Estudiosos da memória se apressam para evitar potencial catástrofe na área de saúde mental

Marilyn Elias

Os baby boomers (indivíduos nascidos nos EUA em período de grande crescimento demográfico, entre o fim da 2ª Guerra Mundial e início dos anos 60) mais preocupados podem se sentir aliviados com as novas evidências de que o estímulo mental pode ajudar a retardar o avanço da doença de Alzheimer, embora ainda não haja cura para a enfermidade.

Uma futura crise de demência generalizada, que se delineia no horizonte à medida que os baby boomers envelhecem, fez com que os pesquisadores da memória passassem a trabalhar em ritmo acelerado, o que tem gerado uma onda de descobertas quanto à prevenção da doença e revelado alguns caminhos que poderiam levar à uma cura.

Novos estudos científicos confirmam aquilo que as pessoas de meia-idade já sabem: as suas memórias estão em processo de queda livre. Mas ainda que muitos se sintam perdidos sem as agendas eletrônicas, a grande maioria ainda está longe da demência, afirma Molly Wagster, que dirige as pesquisas sobre o processo normal de envelhecimento cerebral no Instituto Nacional de Envelhecimento (NIA, na sigla em inglês).

Os pesquisadores descobriram que idosos normais têm desempenho praticamente igual ao dos indivíduos na faixa dos 30 anos nos testes de vocabulário e de conhecimentos gerais. "Um indivíduo de 65 anos que não sofre de demência não é muito diferente de um de 35", diz a psicóloga Martha Storandt, da Universidade Washington em Saint Louis.

Mas o envelhecimento provoca outras alterações mentais, até mesmo naqueles que não padecem de demência. Pessoas na faixa dos 60 e 80 anos têm maior probabilidade que os jovens adultos de serem enganados por lembranças de fatos que não ocorreram, dirá o psicólogo Henry Roediger III na conferência da Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês), que começa na próxima quinta-feira em Toronto, Canadá. A partir dos 20 anos, o processo de aprendizagem de novos tópicos é também mais demorado, e fica cada vez mais difícil realizar tarefas simultâneas quando a atenção se faz necessária - por exemplo, responder a um e-mail enquanto se fala ao telefone.

Os especialistas em memória vislumbram sérios desafios à frente para os patrões, já que muitos baby boomers só pretendem deixar de trabalhar depois dos 60 ou 70 anos, quando freqüentemente se torna ainda mais difícil aprender fatos novos e realizar tarefas múltiplas simultaneamente.

E, se os baby boomers viverem tanto quanto esperam, uma parcela muito grande dos 76 milhões de indivíduos que compõe essa geração poderá ficar demente, de forma que uma catástrofe de saúde pública acabe por explodir sobre o colo dos seus filhos.

Cerca de 4 milhões de norte-americanos sofrem da doença de Alzheimer, gerando um custo estimado em US$ 1 bilhão por ano. Por volta de 2050, entre 12 e 15 milhões padecerão da doença, que é responsável por dois terços dos casos de demência, explica Neil Buckholtz, chefe do departamento de demência relacionada à idade do NIA. "Precisamos urgentemente de algumas descobertas", afirma.

Os cientistas são unânimes em dizer que o ritmo da pesquisa científica sobre a memória está em processo rápido de aceleração. Várias das novas descobertas sobre o envelhecimento da mente saudável e a demência serão divulgadas na conferência da APA.

Indivíduos idosos muitas vezes não têm maiores problemas, ainda que experimentem alguma perda de memória. Tudo depende do estilo de vida, afirma a psicóloga Denise Park, da Universidade de Illinois-Champaign-Urbana. "As pessoas podem funcionar de forma bastante satisfatória, mesmo com um declínio substancial da capacidade cognitiva, caso vivam em um ambiente estável e não se exija muito delas", explica.

Os baby boomers que lidam com várias tarefas podem ter mais problemas com a memória que os seus pais de mais de 70 anos. Os estudos de Park demonstram que adultos na faixa dos 30 aos 50 anos que levam vidas ocupadas têm mais problemas que os idosos para se lembrar de tomar remédios.

