polícia de Nova York). O próximo convidado do "Tonight Show" é Jay Leno. Os cinco vão "transformá-lo", assim como à banda e à equipe técnica do programa, nos dias 14 e 15 de agosto.

Embora à primeira vista o show pareça ser divertido, será que é justo com os heterossexuais e os gays? E será que consegue veicular a realidade?

Afinal, o ícone da moda e sumidade do bom gosto, Raph Lauren, é casado e tem três filhos, enquanto que a comunidade gay ainda procura varrer da memória Liberace, o príncipe da vulgaridade. E como é que os gays "que-têm-sempre-bom-gosto" explicam o exibicionismo extravagante de um Elton John ou de um Harvey Fierstein?

Questões como estas à parte, o fato é que alguns gays lamentam que o estereótipo segundo o qual só os gays são capazes de fazer decoração está mais uma vez sendo puxado para fora do armário.

A comediante Joan Rivers, que conheceu alguns gays nos seus dias, diz que eles não deveriam se preocupar com isso.

"O único decorador heterossexual que conheci em minha vida foi o cara que decorou o Lincoln Tunnel", conta Rivers, que defende a teoria do cromossomo extra. "Na verdade, os gays contam com ambos os mundos; a sensibilidade feminina e a esperteza dos homens. Sem eles, minha vida seria chata e não tão bonita".

Dan Berkowitz, diretor de comunicação empresarial da Keynote Systems, uma companhia de gerenciamento de performance na Web, com sede em San Mateo, Califórnia, também não compreende todo o alarido que cerca os estereótipos.

"Isso é algo que deveria ser encarado da forma como se apresenta", afirma. "Uma coisa muito divertida".

Quanto à teoria de que os gays contariam com o gene do bom gosto, Berkowitz acha que pode ser verdade. "Creio que somos mais sensíveis. Os gays são mais ligados em arte, mais sensíveis à beleza e ao espaço que os cerca".

O parceiro de Berkowitz, J.L. Sears, trabalha para a Design Within Reach, empresa de Oakland, Califórnia, que fabrica móveis para a sala onde os "Cinco Fabulosos" observam seus convidados desempenharem seus novos papéis ao final do show.

"O objetivo do programa é o entretenimento", diz Sears, cuja casa recém-decorada na altamente fotografada Praça Alamo, em São Francisco, foi terminada às pressa para o trabalho de fotografia do USA TODAY, no próximo fim de semana - um trabalho hercúleo que um heterossexual provavelmente não compreenderia, nem muito menos realizaria.

É tudo muito refinado e elegante, explica Robert Verdi, apresentador dos programas de TV a cabo "Full Frontal Fashion" e "Surprise by Design". Mas ele diz que na comunidade gay há mais do que "comprimento dos cabelos, altura do salto do sapato e cor das paredes... Somos maiores do que aquilo que se vê no programa".

Verdi insiste, no entanto, em dizer que não quer parecer um pequeno pirralho gay mimado no projeto. Na verdade, ele afirma que merece certo crédito pelo fato de os FAB 5 terem feito tanto sucesso.

"Sem querer parecer demasiadamente egotista, Colin Cowie (guru de estilo de vida), eu e até mesmo Steven Cojocaru (comentador de estilo das revistas "People" e "Today", pavimentamos a estrada e iluminamos o caminho que agora está sendo trilhado por esses caras", afirma.

Michael Bronski, jornalista e crítico cultural, diz que a imagem dos gays e daquilo pelo qual são conhecidos mudou dramaticamente, especialmente em meio à geração mais nova. Ele está lecionando a disciplina "Questões Contemporâneas em Estudos sobre Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais" na Faculdade Dartmouth, neste verão. O programa "Queer Eye" foi o tópico discutido na semana passada.

"Alguns disseram que os cinco eram os mesmos personagens de 'Boys in the Band'", diz Bronsky, referindo-se ao filme de 1970 - atualmente um clássico - sobre gays enrustidos que participam de um jantar de gala. "Mas atualmente gostamos deles. Hoje os travestis são os salvadores, e não mais os caras dignos de pena".

"Alguns alunos disseram que o show reforçou os estereótipos do 'bom gosto', segundo os quais os gays são mais arrumados, limpos, exigentes e bem-vestidos", relata, mas alguns dos estudantes também se referiram aos Fab 5 como sendo "os novos 'Charlie's Angels' ("As Panteras"), ou mesmo fadas madrinhas, literalmente, dotados da capacidade de transformar os heterossexuais".

Eric Marcus acha "muita gente sonha secretamente em ser transformado pelos gays da forma que imaginam que atuamos... mestres do design, da cozinha e da moda".

Mas Marcus afirma que os Estados Unidos vão sofrer um choque. "Muitos de nós somos tristemente precários em todos esses campos".

Quando entrevistou 20 casais gays que estão juntos há muito tempo em suas casas para o seu livro de 1999, "Together Forever" ("Juntos para Sempre"), Marcus diz que vários dos entrevistados precisavam desesperadamente passar, eles próprios, por uma "transformação gay".

Marcus acredita que, quando o gene misterioso for decifrado, "se descobrirá que 'alguns' gays possuem habilidades especiais em certas áreas... assim como 'alguns' heterossexuais têm talento notável para determinados campos".

A diretora da revista "Manhattan", colecionadora ávida de antiguidades, decoradora e amiga de vários gays, diz que não quer ouvir tal tolice. Ela ainda acredita que os gays possuem um cromossomo extra responsável pelo bom gosto. E talvez até dois.

"É claro que eles o têm", afirma. "Nós acabamos de jantar com um amigo gay. Ele seria capaz de passar o dia todo organizando a nossa baixela e é claro que eu ficaria muito feliz. Por que isso? Não sei". Kasner chama o programa "Queer Eye" de "histérico".

"Se alguém aparecesse de repente e assumisse o controle sobre a minha vida daquela maneira eu ficaria eufórica".

Simon Doonan, diretor de criações da Barneys New York, vê apenas um problema em tudo isso. Ele não acha que os heterossexuais precisem de qualquer ajuda.

"Acredito firmemente que as pessoas precisam parecer aquilo que são. Janet Reno deve parecer Janet Reno", afirma. "Heterossexuais têm que passar a imagem de heterossexuais".

Embora ache o show divertido, Doonan tem pena dos caras que estão sendo "transformados". "Eles se parecem com animais selvagens hipnotizados pelos faróis de um carro... São como patinhos indefesos".

Assim, ele tem uma sugestão para os produtores do show. "Acho que esses homossexuais deveriam transformar outros homossexuais. Isso sim seria interessante". Danilo Fonseca

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