Diversidade implode a idéia tradicional de família

Karen S. Peterson

A família norte-americana está em apuros, ou simplesmente evoluindo? E, afinal, o que significa ser uma família? Este foi o ano de alguns acontecimentos dramáticos que vão continuar influenciando a formação das famílias em 2004. Vamos ver agora quais são os maiores impasses para a idéia que fazemos de família e, por extensão, de nós mesmos.

Casamento gay

Esta talvez seja a questão mais controversa envolvendo as guerras culturais quanto ao futuro da família norte-americana. Ela inflama tanto conservadores como liberais; vários membros de ambos os lados se definem como defensores da família. É de se esperar que o debate demande um lugar central na pauta de discussões em 2004.

O assunto virou foco das preocupações nacionais em junho deste ano, com a decisão da Suprema Corte de, realmente, legalizar o sexo gay. O barulho do debate atingiu vários decibéis quando o tribunal de mais alta instância do Estado de Massachusetts determinou, em novembro último, que casais do mesmo sexo têm o direito a casamentos legais.

No centro do conflito está o conceito, sempre em evolução, de "família". Alguns temem que a unidade familiar tradicional esteja sendo erodida, enquanto outros defendem as novas formas de família como um reflexo da crescente diversidade no país.

"Ninguém pode alegar ser pró-família e, ao mesmo tempo, apoiar a discriminação fundamental contra os casais gays e seus filhos", afirma Joan Garry, da Glaad (sigla em inglês para Aliança de Gays e Lésbicas contra a Discriminação). Segundo ela, as decisões da Suprema Corte e do tribunal de Massachusetts "deixam claro para todo mundo que a palavra 'família' não pertence a uns poucos, mas a todos nós".

"Mas a redefinição do casamento, de forma a incluir casais do mesmo sexo, indica que a sociedade acredita que a união tradicional de homem e mulher não importa mais", diz Glenn Stanton, da organização Foco na Família. "Não é possível promover alterações fundamentais na família sem que isso tenha uma conseqüência. As mudanças reduzem significativamente o bem-estar de crianças e adultos". Para ele, o melhor cenário é aquele no qual as crianças são criadas por um pai e uma mãe casados.

"Esse tópico é uma grande questão relativa às nossas vidas, que vai permanecer conosco nos próximos dez anos", acrescenta Stanton. Muitos especialistas acreditam que ela vai acabar rivalizando em importância com a constante polêmica a respeito do aborto.

Governo e Casamento

Por todos os Estados Unidos, várias instâncias governamentais tentam fortalecer o casamento e reduzir os índices de divórcio, que ainda está ligeiramente abaixo de 50%. Alguns governos estaduais estão considerando a idéia de tornar o divórcio mais difícil, e certas jurisdições municipais exigem que os casais se submetam a aconselhamento profissional sobre o matrimônio antes de obterem licenças para se casar.

Um dos planos mais comentados deve retomar o ímpeto na próxima sessão do Congresso dos Estados Unidos: as propostas do presidente Bush para o fornecimento de novas verbas destinadas a promover programas pró-casamento. Os que apóiam a medida alegam que tais iniciativas fortaleceriam os casamentos, em parte por meio do ensinamento de táticas de relacionamento aos casais.

Já os críticos afirmam que o casamento não é assunto do governo, e que o dinheiro seria mais bem empregado em programas como, por exemplo, o de criação de mais creches para as mães de baixa renda.

Padrões de Adoção

O primeiro perfil de crianças adotadas traçado pelo Departamento do Censo, e divulgado em agosto deste ano, revela que há 1,6 milhão de crianças adotadas com menos de 18 anos vivendo em lares dos Estados Unidos. O fato de o departamento estar atualmente fazendo perguntas sobre adoções é algo quase tão importante quanto os dados obtidos, afirmam os especialistas. O relatório reforça o conceito de adoção como caminho para paternidade e maternidade.

São cada vez mais adotadas as crianças mais velhas que vieram do sistema de amparo aos órfãos. Embora 87% daqueles com menos de 18 anos tenham nascido nos Estados Unidos, o número de adotados nascidos no exterior também está aumentando.

Segundo Adam Pertman, do Instituto de Adoção Evan B. Donaldson, ambas as tendências, que continuarão em ascensão em 2004, estão contribuindo para uma mudança de percepção quanto à família norte-americana.

"Continuaremos a ver crianças adotadas que não se parecem com seus pais, que poderão ser de outra raça ou etnia", explica. "Estamos mudando de forma profunda a face da família norte-americana".

Novos namoros

A Internet está alterando a forma de descobrir parceiros, já que solteiros ocupados buscam maneiras rápidas e eficientes de encontrar um romance. Também em voga está a "paquera relâmpago", que permite aos que procuram um parceiro ou parceira encontrar alguém que valha a pena em uma busca de três a oito minutos.

E alguns profissionais que ajudam os que estão à busca de parceiros são como os tradicionais "cupidos" dos serviços de casamento, com a diferença de que fornecem serviços sofisticados, como consulta a bancos de imagens.

É de se esperar mais desenvolvimentos nessa área, mas eles não significam necessariamente que a vida de Cupido ficou mais fácil. Os velhos códigos de paquera não mais se aplicam, e pouca coisa nova surgiu para substituí-los. As mulheres jovens de hoje, em particular, estão "descontentes com suas vidas amorosas", e "o desapontamento romântico emergiu como um tema de geração", explica a historiadora social Barbara Dafoe Whitehead. Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos