Idosos buscam vitalidade em hormônio do crescimento

Elizabeth Weise

Milhares de pessoas idosas acreditam ter descoberto a fonte da juventude. Algo que os torna mais magros, musculosos, lhes proporciona mais energia e melhora a vida sexual.

Que elixir é esse? É o hormônio humano do crescimento: a potente substância que tem sido objeto de polêmica acalorada.

A Administração de Alimentos e Remédios dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou em meados deste ano o uso do hormônio sintético em crianças saudáveis que têm forte probabilidade de se tornarem adultos muito baixos. O aspecto ético da decisão foi questionado por aqueles que temem que a medida faça parte de um plano de "projetistas de crianças".

Mas há uma preocupação crescente entre os especialistas em saúde quanto aos cerca de 50 mil idosos norte-americanos que estão recebendo injeções diárias do hormônio. Alguns pesquisadores alegam que essa prática, pela qual os usuários pagam entre US$ 5.000 e US$ 10 mil anualmente, pode implicar em efeitos colaterais graves e potencialmente fatais.

Outros pesquisadores esperam que a substância possa fazer com que os idosos permaneçam independentes por mais tempo. "O objetivo da medicina de combate ao envelhecimento é manter o nosso metabolismo o mais jovem possível durante o maior tempo", explica Ronald Klatz, presidente da Academia Americana de Medicina Contra o Envelhecimento.

E os idosos não são os únicos que estão esperando milagres: o hormônio é uma mercadoria cobiçada pelos atletas de alta performance. (Porém, é algo totalmente diferente do THG, o esteróide que vem sendo o pivô de vários escândalos no meio esportivo).

Don Catlin, membro da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional, afirma que o uso do hormônio do crescimento é "substancial".

Na verdade, o Comitê Olímpico está financiando cientistas para que estes encontrem um exame para detectar o uso do hormônio do crescimento. O comitê se reunirá no segundo trimestre do ano que vem para discutir se tal exame estará disponível durante as Olimpíadas de Atenas, em agosto de 2004.

O hormônio do crescimento é essencial para a vida. Produzido na pituitária, a "glândula mestra" do corpo, ele é chamado pelos cientistas de somatotropina. Sem ele, os embriões não crescem, as crianças não se desenvolvem e os adultos se tornam gordos, letárgicos e deprimidos. A maior produção ocorre na adolescência. O corpo produz menos somatotropina à medida que o indivíduo envelhece.

Em meados deste ano, a FDA aprovou o uso do hormônio sintético do crescimento para o tratamento de crianças "de estatura extremamente baixa" - garotos com tendência a se tornarem adultos com menos de 1,60 m e meninas que provavelmente não chegariam a 1,50 m de altura.

Essas crianças dificilmente são vítimas da deficiência do hormônio do crescimento - a estatura diminuta poderia ser causada por uma série de fatores genéticos e de outra natureza. Assim, alguns especialistas em ética aplicada às ciências biológicas afirmam que não seria correto fornecer drogas tão potentes para essas crianças saudáveis apenas porque elas poderiam se tornar adultos baixos.

Mas o suplemento hormonal poderia implicar em um aumento na altura entre 7,6 cm e 12,7 cm. A FDA concluiu que o fato de ser baixo representa um problema tão grande que esses centímetros extras poderiam significar uma grande diferença na qualidade de vida.

O hormônio do crescimento é aprovado também para as crianças que não estão crescendo devido a doenças como a síndrome de Turner ou a tratamentos como a hemodiálise.

O tratamento com o hormônio foi aprovado para adultos e crianças que apresentam deficiência da substância por causa de danos causados à pituitária devido a tumores, cirurgia, tratamento por radiação ou trauma.

Para os pacientes que pararam completamente de produzir o hormônio do crescimento, a terapia de reposição pode ser uma panacéia. Mary Lee Vance, endocrinologista da Universidade de Virgínia em Charlottesville, já viu o tratamento ajudar dezenas de pacientes que tiveram a pituitária removida devido a tumores.

O hormônio é também administrado a pacientes de Aids para compensar a perda de massa muscular e a distribuição anormal de gordura causada pelos medicamentos fortes que tomam.

Esses são os usos "oficiais" do hormônio, o que significa que foram aprovados pela FDA para um problema específico.

