Discriminação e assédio a árabes aumentaram desde o 11 de setembro

Francis X. Donnelly
DE WATERFORD, Michigan

O número de queixas relativas à discriminação e ao assédio recebidas pelo Conselho de Relações Americano-islâmicas, com sede em Washington, triplicou no ano passado, chegando a 1.516.

Os árabes residentes nos Estados Unidos alegam que são alvos de discriminação quando procuram emprego, além de serem xingados e sofrerem violência física. A pesquisa feita pela organização junto a 945 muçulmanos no ano passado revelou que 48% acreditam que a qualidade de suas vidas piorou após os ataques terroristas de 11 de setembro.

Essa discriminação teria origem de várias partes: patrões, vizinhos, funcionários públicos e cidadãos nas ruas. Os árabes e os muçulmanos alegam que são insultados pelas costas pelos amigos e ostensivamente por desconhecidos.

"Muitos norte-americanos estão direcionando o seu ódio de forma errada contra outros norte-americanos", acusa Shereef Akeel, de Huntington Woods, Michigan, advogado que representa vários muçulmanos que entraram com ações na Justiça, alegando que tiveram os seus direitos civis desrespeitados.

"Estamos sempre na defensiva para explicar o islamismo", lamenta ele. "Osama Bin Laden seqüestrou o Islã. Ele conferiu ao islamismo uma face que demorará anos para ser removida".

Esses problemas fazem com que os árabe-americanos se sintam excluídos, como se precisassem constantemente provar a lealdade à pátria adotada. A ironia é que alguns deles vieram para cá exatamente para escapar desse tipo de coisa.

Outras das vítimas da discriminação não se mudaram para os Estados Unidos. Nasceram aqui. Ainda assim, se sentem alienados. E perguntam a si próprios: "Quando é que vamos se sentir como norte-americanos?".



Aumentam as queixas
Antes do 11 de setembro, o escritório do Comitê de Antidiscriminação aos Árabe-americanos em Dearborn, Michigan, recebia umas poucas reclamações por semana de moradores locais que se sentiam discriminados. Atualmente, o escritório recebe em média dez reclamações semanais. A equipe aumentou de dois para cinco funcionários.

Os moradores reclamam de estabelecimentos que se recusam a atendê-los, de demissões sumárias, de ameaças de violência física por parte de desconhecidos e de locadores que os despejaram de suas residências.

Brandon Al-Sandouk conta que foi demitido da Bombardier Aerospace, em Taylor, Michigan, onde trabalhava como secretário da recepção, por ser descendente de iraquianos. Ele disse que o patrão chamou o seu almoço de "comida de camelo" e o mandou dirigir uma empilhadeira "como um camelo".

A companhia se recusou a falar sobre o assunto, que está sendo investigado pelo Departamento de Direitos Civis de Michigan.

"Achei que estava seguindo um rumo junto com a companhia", reclama Al-Sandouk. "Pensei que estava começando uma carreira. Como foi que eles puderam fazer tal coisa comigo?".



Um aeroporto chamado inospitaleiro
Segundo os árabes e os muçulmanos da região, o lugar mais inospitaleiro que existe é o aeroporto.

Muitos deles contam que foram parados e revistados várias vezes antes de embarcarem em aviões. Alguns foram revistados novamente quando embarcaram. Um morador da região disse que os seus cartões de identificação e de embarque foram pedidos quatro vezes antes que pudesse embarcar.

No ano passado, cinco árabe-americanos entraram com ações na Justiça contra quatro empresas aéreas, incluindo a Northwest Airlines, alegando que foram impedidos de embarcar devido a suas nacionalidades. Eles entraram com os processos nos Estados de Nova Jersey, Califórnia e Maryland.

Alguns árabe-americanos que moram em Michigan deixaram de usar os aeroportos, alegando que preferem dirigir por longas distâncias a expor as suas famílias a tal humilhação.

"Que pai deseja que seus filhos o vejam nesse tipo de situação?", pergunta Patrick Hassan, um jordaniano que tem dois filhos. "Estão nos tratando como criminosos".



Vidas modificadas
A convicção de que a discriminação aumentou desde o 11 de setembro também modificou as vidas dos árabes da região metropolitana de Detroit de outras formas.

As mulheres muçulmanas estão usando menos os seus véus tradicionais, os hijabs, com medo de provocar reações furiosas de desconhecidos. Os muçulmanos estão americanizando os seus primeiros nomes de forma a se encaixarem melhor na nova pátria. Assim, Ibrahim às vezes se transforma em Abe e Mohammed em Mike.

Eles se cercam da bandeira dos Estados Unidos, esperando que a presença do símbolo nacional nas suas casas e locais de trabalho transmita a mensagem de que não são terroristas.

Ao mesmo tempo, temem exercitar a liberdade de discurso, preocupados com a possibilidade de que qualquer crítica às ações dos Estados Unidos no Oriente Médio ou aqui possa fazer com que sejam vistos como inimigos do Estado.

Haaris Ahmad, ex-diretor-executivo do Conselho de Relações Americano-islâmicas em Michigan, disse que os muçulmanos que desejam conter os ensinamentos do islamismo extremista não têm sequer a chance de aprender sobre o assunto.

"Se eu ainda tivesse em casa fitas e livros sobre esse ramo do Islã, o que aconteceria?", questiona. "Eles assumiriam que sou um militante. O que aconteceu com a Primeira Emenda à Constituição?".



Cansados de se esconder
Os árabe-americanos do sudeste de Michigan estão ficando cansados de se esconder. Após terem lidado em silêncio com as conseqüências dos ataques por mais de dois anos, eles começaram a se manifestar.

A reunião anual do Comitê de Antidiscriminação aos Árabe-americanos ocorreu em junho no Marriot Hotel, em Arlington, Virginia.

A mensagem que emanou das salas de conferência foi bem clara: os árabes e muçulmanos não vão mais tolerar essa situação.

Pediu-se aos participantes que telefonassem para os seus representantes no Congresso, que escrevessem aos jornais locais e que se envolvessem nas eleições.

"Talvez haja algo positivo em tudo isso", disse Akeel, o advogado de Huntington Woods. "Muitos árabes e muçulmanos que estão aqui são da primeira geração de descendentes de imigrantes. Eles estão aprendendo que têm direitos pelos quais lutar". Danilo Fonseca

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