Por que demorou tanto, senhor presidente?

Ronald E. Cohen
DE WASHINGTON

Que diferença quatro meses fazem! No dia primeiro de maio, na maior de todas as oportunidades fotográficas, o presidente Bush voou em um jato Viking e aterrissou no porta-aviões USS Abraham Lincoln, no Pacífico.

Vestindo traje completo de aviador e segurando o capacete de vôo como a estátua do troféu memorial de Heisman segura a bola de futebol, Bush desceu do avião, enalteceu a tripulação que o recebia e proclamou vitória no Iraque. Essa volta vitoriosa, financiada pelo contribuinte, foi transmitida tantas vezes pela televisão quanto o beijo que Madonna plantou em Britney.

Alguns Democratas acusaram Bush de fazer uma cena dramática para sua campanha de reeleição, mas muitos americanos adoraram ver o comandante fotogênico celebrar nossa vitória relâmpago.

Passemos adiante, para 130 dias depois. Na noite de domingo (7/09), Bush entrou em cadeia nacional de televisão com um terno escuro e sóbrio e advertiu o país que, apesar da reconstrução do Iraque ser longa e cara, não podemos nos curvar para o terrorismo.

Muito aconteceu desde aquele dia glorioso no convés do Lincoln, pouca coisa boa: Mais soldados americanos morreram no Iraque do que durante a guerra de seis semanas. Saddam Hussein está foragido, mas é possível que seus fiéis terroristas estejam por trás dos atentados a bomba contra a sede da Organização das Nações Unidas em Bagdá e da mais sagrada mesquita xiita em Najaf, que mataram muitos inocentes. O Iraque está uma bagunça. Coisas básicas, como eletricidade e água potável são quase inexistentes. Ruas e estradas estão destruídas, preciosos campos petrolíferos silenciosos e improdutivos. A ilegalidade reina.

Então, com o esforço de pós-guerra em tal estado, simplesmente ponderamos: Por que o presidente demorou tanto para explicar isso ao povo americano?

Bush nos disse, no domingo à noite, que precisamos dobrar nossos gastos no Iraque. Ele vai pedir ao Congresso US$ 87 bilhões (cerca de R$ 261 bilhões), além dos US$ 79 bilhões (em torno de R$ 237 bilhões) autorizados na última primavera. O presidente engoliu em seco e pediu dinheiro e tropas às mesmas nações cuja ajuda desprezara poucos meses antes.

Provavelmente, não foi fácil admitir que a reconstrução do Iraque será muito mais difícil do que nos fizeram acreditar. E foi necessário coragem para pedir ajuda à ONU, depois da manobra evasiva junto à opinião pública mundial.

E mesmo se a França, Bélgica e Alemanha, nações rebaixadas por alguns membros do governo como "os países do chocolate", concordarem em ajudar, sem dúvida receberão algumas lambidas embaraçosas.

Alguns do partido Republicano tinham instado Bush a explicar seu plano para resolver o lamaçal no Iraque. Vamos, entretanto, lhe dar o benefício da dúvida. Vamos descontar uma nova pesquisa de opinião da CNN que mostra sua taxa de aprovação reduzida a 52%. Vamos ignorar a surra que está levando dos candidatos Democratas à presidência, que observam que as armas do Iraque de destruição em massa -a justificativa do presidente para guerra- ainda não apareceram, assim como Osama Bin Laden, dois anos depois de 11 de setembro de 2001.

Vamos aceitar que o Iraque seja o centro do terrorismo mundial e que sua reconstrução é tanto humanitária quanto vital para nossa segurança e que o tempo, dinheiro e as vidas serão um preço necessário para a liberdade e segurança mundial.

Tudo isso vai "requerer sacrifício", disse Bush aos americanos.

Nossas tropas e nossos entes queridos já estão se sacrificando -a Reserva do Exército e a Guarda Nacional ficarão em serviço por um ano inteiro, muito mais do que se antecipara.

E muitos outros americanos já estão se sacrificando. Os Estados estão cortando seus serviços, diante de uma recessão que Bush não consegue resolver.

Mas Bush também precisa se sacrificar.

Bill Clinton deixou um superávit orçamentário correto. Entretanto, a mais recente estimativa de déficit para o ano fiscal de 2004 é de monstruosos US$ 500 bilhões (aproximadamente R$ 1,5 trilhão). E está crescendo mais rápido do que o pé de feijão de João, mesmo sem incluir o novo benefício de remédios para idosos, prometido por Democratas e Republicanos. Nossos netos vão pagar por décadas por esta irresponsabilidade fiscal.

Bush deve admitir, para si mesmo e para a nação, que não podemos arcar com a guerra e com os US$ 107,8 bilhões (em torno de R$ 323 bilhões) em cortes de impostos que propõe. Além disso, terá que revogar quase todos, ou todos os cortes de impostos que o Congresso já lhe concedeu, de quase US$ 1,7 trilhão (em torno de R$ 5,1 trilhões).

Essa retirada, em grande parte, atingirá o bolso dos americanos mais abastados, muitos deles grandes contribuintes políticos de Bush. Dureza. Pois é, nunca deveriam ter tido tamanha bonança, para início de conversa.

Bush também precisa estender um ramo de oliva para os aliados que desprezou como irrelevantes. Em tempos cheios de maldade, não podemos arriscar o isolamento. Precisamos consertar nossas cercas diplomáticas e prometer dividir os contratos de reconstrução do Iraque. E se pedirmos aos aliados para contribuírem com soldados, precisamos lhes dar voz forte na política do pós-guerra, o que o presidente parece avesso a admitir.

Por fim, Bush precisa terminar acordos de pai para filho que concedeu a favoritos, como a antiga empresa do vice-presidente Dick Cheney, Halliburton, cuja subsidiária recebeu um contrato de dois anos que pode chegar a US$ 7 bilhões (em torno de R$ 21 bilhões) para extinguir incêndios de petróleo e reparar a indústria de petróleo iraquiana. Bush faria bem em pôr um fim à noção disseminada do público que políticos e empresários amigos têm a Casa Branca no bolso.

Não peça aos americanos para se sacrificarem, sr. presidente, a não ser que o senhor e seus amigos também estejam preparados. Clique aqui e visite o especial sobre o 11 de setembro Deborah Weinberg

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