Usos "não oficiais"

Quando o hormônio do crescimento é prescrito para pessoas saudáveis mais velhas, o tratamento é considerado "não oficial". Isso significa que o médico está prescrevendo uma substância que acredita que vai beneficiar o paciente, mas não com a intenção de promover um tratamento específico reconhecido pela FDA.

Billie Russel, de 79 anos, moradora de La Jolla, em San Diego, na Califórnia, começou a tomar injeções do hormônio do crescimento há quatro anos, juntamente com estrogênio, testosterona, hormônio da tireóide, vitaminas e sais minerais.

"Quatro anos atrás, eu era incapaz de caminhar por quatro quarteirões. Agora, ando 1,6 km na minha esteira. Me sinto ótima e o meu impulso sexual voltou. Me sinto novamente como uma jovem", diz a ex-modelo. "Antes de começar esse tratamento, não queria levantar da cama de manhã, e não me interessava em ir a lugar algum. Estava simplesmente entorpecida, assim como várias mulheres idosas que não têm mais hormônios circulando pelo corpo".

O hormônio do crescimento modificou o seu humor e aumentou a sua energia. "Hoje em dia organizo grandes jantares. Cultivo um jardim. Neste ano, engarrafei 95 litros de picles. Para mim, foi um milagre", conta Russel. "O meu marido não pára de me perguntar o que aconteceu comigo e para onde foi aquela velha senhora".

Um corretor de títulos e valores de São Francisco, que pediu que o seu nome não fosse revelado, toma o hormônio há três anos e diz que os efeitos são "sutis". O homem, de 51 anos, garante que o seu humor ficou mais positivo e a pele mais úmida e elástica, com uma aparência melhor.

"Embora não espere que o hormônio me dê mais anos de vida, acredito que ele faça com que eu me sinta melhor durante os anos que tenho pela frente. Espero que, quando tiver 70, 80 ou 90 anos, me sinta melhor do que se não tomasse o hormônio", explica.

Mas, será que isso vai de fato acontecer?

Juventude eterna?

Após quase uma década de pesquisas, ainda não há uma resposta. Um estudo novo de grandes dimensões faz uma comparação entre as pessoas que tomam o hormônio, aquelas que se exercitam e que as que fazem as duas coisas.

Segundo George Merriam, professor de medicina da Universidade de Washington em Seattle, o que os pesquisadores descobriram foi que, embora o hormônio do crescimento seja capaz de "reesculpir a composição do corpo" ele não faz com que os pacientes saiam da cama.

Ou seja, ele pode até reduzir alguma gordura abdominal e aumentar um pouco a massa muscular, mas não altera o desempenho daqueles que se submetem ao preciso teste Performance Contínua da Função da Escala Física, que avalia as habilidades para enfrentar o dia a dia utilizando pontos de ônibus, mercearias, cozinha e quarto simulados.

Somente os exercícios melhoraram sem sombra de dúvida a funcionalidade, a resistência e a força. A grande descoberta positiva dos pesquisadores foi que, embora a droga sozinha não melhore o desempenho físico, ela parece impedir que este piore.

"Todo mundo está procurando uma bala mágica", afirma Christine Cassel, especialista em medicina geriátrica e presidente da Associação Americana de Medicina Interna. "A confirmação de que a chave para uma velhice vigorosa é a atividade - física, mental e social - simplesmente não é a verdade que a nossa sociedade deseja ouvir".

Merrian não acredita que este seja o momento para a utilização generalizada do hormônio do crescimento.

"Os meus pais têm mais de 90 anos, e eu não recomendei a eles o hormônio. Não é aquele tipo de substância sobre a qual sentimos saber suficientemente quais são os benefícios comparados aos custos", afirma.

E esses custos podem ser muito altos em termos de efeitos colaterais.

Carl Grunfeld, professor de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco, realizou alguns dos primeiros estudos com o hormônio do crescimento em pessoas idosas saudáveis. "Eles reclamaram bastante", conta. "Tiveram edemas, dores e problemas no túnel carpal. Eles não gostaram do tratamento".

