Os "Quatro Cavaleiros da Internet" vislumbram tempos difíceis

Matt Krantz

Antes da explosão da bolha pontocom, havia quatro companhias que, segundo Wall Street, seriam incapazes de errar: Cisco, EMC, Sun Microsystems e Oracle.

Relatórios de sucesso, produtos reais e lucros ascendentes fizeram com que fossem apelidadas de "Os Quatro Cavaleiros da Internet".

Mas últimos três anos foram difíceis para elas. As encomendas escassearam porque os clientes das grandes corporações deixaram de adquirir seus produtos. Os rendimentos despencaram e, no caso da Sun, desapareceram.

A situação parece melhorar, já que várias companhias estão recomeçando a gastar e as ações de tecnologia lideram a recuperação do mercado. Mas as quatro empresas têm pela frente a sua mais difícil tarefa: reassegurar o domínio no futuro ainda incerto do setor de tecnologia.

Mas o histórico de outras companhias do setor não lhes é favorável. Poucas foram as grandes empresas de tecnologia capazes de recuperar a glória perdida após terem enfrentado adversidades radicais.

"A nossa aposta é que a maior parte das estrelas da tecnologia de 1997 a 1999 não fará parte do grupo das indústrias famosas de 2004 a 2006", opina o gerente financeiro Donald Straszheim, diretor da Straszheim Global Advisors, empresa de consultoria especializada na análise das economias e mercados financeiros internacionais.

Eis o que ocorreu com os "Quatro Cavaleiros" e o que essas empresas estão fazendo - e precisam fazer - para permanecer na linha de frente do setor tecnológico:

- EMC. Quando a crise do setor de tecnologia finalmente se abateu sobre a EMC, líder mundial em sistemas de armazenagem de informações, o impacto foi violento. Os lucros e rendimentos subiam em disparada até, sofrerem um discreto declínio no segundo trimestre de 2001. A seguir, sem nenhum aviso, eles despencaram quase 50% no terceiro trimestre daquele ano.

O diretor-executivo da empresa, Joe Tucci, ainda se recorda do seu choque ao presenciar a queda e de como tentou reagir à situação. A partir do terceiro trimestre de 2001, ele passou a reduzir rapidamente os gastos. A EMC demitiu 7.000 empregados - cerca de um terço da sua força de trabalho -, além de reduzir os custos com viagens e cancelar onerosos contratos de aluguel de escritórios. Até o último trimestre a EMC reduziu as suas despesas gerais em cerca de US$ 1,4 bilhão anuais.

A seguir, Tucci deu uma mexida na sua equipe gerencial, contratando especialistas veteranos do setor. No que talvez tenha sido a maior iniciativa após a queda nos negócios, a EMC passou a vender equipamentos de armazenagem de dados de computadores que chegam a custar apenas US$ 9.000. Foi quando, de repente, empresas pequenas e médias, que mantinham distância dos equipamentos da EMC, que custavam em média US$ 250 mil, passaram a poder comprar os produtos da companhia.

A estratégia parece estar funcionando. No terceiro trimestre, a EMC registrou um aumento dos lucros da ordem de 648 % e uma elevação de 20% nos rendimentos - o que se constitui de longe na mais significativa recuperação registrada entre os "Quatro Cavaleiros" em relação ao mesmo período do ano passado.

- Oracle. A companhia de programas de bases de dados foi, das quatro, a menos afetada pela explosão da bolha pontocom. Mas isso se deveu muito mais ao momento em que a crise chegou do que à habilidade da empresa em lidar com o problema. Um pouco antes da explosão da bolha, o diretor-executivo Larry Ellison declarou que a Oracle economizaria US$ 1 bilhão por ano se usasse os seus próprios programas.

