Avanços na tecnologia automobilística geram problemas caros e sofisticados

Jayne O'Donnell

Um vendedor da Califórnia diz que, em meados deste ano, o seu BMW Série 7 tinha apenas algumas semanas de uso quando parou de funcionar. Quando ele acelerou até o limite de velocidade em uma auto-estrada, um dia após uma revisão rotineira, o aparelho de som começou a cuspir CDs sobre o passageiro e o motor passou a engasgar, até apagar completamente, obrigando-o a parar o carro no acostamento.

O problema foi que os computadores que controlavam os sistemas eletrônicos de última geração do automóvel de US$ 80 mil estavam cheios de erros de programação. O dono do carro, cujo nome não pode ser revelado porque a BMW insistiu em que ele assinasse uma declaração de sigilo quando lhe devolveu o dinheiro e pegou o veículo de volta, não foi o único a passar por esse tipo de problema. Graças aos mais recentes aparelhos eletrônicos, os carros são capazes de dizer ao dono qual é a pressão em cada pneu, exibir dados da bolsa de valores ou indicar o caminho até o restaurante italiano mais próximo. Mas os complexos sistemas de computação exigidos para todas essas tarefas apresentaram defeitos em centenas, ou talvez milhares, de veículos de luxo, causando muito transtorno aos seus donos.

"Consumidores relataram panes eletrônicas totais atribuídas aos sistemas da Série 7", conta Donald Buffamanti, criador da AutoSpies.com, que se apresenta como "o guia definitivo para os melhores automóveis do mundo". Buffamanti acrescenta: "Especialistas em manutenção com décadas de experiência são enviados de avião até as revendedoras para examinar os defeitos e, às vezes, nem mesmo eles são capazes de determinar o que ocorreu". Os problemas aparecem nos carros mais modernos porque são eles os primeiros a receber as parafernálias mais sofisticadas. E isso irrita ainda mais os proprietários, que investiram tanto em seus veículos. Entre as reclamações sobre automóveis BMW da Série 7 e Mercedes-Benz das classes E e S estão incluídas as quedas das ligações feitas com os telefones dos veículos, os assentos que são ajustados automaticamente sem aviso quando os veículos estão em movimento e o "apagamento" dos motores nas auto-estradas, em alta velocidade.

Os computadores associados a equipamentos sofisticados e os itens de segurança de uso obrigatório se transformam cada vez mais em alvos das reclamações dos consumidores. Os equipamentos eletrônicos foram o motivo de 14% das reclamações feitas no ano passado pelos donos de carros novos, um aumento de 8% em relação a 1987, segundo a firma de consultoria J.D. Power and Associates. Fernando Castro diz que o Mercedes Sedan E 500 fabricado neste ano e comprado por ele em janeiro em uma concessionária da Flórida já voltou ao estabelecimento pelo menos 12 vezes devido a problemas eletrônicos, incluindo defeitos no telefone e no marcador de combustível. Este último problema fez com que ele ficasse parado na estrada por falta de gasolina. Advertências do monitor de pressão dos pneus fizeram com que ele passasse constantemente no departamento de manutenção da concessionária para verificar se havia algum problema. "Por que ter um computador que identifica os problemas, se estes não podem ser solucionados?", critica.

Buffamanti diz que ouviu pelo menos 500 proprietários de automóveis da Série 7, fabricados em 2002, e cerca de 200 de Mercedes, fabricados em 2001, que dizem que as concessionárias receberam o carro de volta e lhes devolveram o dinheiro após terem reclamado de problemas com o equipamento eletrônico. Ambas as companhias pediram aos consumidores que assinassem compromissos de sigilo, de forma que as várias pessoas que falaram sobre as suas experiências ao USA TODAY não puderam ter os seus nomes revelados.

A BMW diz que resolveu a maior parte dos problemas com a Série 7.

"Houve alguns problemas iniciais com a nova geração de equipamentos eletrônicos, especialmente com o IDrive, mas as vendas e as pesquisas demonstram que o carro está atendendo e excedendo as expectativas", afirma o porta-voz da BMW, Gordon Keil. "Há um período normal de um ou dois anos de transtornos devido a essas tecnologias inteiramente novas". O IDrive é o sistema de computador da BMW, responsável pela navegação, pelo telefone e pelo equipamento de som.

A Mercedes diz que aumentou em 50% os testes dos seus produtos e que resolveu a maior parte dos problemas com o sistema conhecido como Comand, que apresentava defeitos persistentes.

"A qualidade é parte importante da nossa herança; é um dos nossos valores centrais", afirma Stephan Wolfsried, diretor de equipamentos eletrônicos e de chassis do Grupo de Automóveis Mercedes. "É por isso que estamos procurando obstinadamente resolver tanto os problemas reais quanto os aparentes".

Na verdade, a qualidade dos carros nunca esteve tão boa, mas estudos conduzidos pela J.D. Power revelaram que as reclamações quanto aos acessórios eletrônicos impediram que os fabricantes atingissem índices mais elevados de qualidade. Os problemas eletrônicos, por exemplo, estão obscurecendo os ganhos advindos de motores de melhor qualidade.

Mas os proprietários de carros de luxo não são os únicos afetados por computadores imprevisíveis. Luzes de advertência estão piscando, muitas vezes desnecessariamente, nos painéis de todos os modelos vendidos nos Estados Unidos. Até mesmo modelos básicos possuem computadores que controlam a maior parte das suas funções.

"As luzes de advertência de problemas com o motor se acendem facilmente, e muitas vezes só podem ser consertadas por uma concessionária, caso não haja realmente nada de errado com a máquina", afirma Dave Hurt, presidente da Certified Car Care, uma empresa que vende garantias de maior duração contra defeitos. "O diagnóstico dos problemas é bem mais complicado nos dias de hoje devido à quantidade de equipamento eletrônicos presentes nos automóveis".

John Nielsen, um dos diretores da Associação Americana de Automóveis (AAA), diz que não está surpreso com o fato de surgirem tantos defeitos e de alguns dos problemas serem difíceis de solucionar. O novo Audi A8L, por exemplo, possui 36 computadores e 1.600 códigos de detecção de problemas. "Esse tipo de veículo faz com o ônibus espacial pareça antiquado". Danilo Fonseca

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