Setor alimentício dos EUA calcula o prejuízo com a vaca louca

Sue Kirchhoff e Bárbara Hagenbaugh
EM WASINGTON

Fazendeiros, restaurantes e varejistas estão trabalhando freneticamente para conter as conseqüências do primeiro caso do mal da vaca louca nos EUA. Enquanto isso, parceiros comerciais fecham seus mercados à carne americana, e preços de ações e da arroba caem. Economistas acreditam que o dano à economia em geral será limitado. Mas prevêem choques na indústria da carne.

O surto ocorreu em um momento de alta histórica de preços, com a oferta limitada e a demanda crescente, alimentadas pela popularidade da dieta de Atkins, de baixo teor de carboidratos. Apesar da indústria estar mais bem posicionada para agüentar um grande golpe neste momento, a situação ainda é incerta para muitos.

O recente aumento dos preços seguiu anos de seca e de retorno reduzido. "Eu diria que isso poderá custar à indústria até US$ 5 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões)", nos próximos meses, diz Brian Wesbury, economista da Griffin Kubik Stephens and Thompson, firma de investimento bancário de Chicago. Fora das indústrias da carne e de restaurantes, o impacto será desprezível, disse ele.

Em 2003, a receita americana de produtos bovinos deve atingir US$ 98,3 bilhões (em torno de R$ 294,9 bilhões), quase metade da previsão de US$ 202 bilhões (aproximadamente R$ 606 bilhões). A receita de gado bovino representa menos de 1% da atividade econômica dos EUA, que no ano passado foi de US$ 10,5 trilhões (em torno de R$ 31,5 trilhões).

Mesmo assim, vai ser preciso um tempo para reconquistar os mercados externos, que compram cerca de 10% da carne americana. Japão, México, Coréia do Sul, Austrália e outras nações já disseram que vão parar de aceitar a carne americana.

As exportações de carne atingiram cerca de US$ 3,2 bilhões (aproximadamente R$ 9,6 bilhões) em 2002. Esperava-se que excederiam esse número em 2003, de acordo com a Federação Americana de Exportação de Carne.

"Muitos países estão fechando suas fronteiras rapidamente", diz Lynn Heinze, porta-voz da federação. O grupo logo ressaltou que a planta onde ocorreu a suspeita de mal da vaca louca não exporta carne e sugeriu que alguns países reagiram rápido demais.Heinze, que deveria estar de férias nesta semana, e seus colegas em diferentes países estão se reunindo com autoridades e clientes para tentar manter as linhas de fornecimento abertas.

No entanto, não há garantias que o consumidor americano continuará comendo carne, especialmente se surgirem mais casos da doença. A incerteza sobre o que virá depois já está causando um impacto:

  • O Standard & Poor's advertiu, na quarta-feira (24/12), que poderá cortar a classificação da dívida de grandes empacotadoras e processadoras de carne, como Tyson Foods, que em 2001 comprou uma importante processadora de carne bovina, a IBP. O preço da carne caiu até o limite máximo, na noite de Natal, na Bolsa de Valores Mercantil de Chicago. O mesmo deve se repetir quando os mercados reabrirem hoje, por curto período. Os preços das ações de importantes cadeias de restaurantes caíram na quarta-feira.

  • Giant Foods planeja pendurar avisos em suas lojas para assegurar os clientes que sua carne é segura, diz o porta-voz Barry Scher. Apesar de acreditar que seus produtos bovinos não serão afetados, Wal-Mart, Food Lion e Pathmark disseram que aceitarão devoluções dos clientes.

  • Cadeias de lojas de refeições rápidas também estão tentando tranqüilizar seus clientes. Mc'Donalds, a maior dos EUA, disse que fornecedores e clientes não foram afetados. Seu padrão de fornecimento proíbe uso de vacas como a encontrada em Washington. Burger King e Wendy's disseram que seus fornecedores não compram carne provenientes de onde a vaca de Washington foi encontrada. "Continuamos acreditando que a carne da Wendy é segura", disse o presidente Tom Mueller em declaração.

  • A cadeia de restaurantes de carne Ruths Chris fez declarações garantindo que seu bife é seguro, para que seus gerentes pudessem responder as perguntas dos clientes em seus 89 restaurantes nos EUA e no exterior.

    O chefe de compras, Jimm Cannon, admitiu que os clientes podem resolver mudar de restaurante. "Muito do que vai determinar isso será o tamanho do exagero da mídia e como o governo americano reagir", disse ele. Cada um de seus restaurantes faz, em média, US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 13,5 milhões) por ano. O quarto trimestre é o mais movimentado, em parte por causa dos jantares de fim de ano.

    Chandler Keys, vice-presidente de assuntos do governo da Associação Nacional de Criadores de Gado, está trabalhando ao máximo para garantir que a mídia e os consumidores entendam que a carne é segura. "Estamos tentando fazer um esforço coordenado, para falar ao público americano sobre isso de forma racional", disse Keys.

