Os bons tempos voltaram, mas todo cuidado é pouco

Editorial

Lembranças desaparecem com o tempo. As lembranças de mercados em queda, mais ainda. Chegou a hora de comemorar: o mercado de alta está de volta.

Um minuto! A recuperação da economia pode ter dado o ar de sua graça, mesmo para Japão e União Européia. Os mercados de títulos sofreram um pequeno revés. Mas o passado imediato é um péssimo guia para movimentos futuros do mercado. Os investidores deveriam pensar duas vezes antes de embarcar no trem do otimismo econômico deste novo século.

Tomemos o exemplo dos mercados em ascensão. Os lucros crescem velozmente nos Estados Unidos e em outros países. Todas as grandes economias voltaram a crescer: o crescimento anualizado da economia americana chegou a 8,2% no terceiro trimestre, o que representa a melhor marca dos últimos vinte anos; o Japão e a União Européia alcançaram, respectivamente, crescimentos anualizados de 1,4% e 1,5%; e a economia britânica expandia a um ritmo mais veloz do que sua média anualizada de 3,1%. Não há mais o temor de uma deflação global, e as previsões para o crescimento da economia global são positivas para os próximos dois anos.

A recuperação dos mercados globais de ações foi tão consistente que eles provavelmente registrarão um crescimento anual pela primeira vez em quatro anos. As baixas registradas antes do início da guerra no Iraque hoje pertencem a um passado distante. Desde o início de 2003 o índice Standard & Poor's 500 subiu mais de 20%; o britânico FTSE 100 subiu 10%, e o japonês Nikkei cresceu mais de 15%; ações da zona do euro, por sua vez, cresceram mais de 12%. Apesar de tudo, os mercados permanecem razoavelmente distantes do pico de 2000.

Embora não seja possível refutar tais fatos, nenhum deles oferece uma justificativa adequada para o atual patamar dos preços de ações. É certo que continuam a valer praticamente todos as razões que, em 2000, recomendavam a cautela. Em comparação com os títulos, as ações parecem relativamente baratas. No entanto, não há nenhum nexo automático entre ambos. Afinal de contas, os títulos oferecem retornos nominais enquanto as ações oferecem retornos reais. Se a baixa inflação persistir, a arrecadação de corporações dificilmente crescerá a um passo acelerado, e portanto o retorno das as ações dificilmente serão melhores do que os retornos de títulos.

O salto de rentabilidade da economia americana não foi impulsionado pelo crescimento de arrecadação, mas sim pela redução de custos. A ela deve-se acrescentar efeitos esporádicos da queda do dólar, que favorecem as exportações. Hoje há poucas razões para crer que a parcela de lucros no Produto Interno Bruto americano possa crescer de forma continuada, tal como ocorreu no final da década de 1990.

É igualmente perturbador notar que a recuperação da economia, impulsionada pelo consumo americano, tenha acontecido no momento em que foi adotada uma política fiscal e monetária extremamente flexível. O ajuste a desequilíbrios nascidos no final da década passada ainda não foi feito. Mas um dia ele virá. Se o atual déficit americano de conta corrente for reduzido pela queda de importações e não pelo crescimento das exportações, como tudo parece indicar, as perspectivas para o crescimento mundial e para os mercados de ações serão ainda menos otimistas.

Aproveite a recuperação enquanto ela durar. Mas não espere que ela tenha uma vida longa. André Medina Carone

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