Economia dos EUA se recupera, mas mercado de trabalho mantém-se arrasado

Sue Kirchhoff e Barbara Hagenbaugh
DE WASHINGTON

A economia está se recuperando. Mas o mercado de trabalho não.

O ritmo de retomada de novos empregos no decorrer desta recuperação econômica é o pior desde a Segunda Guerra Mundial. As empresas cortaram cerca de três milhões de empregos desde 2001, o mês em que o Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas, que monitora esse tipo de indicador, anunciou o fim da recessão. A confiança do consumidor despencou em setembro devido às crescentes preocupações quanto ao mercado de empregos, anunciou na terça-feira o Conference Board, uma organização que capta todos os meses o índice de confiança do consumidor no país.

Apesar da redução dos pedidos de pagamento de seguro-desemprego, o número de demissões foi maior em agosto último do que em agosto do ano passado. Essa onda de desemprego, em duração e abrangência, é a pior em décadas.

Considerando que a economia deve crescer velozmente neste outono, muitos economistas prevêem que o setor empresarial vai ficar suficientemente confiante para contratar empregados. Mas ainda que o mercado de trabalho se recupere, a melhora deverá ser gradual.

"Esta situação é diferente e possui todas as características de uma mudança significativa e estrutural no mercado de trabalho", afirma Allen Sinai, analista do Primark Decision Economics, uma firma de assessoria que atende clientes que lidam com o mercado financeiro. "Vamos presenciar menos empregos urbanos e assalariados, aqueles criados por dólares do produto interno bruto (PIB), do que em qualquer outro período de nossa história".

O Departamento do Congresso para o Orçamento prevê que o índice de desemprego, que era de 6,1% em agosto, fique em uma média de 6,2% em 2004. O Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) acredita que o índice de desemprego ao final de 2004 fique entre 5,5 e 6%.

Louise Geib, diretora da Drummac, uma empresa de manutenção e limpeza da indústria de transportes, diz que pensou que o mercado de trabalho tivesse melhorado. Mas isso só até colocar um anúncio em um jornal de Dallas, em meados de setembro, oferecendo uma vaga de porteiro com salário de US$ 9 por hora. Em alguns dias, ela recebeu centenas de telefonemas de interessados.

"Isso indica que a economia ainda está muito frágil", disse Geib, do seu escritório em Jacksonville. "Três anos atrás o telefone não tocaria".

Histórias semelhantes alimentam a preocupação do Federal Reserve e da Casa Branca, que temem que o desemprego persistente possa atrasar ou interromper a recuperação acelerada ao reduzir a confiança e os gastos do consumidor, um fator responsável por 70% da economia norte-americana.

Diversos fatores interligados parecem estar por trás dessa "recuperação econômica sem empregos".

Os economistas do New York Federal Reserve Bank, Erica Groshen e Simon Potter, dizem que a reestruturação de longo prazo dos setores de manufatura e de serviços significa que muitos empregos perdidos foram eliminados em caráter permanente nessa fase. A concorrência global intensa obrigou as fábricas a cerrar as portas, cortar a força de trabalho a um nível mínimo e transferir as unidades de produção para outros países. A necessidade de fazer entregas em cima da hora, o aumento da terceirização, as mudanças no sistema de compensação dos executivos e a queda da filiação aos sindicatos são fatores que alimentam essa tendência.

O aumento da produtividade está permitindo que as empresas produzam mais com um número menor de trabalhadores. Um dólar forte, que torna os produtos norte-americanos mais caros no exterior, prejudicou a competitividade.

Um estudo recente conduzido pelo Federal Reserve Bank of Kansas City revelou que os gerentes estão utilizando cada vez mais as horas extras ou os trabalhadores temporários para atender as necessidades inesperadas em períodos que, em outras circunstâncias, seriam de pouco movimento, ao invés de contratar empregados em regime de tempo integral. Na verdade, se as fábricas não tivessem recorrido às horas extras dos atuais trabalhadores, poderiam ter mantido quase 18% daqueles que foram despedidos no primeiro ano da recuperação econômica, ou cerca de 17 mil pessoas.

Acima de tudo, os executivos estão mais cautelosos devido aos escândalos que atingiram as grandes corporações e ao custo crescente dos benefícios trabalhistas, tais como o seguro-saúde.