Embora a medida tenha sido encarada à época como jogada publicitária para atrair clientes, ela foi, na verdade, um colete salva-vidas quando a crise se abateu. Graças à economia feita com o uso do seu próprio software, a Oracle conseguiu faturar 30 centavos para cada dólar obtido com as vendas, após descontar as despesas, o que fez dela a mais rentável das quatro empresas. Além disso, os rendimentos da Oracle não caíram muito, já que muitos clientes pagam à empresa todos os anos, tanto nos tempos bons quanto nos ruins, por serviços de manutenção e suporte técnico.

Mas, ainda assim, a Oracle está precisando novamente de um aumento dos rendimentos. Isso significa persuadir as companhias que compram os seus programas de bancos de dados a adquirirem os outros produtos da empresa para gerenciamento de tarefas de apoio, como contabilidade e administração de vendas, explica Kevin Lands, gerente de investimentos do Firsthand Funds. Segundo ele, até o momento, a companhia não teve muito sucesso com tal estratégia.

Apesar disso, o diretor de finanças Jeff Henley garante que a Oracle investiu pesadamente em seus softwares durante a crise e que possui produtos prontos para serem utilizados tão logo as empresas voltem a investir em tecnologia.

- Cisco. Em março de 2000, a fornecedora de tecnologia de redes de computadores se tornou a mais valiosa companhia do mundo, avaliada em US$ 555 bilhões, ultrapassando a Microsoft (US$ 542 bilhões). Esse foi considerado um momento crucial, já que demonstrou que as tecnologias de redes superaram os softwares como componente mais importante da área de computação.

Mas a comemoração da Cisco não durou muito tempo. Em 2001, o seu valor de mercado caiu mais de 60% e os rendimentos encolheram em um terço. Perturbado por ter que despedir funcionários, o diretor-executivo John Chambers reduziu o seu salário de US$ 250 mil anuais para apenas um dólar.

A empresa se mobilizou rapidamente para voltar à forma. Primeiro, fez com que o seu departamento de pesquisas e desenvolvimento passasse a trabalhar naqueles projetos com maior potencial de retorno financeiro. Por exemplo, a Cisco engavetou metade dos projetos em andamento no setor emergente de ligações telefônicas via Internet. Apesar desses cortes, as entregas de equipamentos de telefonia por Internet aumentaram 65% entre o segundo e o terceiro trimestres deste ano.

"A Cisco fez tudo o que estava ao seu alcance para cortar o supérfluo", afirma Landis.

- Sun. Se existe uma companhia que pouca gente acredita ter chances no momento, o nome dela é Sun. Ela ainda está perdendo dinheiro - teve um prejuízo de US$ 286 milhões no último trimestre. A Sun afirma que as suas reservas de US$ 2,5 bilhões e a estabilidade dos seus produtos vão permitir que sobreviva às adversidades.

Mas muitos especialistas dizem que os problemas da Sun são mais profundos. O seu domínio nas vendas de servidores de ponta está ameaçado pelo poder crescente de máquinas mais baratas, fabricadas por empresas como a Dell. E ela continua a dispersar os seus recursos com o desenvolvimento de tecnologias tão variadas quanto microprocessadores e sistemas operacionais, enquanto as suas rivais se concentram em apenas um setor tecnológico.

"A Cisco foi chacoalhada, mas jamais caiu do cavalo. A EMC caiu e voltou à sela. A Oracle tenta montar novamente", diz Steve Milunovich, estrategista de tecnologia da Merrill Lynch. "Mas a Sun caiu e foi pisoteada".

Demorará anos até que se saiba quais dentre as quatro possuem os ingredientes necessários para superar as adversidades e recuperar a antiga glória. Mas alguns investidores já estão descartando os "Quatro Cavaleiros", alegando que o futuro está em pequenas empresas de tecnologia das quais poucos, talvez, já tenham ouvido falar. "Há várias companhias posicionadas no local certo", garante Jordan Kimmel, estrategista de mercado da Brookstreet Securities. "Mas elas não são da velha guarda". Danilo Fonseca

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