Assassinatos e ataques a estudantes de escolas públicas assustam os Estados Unidos

Greg Toppo

O ano letivo 2003/2004 nos Estados Unidos mal começou, mas uma série de assassinatos cometidos a tiros e facadas, além de outros ataques, faz com que os especialistas temam que esse período venha a ser um dos mais mortíferos dos últimos anos nas escolas norte-americanas.

Desde meados de agosto, quando a maior parte dos estudantes retornou às salas de aula, já foram registradas no sistema de escolas públicas do país 18 mortes violentas, mais do que a média de cada um dos anos letivos anteriores. E isso não inclui as dezenas de incidentes não fatais.

Os jovens estão sendo mortos pelos colegas de escola, por desconhecidos e até mesmo pelos pais, tanto nas grandes quanto nas pequenas cidades. Houve tiroteios em escolas de segundo grau em Chicago, Illinois, e em Cold Spring, Minnesota; guerras entre gangues em Tucson, no Arizona; facadas e trocas de socos em Fort Worth, Texas, e em Green Cove Springs, Flórida. Em San Diego, Califórnia, e em Hopkinsville, Kentucky, foram registrados assassinatos seguidos de suicídios. Em Spokane, Washington, e em Sacramento, Califórnia, a polícia baleou estudantes armados em conflitos de rua.

Embora não tenha havido nenhum episódio da magnitude do que ocorreu na escola Columbine, em 1999, onde morreram 15 pessoas, o alto número de incidentes está deixando confusos os especialistas em segurança escolar, que dizem que a violência nas escolas é geralmente mais intensa na primavera - o que prenuncia um ano especialmente problemático pela frente.

O fato também está fazendo soar um alarme discreto entre aqueles profissionais que trabalham com jovens.

"Temos um mundo pós 11 de setembro no qual há uma grande sensação de perigo, e onde os nossos filhos se sentem ameaçados, estressados e ansiosos", afirma Ken Druck, psicólogo de San Diego, na Califórnia. "Os adolescentes estão amedrontados, e grande parte da violência deriva desse estresse e desse medo".

Os analistas enumeram vários possíveis fatores que podem causar o fenômeno, incluindo escolas de segundo grau grandes e impessoais, jogos de videogame violentos, uma economia problemática e a ansiedade gerada pelas exigências acadêmicas mais rígidas. Alguns observam que o número de gangues de ruas está aumentando e que a guerra contra o terrorismo está desviando recursos que seriam destinados à segurança nas escolas.

Mas há aqueles que simplesmente não encontram explicação para o fato, especialmente ao se considerar o aumento da atenção dispensada à segurança escolar após a tragédia na Columbine.

"É algo que, certamente, jamais esperamos presenciar, e que eu jamais poderia desejar que alguém experimentasse pessoalmente", desabafa Scott Staska, superintendente das escolas da área de Rocori, em Cold Spring, Minnesota, onde em 24 de setembro um aluno do primeiro ano do segundo grau matou dois colegas a tiros, após ter sido vítima de gozações devido ao fato de sofrer de acne. O episódio se constitui no primeiro caso de homicídio ocorrido em uma escola de Minnesota.

Estatísticas criminais federais demonstram que os jovens ainda estão bem mais seguros na escola do que praticamente em qualquer outro lugar, e não se sabe ao certo se o número de crimes nas escolas, de forma geral, aumentou nos últimos anos. As estatísticas mais recentes indicam que tais crimes sofreram uma redução na década de 90. Segundo o Departamento de Educação dos Estados Unidos, a porcentagem de estudantes de escolas de segundo grau que relataram ter sido vítimas de crimes diminuiu de 9,8% em 1995 para 5,7% em 2001. O índice de crimes violentos sérios nas escolas ou nas suas imediações entre estudantes de 12 a 18 anos caiu de dez casos por 100 mil estudantes em 1992 para cinco por 100 mil em 2000.

Poderia ser óbvio constatar que a espiral assassina de violência é um efeito colateral dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Mas tais atentados podem ter, de fato, contribuído para a redução do número de homicídios e suicídios nas escolas. Nos dois anos que se seguiram aos ataques, o número desses incidentes diminuiu drasticamente, segundo Ken Trump, do Serviço Nacional de Segurança nas Escolas, uma firma de Cleveland, Ohio, que trabalha com estatísticas sobre crimes nas escolas. Houve 17 episódios de mortes violentas no ano letivo 2001-2002, e 16 em 2002-2003. Já em 1999-2000, houve 31 mortes desse tipo.

Segundo a maioria dos relatos, as escolas estão investindo mais energia do que nunca na prevenção desse tipo de violência. Após a Columbine, a maior parte dos distritos implementou programas para evitar provocações, assédios e ameaças dos alunos mais fortes ou problemáticos contra os mais retraídos, e estimulou projetos de participação dos pais. Não é incomum encontrar estudantes do terceiro ano especialistas em resolução de conflitos e "simulações de cativeiro".

Mas Bill Modzeleski, do Departamento de Escolas Seguras e Livres de Drogas, uma organização federal, afirma que vários incidentes violentos ocorrem após as aulas, quando os estudantes se dirigem para suas casas. "É um momento em que há pouco ou nenhum controle sobre os adolescentes", explica.