O que o preocupa é "uma bomba-relógio potencial no ambiente de trabalho", já que é grande o número de baby boomers que deseja continuar trabalhando após os 60 anos. "Isso vai significar um grande impacto, e os empregadores não estão preparados para as mudanças", alerta Park.

Não é que os funcionários mais velhos não tenham nada a oferecer. Eles se saem melhor que os jovens na tarefa de integração de fatos e de observação de como diversos fatores se encaixam, e a sua experiência muitas vezes possibilita que "leiam" as pessoas de maneira melhor e que façam avaliações mais equilibradas, explica Wagster, do NIA.

"Há um motivo para que o jovem auxiliar de justiça receba a tarefa de ler milhares de páginas, enquanto que os parceiros mais velhos articulem o processo legal", acrescenta Park.

Mas, em média, trabalhadores mais velhos aprendem fatos novos de maneira mais lenta, lembram-se menos das coisas e têm mais episódios de falsas lembranças. À medida que os Estados Unidos demonstram uma tendência para contar em breve com uma força de trabalho mais grisalha, os patrões talvez precisem reformular os programas de treinamento e repensar a maneira como o trabalho é feito, prevê Park.

Minimizando os lapsos de memória

Os trabalhadores mais velhos não precisam assistir passivamente à emergência dos problemas de memória. Uma série de novas evidências demonstra que muitos deles são capazes de minimizar os lapsos de memória, ou até mesmo de recuperar parte da memória perdida.

Eis alguns dos resultados que serão apresentados na APA:

  • O maior estudo de caráter aleatório já realizado sobre o melhoramento da memória e do raciocínio em idosos demonstra que um curso de dez aulas é eficaz para pessoas na faixa etária entre 60 e 90 anos, e que os benefícios duram pelo menos dois anos (até agora). Sessões periódicas de "reforço" ajudam ainda mais.

    "Comprovadamente não é verdade que não se possa ensinar novos truques a um cão velho", diz o psicólogo Michael Marsiske, da Universidade da Flórida, um dos autores do estudo.

  • Pesquisa realizada com cerca de mil membros de ordens religiosas, com a duração de nove anos (até o momento), demonstra que, quanto mais estimulante forem as suas vidas sob o aspecto mental, maior a quantidade de entupimento das artérias cerebrais (fenômeno típico da doença de Alzheimer) necessária para causar um determinado nível de redução de memória.

    No momento os cientistas estão contando neurônios e outras estruturas cerebrais nas autópsias, "porque estamos apostando em que os desafios mentais implicam na criação de cérebros mais elaborados, capazes de superar os problemas gerados pelas lesões" que prejudicam o órgão nos pacientes que sofrem da doença de Alzheimer, afirma o psicólogo Robert Wilson, do Centro Médico Rush-Presbyterian-Saint Luke, em Chicago.

    Vários outros estudos de grande escala e duração revelam que pessoas que levam vidas marcadas por desafios mentais têm menor probabilidade de vir a sofrer da doença de Alzheimer, acrescenta.

  • Adultos com grandes habilidades racionais e analíticas (a denominada "inteligência fluida") têm melhor memória em meio a distrações do que outros, da mesma idade, mas com inteligência menos fluida.

    Quanto mais distrações, maior a correlação, diz o psicólogo Andrew Conway, da Universidade de Illinois-Chicago. A inteligência fluida é em parte genética, "mas a motivação também conta", afirma Conway. "As pessoas são capazes de adquirir habilidades para raciocínio e análise".

  • Em uma investigação sobre como a personalidade afeta a memória em adultos entre 60 e 84 anos, a "mente aberta" - marcada por curiosidade intelectual, imaginação e uma preferência pela variedade - foram fatores altamente correlacionados com uma melhor memória, diz o psicólogo John Schinka, da Universidade do Sul da Flórida em Tampa. Danilo Fonseca
  • UOL Cursos Online

    Todos os cursos