    "Há muito temos um plano coordenado com o governo. Ele foi colocado em movimento agora, e o grupo está trabalhando com a Casa Branca, o departamento de Agricultura, autoridades comerciais, empacotadoras, vendedores e restaurantes para passar uma mensagem coordenada."

    O porta-voz do Escritório da Federação Americana de Fazendas, Mace Thornton, disse que a organização, junto com outros grupos fazendeiros e o Departamento de Agricultura, também vem preparando planos de contingência há anos.

    O esforço não é inteiramente consensual. Um grupo menor, o populista R-Calf, pediu ao governo Bush que fechasse as fronteiras a todos animais vivos, carne e rações, até que fosse explicado como a vaca leiteira do Estado de Washington contraiu o mal da vaca louca, ou encefalopatia espongiforme bovina. O grupo também diz que a limitação das importações ajudará a reforçar os preços internos.

    O surto da vaca louca, em algum momento ia acontecer .De fato, veio em boa hora para a indústria do gado. Atualmente, ela está mais bem posicionada financeiramente para agüentar o rojão. Os preços vêm atingindo altas históricas, a demanda aumentando e o fornecimento limitado.

    "Temos todos esses dominós caindo na mesma direção, quando olhamos para 2003", diz Scott Brown, do Instituto de Pesquisa em Política de Alimentos e Agricultura da Universidade de Missouri. No entanto, os preços estavam um pouco abaixo de seu pico, mesmo antes da descoberta do caso.

    A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities vai vigiar melhor os mercados futuros para evitar possível manipulação de preços, disse Michael Gorham, diretor da divisão de vigilância do mercado. "Não temos razão para acreditar que alguém esteja fazendo isso, mas quando se tem uma situação como esta, deve-se aumentar a vigilância", disse.

    Os preços da libra do boi em pé caíram US$ 0,015 (cerca de R$ 0,045 -o limite permitido- para cerca de US$ 0,90 (em torno de R$ 2,70), na quarta-feira. O limite, que impede a montanha russa de preços enquanto o mercado absorve as notícias, será aumentado para US$ 0,03 (cerca de R$ 0,09), quando o mercado voltar a abrir nesta sexta-feira (26/12).

    Normalmente, o limite de US$ 0,015 vigora por dois dias, mas, pela primeira vez, o programa foi antecipado para absorver a demanda de negociação acumulada. Contratos de opções, que não têm limites de preços, sugerem que os preços futuros têm muito mais a cair. Os desdobramentos da vaca louca podem quebrar o setor de carne.

    As fazendas de engorda -para onde os criadores mandam seu gado para ser engordado antes do matadouro- podem adiar as compras de gado, até que as coisas se acalmem. Isso pode prejudicar as empresas que vendem ração. Mike Miller, diretor de desenvolvimento de negócios da Cattel- Fax, disse que o surto colocaria pressão nos mercados de gado e atacado, mas sugere que o varejo poderá demorar mais para reagir.

    Dan Murphy, porta-voz do Instituto de Carne Americano que representa os empacotadores dos EUA, disse que estes têm alguma flexibilidade. Grande
    quantidade da carne exportada é de partes do animal não comidas nos EUA e freqüentemente congeladas. "Se ficar parada dias ou semanas, não é uma situação horrenda".

    Murphy e outros não acham que o impacto da descoberta seja tão duro como foi para o Canadá, onde uma indústria muito menor perdeu cerca de US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões (entre R$ 7,5 a R$ 9 bilhões) desde maio. Isso acontece, em grande parte, porque mais de 60% do gado canadense é exportado, comparado com cerca de 10% da produção americana.

    No entanto, em uma mostra do que poderá acontecer aos produtores americanos, Cindy McCreath, gerente de comunicações da Associação de Criadores de Gado Canadense disse que, com a exceção do México e poucos
    clientes menores, o Canadá ainda não conseguiu voltar aos seus mercados.

    Parte da compra de carne canadense foi retomada pelos EUA. O gado contrai a doença comendo ração contendo ossos ou tecido infectado de vacas ou outros ruminantes. O Departamento de Agricultura proibiu esse tipo de ração desde 1997, apesar de haver dúvidas sobre a rigidez e fiscalização da política.

    A descoberta do caso de vaca louca pode aumentar a demanda por carne especial, orgânica ou natural. A processadora Niman Ranch, perto de San Francisco, abate cerca de 175 cabeças de gado por semana, de 70 criadores. A empresa avalia o histórico dos animais do nascimento à morte e vangloria-se de não usar hormônios ou antibióticos para promover o crescimento.

    "O importante é saber a proveniência da carne", diz o presidente Rob Hurlbut. Mesmo assim, os telefones ficaram ocupados na quarta-feira, com clientes querendo segurança. "Está tocando sem parar", disse Hurlbut. Deborah Weinberg
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