"Creio que as coisas estão começando a mudar um pouco", diz Bill McKenna, dono do McKenna's Blues Booze e da BBQ, em Omaha. "Mas é preciso enxergar um pouco mais daquilo que está ocorrendo antes de puxar o gatilho das contratações".

Mas nem todas as notícias são sombrias - e há céticos que dizem que é um exagero afirmar que o que está acontecendo é uma recuperação sem empregos. O desemprego, quando avaliado de acordo com uma perspectiva histórica, é relativamente ameno. Vários dos fatores que restringem o mercado de trabalho, tais como a maior produtividade, devem auxiliar a economia a crescer mais rapidamente no futuro. Os aumentos de produtividade garantiram a manutenção de um crescimento real robusto dos salários, em relação a outras recessões do pós-guerra, segundo o New York Federal Reserve.

Além disso, o estudo feito pelo Kansas City Federal Reserve sugere que algumas das políticas adotadas que desaceleraram o mercado de trabalho também amenizaram a recessão.

"O problema tem conseqüências cruéis para alguns dos trabalhadores", diz Stacey Schreft, que dirigiu o estudo juntamente com Aarti Singh. "Mas essa flexibilidade deveria tornar os mercados de trabalho mais eficientes... Isso poderia também contribuir para que as recessões fossem mais curtas e amenas".

Há também dúvidas quanto à possibilidade de os números fornecidos pelo governo retratarem realmente o que está se passando. E isso se deve em parte a uma lacuna cada vez maior entre a pesquisa mensal do Departamento do Trabalho, realizada em 60 mil domicílios, que demonstra que 1,4 milhão de empregos foram criados desde novembro de 2001, e aquela feita com 400 mil empresas, que indica que os trabalhadores perderam 1,1 milhão de empregos.

"Sabemos que a pesquisa salarial está com certeza deixando de detectar certas coisas, como uma tendência para o trabalho autônomo", afirma John Ryding, economista de mercado da Bear Stearns, que espera uma recuperação no fim deste ano. Ele acrescenta: "Mesmo que se dê crédito total à pesquisa por domicílios e tudo de positivo seja dito, ainda assim teremos uma recuperação muito fraca dos índices de emprego".

William Hummer, economista da Wayne Hummer Investments em Chicago, espera que a economia em breve comece a crescer de forma suficientemente rápida para que os empresários criem um milhão de empregos até setembro do ano que vem. Isso não seria suficiente para garantir o retorno dos índices de desemprego historicamente baixos de menos de 4% presenciados antes da recessão, mas seria um grande progresso.

"O aumento do desemprego vem sendo exagerado por certas pessoas. Mas ele não é um fenômeno permanente. As coisas vão mudar para melhor", garante Hummer.

Essa não é a primeira recuperação dos índices de emprego no país. Na verdade, é a segunda seguida, após o discreto crescimento do número de vagas após a recessão de 1990 e 1991. A essa altura, nos anos 90, os índices de emprego haviam voltado à normalidade.

Para avaliar se há uma tendência em formação, economistas do Kansas City Federal Reserve examinou os ciclos de abundância e carência de empregos desde 1960. Eles descobriram que, em média, o índice de emprego cresceu 2,7% no primeiro ano após toda recuperação econômica, exceto no início da década de 90 e agora. Ou, em outras palavras, a economia sacrificou milhares de empregos durante o ano inicial da atual recuperação econômica, comparados aos mais de dois milhões criados em média nas recuperações anteriores.

O setor de manufaturas foi o mais atingido, tendo perdido 2,7 milhões de empregos desde meados de 2000. O setor de serviços cresceu de forma mais lenta do que em outras recuperações econômicas.

Mark Zandi, economista da Economy.com, diz que a situação pode ser tão ruim como no início dos anos 90, embora o índice de desemprego seja menor. O desemprego atingiu o seu ápice em junho de 1992, comparado ao pico atual de 6,4% em junho de 2003.

Zandi afirma que a parcela da população em idade produtiva que possui um emprego ou que procura por um diminuiu em um ponto percentual nos últimos três anos, o maior declínio na participação da força de trabalho já registrado. Trabalhadores frustrados desistiram de procurar empregos, e trabalhadores estrangeiros que vieram para os Estados Unidos durante a expansão do setor de tecnologia dos anos 90 partiram. Se a participação tivesse se mantido constante, o índice de desemprego seria de 7,8%.

