Alguém será capaz de deter Dean?

Susan Page
DE WASHINGTON

A confirmação do apoio de Al Gore a Howard Dean, na última terça-feira, fez com que ninguém mais duvidasse de que o ex-governador de Vermont é o político com maiores chances de vencer as eleições primárias para candidato à presidência pelo Partido Democrata.

Mas o apoio do ex-vice-presidente não tranqüilizou alguns democratas veteranos. Eles acreditam que o presidente Bush seja vulnerável - mas, provavelmente, não a um candidato como Dean, cuja retórica é acalorada e que carece de experiência na área de segurança nacional.

Para eles, a pergunta é: agora alguém será capaz de deter Dean?

"Há muita gente torcendo nervosamente as mãos e conversando entre si", diz Patrick Griffin, assessor graduado da Casa Branca durante o governo Clinton. Ele sabe que há nervosismo entre os membros do Congresso, que temem que a candidatura Dean possa prejudicar as suas perspectivas de reeleição.

"Ainda há muitas dúvidas quanto à possibilidade de Dean vencer em novembro", afirma Dick Harpootlian, ex-presidente do Partido Democrata na Carolina do Sul. Ele afirma que está preocupado com o fato de as posições liberais de Dean "não serem compatíveis com a grande maioria do eleitorado sulista".

A ira de alguns democratas famosos foi dirigida não só a Dean, mas também a Gore - devido aos seus julgamentos, motivos e modos. Ele não avisou sequer ao seu companheiro de chapa de 2000, o senador por Connecticut, Joe Lieberman, que iria apoiar um outro candidato. "Esse foi realmente um golpe baixo", criticou o estrategista político veterano Paul Begala.

Vários democratas famosos, alguns vinculados a campanhas rivais, opinaram - com a condição de que os seus nomes não fossem revelados - que Gore estaria procurando se posicionar como um cabo eleitoral, de olho nas eleições de 2008.

Porém, ansiosos ou não, os dirigentes dos partidos não controlam o processo de escolha dos candidatos democratas à presidência desde que as regras eleitorais mudaram nos anos 60.

Caso seja o escolhido, Dean será o candidato presidencial encarado com maior suspeita pela estrutura do seu partido desde Jimmy Carter, em 1976. O ex-governador da Geórgia venceu a convenção partidária do Estado de Iowa, e a seguir sobreviveu às sabotagens dos democratas que tentaram sem sucesso fazer com que o ex-vice-presidente Hubert Humphrey vencesse as eleições primárias.

"O atual processo está em aberto", explica Leon Panetta, chefe de gabinete da Casa Branca no governo passado, e que expressou dúvidas quanto às chances de Dean ser eleito. "Os últimos acontecimentos transformaram o processo em algo como um jogo de dados".

Dean é o que possui mais verbas, o que faz os comícios mais animados e o que está na frente, segundo pesquisas recentes em Iowa e New Hampshire, onde serão disputadas as primeiras eleições primárias. Mas os analistas afirmam que um outro candidato pode vencer a disputa.

As condições fundamentais para que isso aconteça são:

  • Um grande erro. Dean enfrenta agora o escrutínio dos principais candidatos, sendo foco das atenções dos jornalistas, dos rivais e dos republicanos. Nas últimas semanas, lhe indagaram publicamente como evitou o serviço militar durante a Guerra do Vietnã e por que ocultou da população durante dez anos documentos da época em que foi governador.

  • O julgamento do eleitor. "Caso ele perca em Iowa ou não tenha um desempenho tão vigoroso quanto se espera em New Hampshire, serão levantadas questões que darão certo impulso aos outros candidatos", afirma Panetta.

    Essa é a estratégia dos outros concorrentes. O senador John Edwards, da Carolina do Norte, gostaria de ter um desempenho surpreendentemente bom em Iowa, no dia 19 de janeiro e, depois, vencer a eleição primária na Carolina do Sul, em 3 de fevereiro. O general reformado Wesley Clark também espera vencer algumas das disputas de 3 de fevereiro. E Lieberman também.

  • Uma iniciativa de um dos Clinton. Um fato ainda mais significativo que a declaração de Gore seria o apoio declarado do ex-presidente Clinton. E, nas pesquisas de âmbito nacional, Dean fica em um distante segundo lugar em relação á senadora Hillary Clinton, de Nova York. Mas a senadora Clinton garante que não vai disputar as eleições, pelo menos desta vez, e Bill Clinton afirmou que não vai apoiar oficialmente ninguém durante as eleições primárias.

    Mesmo assim, quando foi anunciado, na segunda-feira à tarde, que Gore apoiara Dean, Lieberman e Clark chamaram o ex-presidente para uma conversa. Houve uma enxurrada de telefonemas entre os veteranos das campanhas, líderes estaduais e financiadores de candidatos.

    Donna Brazile, que administrou a campanha de Gore em 2000, descreve o que está ocorrendo como "uma histeria por parte da cúpula do partido". Ela acha que aqueles que colocam em dúvida a capacidade de Dean para ser eleito perderam o contato com os militantes do Partido Democrata no interior do país.

    Mas o maior obstáculo atual para Dean pode ser a tarefa de neutralizar as preocupações quanto à sua competência para vencer Bush. O candidato afirma que o apoio de Gore ajuda. "Éramos tidos como a campanha insurgente, e somos a campanha insurgente. Mas a verdade é que, a menos que unamos todo o Partido Democrata, não vamos vencer esta campanha contra George Bush. E hoje demos um grande passo rumo a esse objetivo".

    Um passo, talvez, mas não um passo final.

    "Isso não vai impedir que os militantes se perguntem se serão capazes de conquistar um número suficiente de eleitores indecisos em uma quantidade necessária de Estados irresolutos, de forma que seja possível fechar um pacto contra Bush", opina John Podesta, ex-assessor graduado de Clinton, que atualmente lidera o Centro para o Progresso Americano, uma instituição de tendências liberais. "Essa é a única dúvida real que restou com relação a Dean". Danilo Fonseca
  • UOL Cursos Online

    Todos os cursos