Fracassou o o plano de paz do governo Bush para o Oriente Médio

Barbara Slavin
EM WASHINGTON

Há uma semana, no momento em que o governo israelense anunciou que autorizaria a construção de apartamentos para judeus na Cisjordânia, o Departamento de Estado logo reconheceu que esta decisão violava por completo o compromisso firmado no mês de junho por Israel. O governo de Ariel Sharon se comprometera a interromper obras em território palestino, e este era um dos principais itens do "mapa para a paz" defendido pelos americanos.

Em vez de uma censura contundente, a reação do Departamento de Estado foi amena: "Não tenho comentários a fazer. Posso apenas dizer que expusemos nosso plano com clareza ao afirmar que, com o mapa para a paz, Israel se comprometera a interromper as ocupações e que a manutenção deste compromisso é importante", disse o porta-voz Adam Ereli.

Esta suave oposição caracteriza bem a atitude do governo Bush, que aparentemente desistiu da busca por um acordo entre árabes e israelenses em face da constante desobediência ao processo manifestada por ambas as partes. Logo após o presidente Bush ter lançado, há apenas quatro meses, o mapa para a paz durante um encontro na Jordânia e prometido um envolvimento integral, a Casa Branca iniciou o recuo. A virada teve início no dia 6 de setembro, com a renúncia do primeiro-ministro palestino Mahmoud Abbas. Americanos e israelenses apostavam na negociação de um acordo de paz que o antigo líder israelense Iasser Arafat não foi capaz de alcançar.

Em entrevista coletiva concedida na última semana, Bush afirmou: "Quando a Autoridade Palestina apresentar um líder verdadeiramente disposto a combater e eliminar as organizações terroristas, o processo será retomado no ponto em que foi deixado".

Depois da renúncia de Abbas, as ações e declarações do governo Bush indicam que os Estados Unidos reconheceram o fracasso do mapa para a paz. Agora os americanos parecem ter regressado ao apoio incondicional às políticas de confronto do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon:

- Elliot Abrams, oficial americano de mais alta patente do Conselho Nacional de Segurança em atividade no Oriente Médio, declarou a um grupo de analistas no último mês que o governo não esperava que Israel interrompesse os assassinatos de militantes palestinos mesmo após a negociação do cessar-fogo que teve início no dia 29 de junho. Na avaliação do governo, o cessar-fogo foi negociado entre facções palestinas e não imporia limites às ações israelenses. O acordo foi rompido em 19 de agosto após o ataque de um suicida palestino que matou 23 pessoas em um ônibus de Jerusalém.

- Após o ataque israelense contra um suposto campo de treinamento para terroristas palestinos na Síria em 5 de outubro - o primeiro em trinta anos - o presidente Bush afirmou que Sharon "não deveria sentir-se constrangido" por defender seu país.

- No dia 14 de outubro, ao ser questionado sobre a demolição de mais de 200 casas do campo de refugiados em Gaza pelos israelenses, o porta-voz do Departamento de Estado Richard Boucher afirmou: "Entendemos que Israel precisa se defender. E também já afirmamos que Israel deve calcular as conseqüências de suas ações". O governo israelense alegou que havia destruído túneis utilizados para o contrabando de armas. Porém o mapa para a paz determinava que Israel interromperia "o confisco e/ou demolição de lares e propriedades palestinas".

No dia seguinte, palestinos detonaram uma bomba que matou três guardas americanos em um comboio que passava por Gaza. Samuel Lewis, embaixador americano em Israel entre 1977 e 1985, afirmou que o ataque representava um sinistro sinal de que os americanos passaram a ser um alvo, e também refletia a ira palestina contra "o viés francamente pró-israelense do governo Bush".

"Aos olhos do mundo árabe, os Estados Unidos sempre foram vistos como parceiros de Israel", afirma Martin Indyk, embaixador americano em Israel . Houve apenas uma mudança, segundo Indyk: os árabes deixaram de acreditar que os Estados Unidos "se comprometem a buscar uma solução" para o conflito.

Ahmed Ghneim, membro de uma delegação palestina que visitou Washington na semana passada para solicitar ao governo Bush que intermediasse um cessar-fogo efetivo, declarou ao Instituto Washington de Políticas para o Oriente Médio: "Não há sinal de que teremos algum parceiro... ao menos nos Estados Unidos e em Israel".

As autoridades americanas responsabilizam os palestinos pelo impasse. Mas a disputa pela presidência provavelmente também influiu. Às vésperas de um ano eleitoral, o firme apoio de Bush a Ariel Sharon agrada à base que o apóia.

"Cristãos pró-israelenses e judeus aceitam melhor a nova orientação do governo", afirma Gary Bauer, um ex-candidato republicano que comanda o grupo conservador American Values.

Os defensores da atual política afirmam que, na opinião de Bush, esta é a única estratégia que obrigaria os palestinos a escolher um comando mais eficiente.

Na opinião do governo, "devemos nos afastar para que os palestinos assumam a responsabilidade" pelo combate ao terrorismo, afirma Steve Rosen, diretor de política estrangeira do Comitê de Questões Públicas de Israel e Estados Unidos, um grupo lobista que defende os interesses de Israel.

O impacto de curto prazo das tentativas de lançar Arafat no ostracismo o fortaleceu. Na semana passada, uma pesquisa revelou que Arafat conta com 52% de aprovação entre os palestinos - seu melhor índice nos cinco últimos anos.

Especialistas advertem que o afastamento poderá ser desastroso. "Pela primeira vez desde que me ocupo deste problema, noto que não há regras para as decisões do governo, não há processo de paz e nem uma força externa que sirva como contrapeso", afirma Aaron Miller, ex- conselheiro de seis secretários do Departamento de Estado. O novo quadro "cria um vácuo em que a situação poderá deteriorar ainda mais". André Medina Carone

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