A ameaça de terrorismo e de futura violência nas escolas fez com que o Departamento de Educação concedesse neste mês US$ 38 milhões em verbas para a melhoria da segurança nas escolas. Mas, no momento em que a guerra contra o terrorismo entra no seu terceiro ano, autoridades municipais reclamam de que as verbas para a segurança escolar estão diminuindo. A polícia de Idaho Falls, no Estado de Idaho, disse no mês passado que um aumento no número de brigas nas escolas está sobrecarregando a força policial do município. No verão passado, a polícia escolar teve o seu efetivo reduzido para economizar US$ 1,8 milhão. Em uma pesquisa feita em agosto com policiais escolares pela Associação Nacional dos Funcionários de Recursos Escolares, 41% dos entrevistados disseram que as verbas para segurança diminuíram.

Modzeleski diz que as comunidades podem implementar medidas que não são muito caras, tais como pedir aos lojistas que observem os estudantes quando estes vão para casa. "Creio que temos que voltar a dizer que essa é uma questão comunitária", afirma.

A polícia afirmou que vários incidentes ocorridos em meados deste ano foram resultado do aumento da atividade das gangues. Em 9 de setembro, houve um tiroteio em Los Angeles no qual três adolescentes ficaram em estado crítico após terem sido baleados em um ponto de ônibus. O tiroteio ocorreu após um homem que estava no interior de um veículo que passava pelo local ter lançado um grito de desafio a uma gangue adversária e, a seguir, ter disparado contra uma multidão.

Vários analistas culpam ainda a economia problemática do país. Em 5 de setembro, um homem de San Diego matou o filho, e a seguir se suicidou. O pai não conseguia um emprego.

"A guerra contra o terrorismo significa que a segurança nas escolas assumiu um papel de menor importância aos olhos da mídia, do público e, talvez o mais importante, dos legisladores. Detesto pensar que chegaremos a um ponto tal em que um adolescente estará mais seguro em uma ponte ou um monumento do que na escola", queixa-se Trump.

Os suicídios e os assassinatos seguidos de suicídio respondem por uma porção substancial das mortes violentas nas escolas - cerca de 37% nos últimos quatro anos.

As estatísticas federais demonstram que 10% de jovens com menos de 18 anos sofrem de doenças mentais suficientemente graves para causar "algum tipo de limitação". Somente um em cada cinco tem acesso a tratamento.

"Não há dúvida de que estamos vivendo em um período mais estressante", afirma o psiquiatra infantil Harold Koplewicz, diretor do Centro de Estudos Infantis da Universidade de Nova York. "Existe um novo sentido de normalidade, mas isso não significa que o processo não seja estressante. Os jovens mais vulneráveis vão ser os mais atingidos".

Uma ênfase cada vez maior na capacidade acadêmica está colocando os jovens em risco porque as escolas muitas vezes ignoram as suas necessidades sociais e emocionais, afirma David Osher, do Instituto Americano de Pesquisa, uma instituição sem fins lucrativos, com sede em Washington, D.C., voltada para educação, saúde mental de crianças e adolescentes, e outras questões.

Osher critica ainda o sistema de apoio emocional, por meio do qual muitas crianças e adolescentes têm acesso a serviços de saúde mental. Ele disse que muitos tratamentos exigem planos de vários anos, mas que o sistema não oferece verbas para isso.

Não há incentivos para que se colham resultados de longo prazo", acusa. "Não há incentivos para a prevenção desses problemas".

Nos anos que se seguiram à tragédia da Columbine, a maioria dos especialistas frisou que uma das maneiras mais eficientes de as escolas reduzirem a violência é reprimir o assédio físico e agressão dos estudantes mais fortes contra os mais fracos. Dawn Anna, cuja filha Lauren foi morta na Columbine, diz que é necessário ensinar aos estudantes que, tão grave quanto aceitar esse tipo de comportamento, é não denunciá-lo.

Anna diz ainda que as grandes escolas de segundo grau são problemáticas. Anna, que é ex-professora secundária de matemática, e que foi ainda técnica de vôlei para cerca de 2.000 alunos da Columbine, afirma que as escolas pequenas ajudam os adultos a estabelecer relacionamentos mais concretos com os alunos. "Nessas escolas, os professores podem saber quem está na sala de aula", afirma.

Mas mesmo o fato de se estudar em uma escola pequena pode ter suas desvantagens. Um estudo publicado nesta semana no periódico "Sociology of Education" revela que alunos de escolas menores podem apresentar uma propensão duas ou três vezes maior para levar armas à escola.

Embora a Escola de Segundo Grau Rocori, palco do tiroteio do mês passado, seja grande, tendo 2.400 alunos, o diretor Staska diz que as três pequenas comunidades atendidas pela escola são "muito amigáveis, muito atenciosas e abertas". Mas os tiroteios levaram alguns adultos a avaliar se estão prestando atenção em todos os jovens.

Os especialistas em segurança que perceberam um aumento no número de mortes violentas dizem que estão esperando pelo melhor - enquanto se preparam para o pior. Nos últimos anos, a maior parte dos homicídios e suicídios ocorreu no segundo semestre, na primavera ou após as férias de inverno. No ano passado, somente quatro mortes ocorreram antes de janeiro.

"A maior parte desses incidentes ocorre na segunda metade do ano", afirma Frank Zenere, psicólogo das Escolas Públicas de Miami-Dade, na Flórida. "Foi surpreendente presenciar tal fato tão cedo." Danilo Fonseca

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