Professores, pais e mundo externo são fundamentais para civilidade na sala de aula

Chuck Raasch
DE WASHINGTON

Além da Igreja Católica, é difícil encontrar alguma instituição que tenha passado pelo escrutínio a que foi submetida a rede de ensino público na década passada. A corrupção abalou o setor empresarial (Enron) e jornalístico (Jayson Blair). Já as escolas públicas parecem estar mais constantemente sob vigilância dos políticos, pais e contribuintes.

Chegada a época de as escolas abrirem novamente suas portas para um outro ano letivo, as histórias relativas às deficiências do ensino público certamente voltarão a emergir neste mês.

Essas histórias girarão em torno de temas familiares. As escolas lutam para alcançar novos padrões de ensino. Os professores estão irritados com a abordagem convencional adotada para a educação. Eles têm salários baixos. As instalações escolares estão em péssimo estado. Os políticos acusam os membros do partido adversário por não aplicarem verbas suficientes (a acusação típica dos democratas) ou alegam que os sindicatos de professores protegem os maus profissionais (alegação feita geralmente pelos republicanos).

Portanto, pode ser um bom momento para pensar naquelas coisas que são pontos de concórdia para professores, alunos e pais. Dentre delas, há algo que se destaca: a necessidade de promover civilidade na sala de aula.

Segundo uma pesquisa da Public Agenda (organização de pesquisas de opinião pública não partidária e sem fins lucrativos com sede em Nova York) realizada no início do ano, 43% dos professores dizem que gastam mais tempo tentando manter a ordem na sala de aula do que realmente ensinando. Isso é uma constatação surpreendente de que certos alunos de hoje simplesmente não entram na escola prontos para aprender.

E, ainda mais impressionante, 70% dos alunos dizem que um comportamento desrespeitoso é comum nas suas escolas, segundo a Public Agenda. Antes que alguém despreze esses resultados como sendo mais uma reclamação infantil, é bom se lembrar que os alunos são consumidores primários das escolas. Se sete em cada dez estão reclamando de problemas comportamentais em sala de aula, então realmente há um problema.

Os professores estão cautelosos e esgotados. Na mesma pesquisa feita pela Public Agenda, 81% dos professores culpam os pais por não obrigarem os filhos a estudar ou ter um bom comportamento nas aulas. Em outras palavras, os problemas na sala de aula começam bem antes de os alunos entrarem na escola. Três em cada quatro professores dizem que se sentem como bodes expiatórios para os problemas que afligem a educação.

A Public Agenda foi criada há mais de 25 anos pelo cientista social Daniel Yankelovich e pelo ex-secretário de Estado Cyrus Vance. O grupo realizou amplas pesquisas à medida que o debate sobre a qualidade da educação se intensificava nas últimas décadas.

Sendo oriundo de uma família de onde há muitos professores - tios, tias, primos e irmãos -, posso concluir facilmente que a profissão é uma das mais desvalorizadas, vigiadas, politizadas e incompreendidas. O melhor aliado dos pais é um bom professor. Por outro lado, um mau professor muitas vezes pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso para uma criança. Mas o fato de ter meus filhos na escola por 13 anos fez com que fosse mais fácil enxergar que muitos problemas nas salas de aula freqüentemente são motivados por algumas poucas crianças problemáticas.

Esse problema não ocorre isoladamente. É o produto de pais ausentes e de muitos outros fatores. Ele reflete o universo maior no qual essas crianças estão crescendo. A conjuntura fora das suas casas é mais áspera, selvagem e - apesar de todas as alegações de que existe tolerância - intolerante do que a que qualquer outra geração já enfrentou. Basta observar aquilo que atualmente é considerado um debate público civilizado no rádio ou na televisão.

Quando o jornal da noite exibe imagens manchadas do sangue de crianças inocentes em ônibus israelenses e de funcionários da Organização das Nações Unidas no Iraque, a civilidade se dissipa em grande escala. Nesta era em que os programas de televisão estão poluídos por cenas de violência e imagens confusas de cunho sexual, em que as normas de linguagem, decoro público e debate foram degradadas, a tarefa de ser pai é muito mais difícil. E, da mesma forma, a tarefa de lecionar também ficou mais complicada. Danilo Fonseca

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