Trabalhadores americanos sentem a pressão das longas jornadas de trabalho sem lazer

Stephanie Armour

Um movimento contrário à epidemia de trabalho nos Estados Unidos está em andamento.

Um número maior de empregados está resistindo às demandas das companhias por jornadas de trabalho mais longas; o chamado "ritmo 24/7" (24 horas por dia, sete dias por semana), que significa que as operações nunca cessam, e a troca do lazer pelo trabalho devido a novas tecnologias, como os telefones celulares e o e-mail.

"Tem gente adicionando entre 40 e 50 horas de trabalho por semana, e não há tempo para mais nada", diz Gretchen Burger, de Seattle, organizador do Take Back Your Time, um movimento de base dedicado ao problema do excesso de trabalho. "Há uma alternativa".

Alguns trabalhadores que não querem a trabalhar mais horas sem receber pagamentos adicionais estão processando as suas companhias, alegando que estas estão violando as leis que regem as horas extras. No ano fiscal de 2003, o Departamento do Trabalho coletou US$ 212 milhões em salários que deixaram de ser pagos, incluindo aqueles relativos às horas extras. Foi um aumento de 21% em relação à quantia recorde coletada em 2002.

Alguns economistas também acreditam que vários ganhos de produtividade registrados nos anos 90 podem ser atribuídos às longas jornadas de trabalho, e não à eficiência das novas tecnologias.

Pela primeira vez, as indústrias conhecidas por seus exigentes horários de trabalho estão recuando. Agora, novas diretrizes limitam o número de horas que os médicos residentes podem trabalhar. E, a partir de 4 de janeiro, regulamentações federais exigirão que vários motoristas de caminhão reservem para si mais períodos de descanso.

Alguns trabalhadores sobrecarregados também estão reagindo, procurando empregos menos exigentes, abandonando as corporações, e abrindo as suas próprias empresas, o que lhes proporciona a oportunidade de exercer mais controle sobre as suas vidas funcionais. Outros estão trabalhando menos, para passarem mais tempo com as famílias.

Há cerca de seis anos, Steven Rothberg e sua mulher, Faith, decidiram promover uma mudança em suas vidas. Eles se sentaram, fizeram os cálculos e tomaram a decisão: Steve reduziu a sua jornada de trabalho, que às vezes chegava a 80 horas semanais, para cerca de 50 horas. Ele também reduziu o tamanho do seu negócio, diminuindo a produção e o tamanho da sua folha de empregados.

Faith, 40, que trabalhava com serviços de informação em um banco, optou por ficar em casa com as crianças.

"Minha mulher e eu decidimos que precisávamos reduzir as horas de trabalho e simplificar as nossas vidas", afirma Rothberg, 37, que gerencia em Minneapolis o site de empregos on-line CollegeRecruiter.com. Ele tem dois filhos, de nove e sete anos, e uma filha de quatro. "O resultado das mudanças? Começamos a amar novamente as nossas vidas e dois anos depois decidimos ter outro bebê. A filha caçula só nasceu devido à decisão que tomamos para equilibrar as nossas vidas".

Trabalhando até o limite
Mas essas são as exceções. Os norte-americanos trabalharam em média 1.815 horas em 2002. Nas grandes economias européias, a jornada anual de trabalho variou entre 1.300 e 1.800 horas, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Norte-americanos e japoneses têm jornadas de trabalho similares.

As jornadas de trabalho combinadas dos casais com filhos aumentaram em dez horas semanais, passando de 81 horas em 1977 para 91 horas em 2002, segundo um novo estudo divulgado pelo Instituto do Trabalho e da Família, com sede em Nova York.

Os trabalhadores sentem a pressão. Várias pesquisas indicam que há desvantagens reais em se trabalhar excessivamente, desde problemas mentais até males físicos e lesões profissionais causados pela fadiga e pelo estresse. Trata-se também de um problema para os empregadores: um estudo feito pelo Instituto de Políticas Econômicas revelou que as longas jornadas de trabalho obrigatórias custam às companhias até US$ 300 bilhões anualmente, devido a problemas relacionados ao estresse e à fadiga.