Dos 26 homens que receberam o hormônio do crescimento e que participaram do estudo feito por Grunfeld, 22 relataram que houve pelo menos um efeito colateral e seis tiveram as doses diminuídas por causa dessas reações. Embora os homens estudados tenham perdido gordura abdominal e ganhado músculos, isso não aumentou a sua funcionalidade. Esses efeitos colaterais apareceram em pelos menos alguns pacientes na maioria das pesquisas.

Klatz, no entanto, reclama de "todas essas bobagens a respeito desses efeitos colaterais que simplesmente não ocorrem fora do laboratório". Ele diz que a exceção é a inchação nas articulações, que afirma desaparecerem quando a dose da substância é reduzida.

"Nossos pacientes e todos os pacientes legítimos eram pessoas que viviam normalmente em suas casas. Eles não estavam em laboratórios", retruca Grunfeld. "Aqueles que tomaram o hormônio do crescimento tiveram um número bem maior de sintomas do que os que receberam placebos. Não há dúvidas quanto a isso".

Mas esses são apenas os efeitos colaterais óbvios. Há também evidência de que, nas pessoas mais idosas, altas doses podem afetar a pressão sanguínea e a taxa de açúcar no sangue, e talvez causar diabetes. As crianças não parecem ser vulneráveis a essas doenças.

E, além disso, há o câncer. Embora as pesquisas tendam a demonstrar que o uso do hormônio do crescimento não causa novos cânceres, ainda não se sabe se ele pode causar tumores pequenos e ocultos, que possam crescer e se tornar perigosos. Um estudo britânico recente demonstrou um aumento nos casos de câncer, mas outros dois não detectaram tal fenômeno.

Mas nem todos os pesquisadores são contra a prescrição do hormônio do crescimento aos idosos. Os defensores do tratamento acreditam que ele seja uma forma de mitigar os efeitos do envelhecimento, e há pessoas que não apresentaram efeitos colaterais.

"O próximo grande nicho a ser explorado é o tratamento da fraqueza", afirma Peter Sonksen, professor de endocrinologia da Escola de Medicina do King's College, em Londres. "Se o hormônio tornar as pessoas menos frágeis e um pouco mais independentes por mais tempo, teremos um enorme potencial para aplicação positiva".


O elixir da força?

Embora os atletas possam tomar altas doses, as pessoas mais velhas tendem a se submeter a doses menores e mais baratas. A substância é vendida em forma de líquido, ou de um pó que é misturado à água esterilizada. A maior parte das fórmulas exige refrigeração e é injetada sob a pele, geralmente no abdômen. Devido ao fato de os nossos corpos produzirem maior quantidade de hormônio do crescimento à noite, os pacientes geralmente injetam a substância em si próprios na hora de dormir.

E, segundo Klatz, o procedimento é perfeitamente seguro. "Se a substância fosse perigosa, já teríamos ouvido falar de algum problema. Não de algum cara encastelado em uma torre de marfim, mas do Centro de Controle de Doenças, que anunciaria todos os efeitos colaterais adversos registrados nas salas de emergência", afirma.

Nas crianças, esses problemas podem simplesmente não ter tido tempo de aparecer, adverte Selna Kaplan, endocrinologista infantil da Universidade da Califórnia em São Francisco, e que foi uma das primeiras cientistas a pesquisar os efeitos do hormônio do crescimento.

Até 1985, quando a versão sintética foi comercializada pela primeira vez, o hormônio do crescimento não foi administrado a quantidades suficientes de crianças. Até mesmo os pacientes mais velhos estão só agora entrando na fase adulta. Não há maneira de saber o que vai acontecer a eles quando tiverem 40, 50 ou 60 anos.

"Tudo o que podemos afirmar é que, neste momento, não parece haver nenhum efeito colateral", afirma Kaplan. Quanto aos adultos, existe a hipótese de que a diminuição do hormônio do crescimento com a idade acabe, de fato, protegendo as pessoas contra os cânceres vinculados ao envelhecimento, tais como o câncer da próstata e da mama. Talvez, ao reduzir as doses do hormônio do crescimento, o corpo esteja trabalhando para diminuir o nível de crescimento desses cânceres, teoriza Mark Blackman, especialista em neuroendocrinologia e em envelhecimento.

Blackman diz que os pesquisadores não têm certeza quanto a isso, mas que é algo no qual estão pensando. Danilo Fonseca

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