"Devido ao fato de tanta gente estar desempregada, podemos conseguir mão-de-obra extremamente qualificada neste momento", diz Susan Hrib, diretor-executivo do Signum Group, uma empresa de software da área de Atlanta. "Para aqueles que vivem um momento de expansão, é uma boa hora para encontrar boas pessoas".

Aquilo que é bom para os patrões é duro para os empregados.

Angie Malaier tem procurado um emprego em Denver desde maio, quando terminou o seu MBA na Universidade de Notre Dame. Ela só conseguiu fazer quatro entrevistas, apesar de enviar 50 currículos por semana.

"Se eles tivessem alguém com dez anos de experiência que tivesse sido despedido, dariam preferência a essa pessoa, e não a mim", diz Malaier, de 27 anos, que pegou dinheiro emprestado com os pais.

Para o próximo período, as perspectivas são de melhora lenta. A presidenta do Boston Federal Reserve, Cathy Mineham, em uma declaração feita em 25 de setembro, previu que os empregos começarão a reaparecer em 2004, caso a atual tendência econômica se mantenha. Alguns analistas prevêem que é necessário um crescimento econômico de pelo menos 4%, devido à maior produtividade.

Mas Jared Bernstein, economista do Instituto de Políticas Econômicas, argumenta que a produtividade não é a razão principal para a atual queda do número de empregos. Observando que os atuais aumentos de produtividade de 4,4% não são muito maiores que a média de 4% das recuperações econômicas anteriores, ele afirma que o problema real dessa recuperação é o fato de os salários reais não estarem crescendo com rapidez suficiente para gerar demanda e de o mercado de trabalho estar enfraquecido. Bernstein reclama de que as recentes reduções dos impostos federais, embora tenham estimulado o consumidor a gastar, não tinham como objetivo a criação de empregos.

Vários economistas sugerem que se encontrem maneiras de incrementar as exportações, aumentar os treinamentos e intensificar a ajuda aos desempregados, caso o mercado de trabalho não se recupere. A Casa Branca e o Congresso estão em busca de idéias, nervosos com a proximidade das eleições de 2004.

As pesquisas recentes demonstram que os eleitores consideram a economia como um motivo de maior preocupação que o terrorismo, apesar de a atividade empresarial ter se expandido por quase dois anos consecutivos, as bolsas de valores terem registrado altas significativas desde janeiro e os indicadores econômicos subirem.

Steven Wood, do Insight Economics, uma firma de consultoria econômica, diz esperar que a geração de empregos tenha início a pleno vapor no ano que vem. "Mas se o nível de empregos não se recuperar de maneira sólida, este será mais um exemplo de salto econômico de pouca duração".

No longo prazo, algumas das tendências e pressões atuais vão persistir, mesmo após o mercado de trabalho se recuperar.

Stephen Grubba é presidente da Superior Staffing Solutions, uma empresa de pesquisa sobre empregos de Greer, na Carolina do Sul. A sua área depende intensamente do setor de manufaturas, onde a interrupção das contratações é comum. Trabalhos terceirizados e ajuda temporária são práticas cada vez mais comuns.

"O mercado de trabalho está completamente morto há meses", reclama Grubba.

As empresas devem continuar transferindo os seus empregados e fábricas para outros países. Um estudo feito pela Goldman Sachs estima que entre 300 mil e 500 mil empregos foram perdidos nos últimos três anos com a migração de empregos para outras nações. Cerca de seis milhões de empregos podem ser transferidos para o exterior na próxima década.

E a cautela no setor empresarial vai continuar.

Após ter demitido sete pessoas - um terço da sua equipe - neste ano, a Water Consulting Group, firma de consultoria sobre recursos humanos de Dallas, está contratando um programador de computador. Mas os gerentes da empresa, que tiveram reduções salariais e estão trabalhando mais horas, sentem-se confortáveis com a medida apenas porque conseguiram um contrato de longo prazo.

"É uma ladeira muito escorregadia", diz Stacy Layton, diretor de operações. "Precisamos ter apenas o número necessário de pessoas necessário para gerenciar este negócio". Danilo Fonseca

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