Cody Mooneyhan, 31, sabe bem o que é isso. Ele trabalha até 14 horas por dia, acordando às 4h30 e chegando em casa às 21h30 para cumprir as exigências impostas pelos dois empregos: o de escritor da Vanguard Communications e jornalista auxiliar do "American Journal of Pathology". A sua mulher, Renie, 31, trabalha várias noites por semana como assistente social. Os seus patrões não exigem longas jornadas de trabalho, mas Mooneyhan sente que precisa trabalhar em dois empregos para sustentar os três filhos: Sarah, 1; Zoe, 3; e Zack, 7.

Ele diz que trabalha para manter um estilo de vida de classe média, e não para ter acesso a artigos de luxo. Mooneyhan mora em uma residência urbana de três quartos, possui um computador comprado há sete anos, um Toyota Tercel e um uma minivan.

"O fato de estar cansado torna tudo bem mais estressante, mas é como ter um bebê. A gente se acostuma. É um pouco triste. As crianças às vezes perguntam, 'Qual o problema com o papai? Ele ainda mora aqui?'. Fico pensando que isso ainda vai me matar".

Ganhos na produção devido às jornadas de trabalho mais longas
Alguns duvidam que os esforços para diminuir o número de horas trabalhadas farão com que os Estados Unidos adotem uma abordagem mais voltada para o lazer, como na Europa, onde as mulheres suecas contam com 96 semanas de licença maternidade e os trabalhadores franceses desfrutam de cinco semanas de férias por ano.

"Boa sorte", diz Stephen Roach, economista do Morgan Stanley em Nova York. Ele acredita que grande parte da produtividade acelerada nos Estados Unidos em meados dos anos 90 se deveu às jornadas de trabalho mais longas.

Um relatório da Organização Internacional do Trabalho divulgado em setembro revelou que a produtividade dos Estados Unidos aumentou em 2002, superando a da Europa e a do Japão, em termos de produção anual por trabalhador, pelo primeiro período significante desde a Segunda Guerra Mundial. O relatório demonstrou que a diferença se devia às longas jornadas de trabalho dos norte-americanos.

Mas grande parte desse crescimento não é registrada nos dados do governo que medem as horas trabalhadas, explica Roach.

"Essa é uma atividade realizada fora do local de trabalho", afirma. "Tem gente trabalhando em aviões, carros e em casa".

Os dados do governo não levam em conta as tarefas fora do emprego, como os bicos de fim de semana, ou as horas extras que muitos funcionários assalariados fazem com laptops, telefones celulares e e-mail. Eles não registram o aumento médio das horas trabalhadas pelas famílias.

Mas os dados revelaram um crescimento recente na semana média de trabalho para trabalhadores das áreas de produção e que não envolvem supervisão, à medida que a economia dos Estados Unidos recupera o fôlego.

Uma das causas para o aumento da jornada de trabalho é a adoção de novas tecnologias, que fazem com que seja mais fácil trabalhar fora do escritório. Outra causa é a vagarosidade da economia, que levou as companhias a demitir empregados, fazendo com que houvesse um número menor de trabalhadores para dar conta do mesmo trabalho.

Até mesmo as férias estão sendo descartadas: os trabalhadores estão recebendo das companhias mais de US$ 21 bilhões anuais em férias não utilizadas, segundo um estudo realizado pela Expedia.com.

Andy Lefkowitz, 47, tirou pelo menos um mês de férias quando trabalhava como advogado do mercado de ações. Agora, ele é presidente da Ganeden Biotech, em Cleveland. Lefkowitz diz que, como patrão, tem muita sorte quando consegue duas semanas semanais de férias.

"As horas trabalhadas são também mais intensas", conta Lefkowitz, pai de três filhos, que trabalha cerca de dez horas por dia e também durante algumas noites, após as crianças dormirem. "As informações chegam até você de tantas direções diferentes... Não tiro férias. Talvez um dia aqui e ali". Danilo Fonseca

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