Transplante de fígado dá mais tempo a portador de HIV

Tim Bonfield
EM CINCINNATI, OHIO

A música está voltando à vida de Terry LaBolt. Em novembro, o pianista estava morrendo. Ele já tinha vivido cerca de 20 anos com os vírus da Aids e da hepatite B, mas agora um tumor prejudicava seu fígado debilitado.

A carreira musical de LaBolt levou-o à Broadway, a turnês com Carol Channing e a apresentações em uma variedade de programas de televisão. Ele também deu aulas de teatro musical por muitos anos no Conservatório de Música da Universidade de Cincinnati. Parecia o fim da carreira.

"Eu morria de medo de que ele não fosse agüentar. Toda vez que me despedia dele, pensava: 'Será a última vez?' Mas agora não", disse Carol Sherman-Jones, amiga íntima.

Labolt, 48, viveu o suficiente para que a medicina encontrasse remédios para sua doença. No dia 19 de novembro, LaBolt tornou-se a primeira pessoa HIV positiva de Cincinnati -e uma das poucas no país- a receber um transplante de fígado, procedimento considerado impensável pela maior parte dos médicos há poucos anos.

"Nos últimos cinco anos, só pensava em como conseguir outro ano de vida, com as forças de um dia. Subir os degraus tomava toda a energia que eu tinha", disse LaBolt. "Mas quando acordei da cirurgia, meu maior problema tornou-se o que fazer com tanta energia."

Agora, LaBolt tem as mesmas chances de sobrevivência quanto qualquer outro paciente de transplante de fígado. Antes, não se fazia transplante em pessoas com HIV porque não se esperava que vivessem o suficiente para justificar a cirurgia.

No entanto, desde meados dos anos 90, as terapias antivirais tiveram tanto sucesso que a falência do fígado é hoje uma das principais causas de morte para pessoas com HIV. O excesso de medicamentos para combater o vírus debilita o fígado.

Mesmo assim, os pacientes de HIV não eram candidatos a transplantes até recentemente, porque os médicos temiam que as drogas dadas após a cirurgia, para evitar a rejeição do órgão, pudessem interferir com as medicações do HIV.

O transplante de LaBolt, na Universidade de Cincinnati, foi parte de um experimento clínico, desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco. O estudo envolve o acompanhamento de 130 transplantes de fígado em pessoas com HIV, nos próximos três anos. Isso é menos de 1% dos mais de 15.000 transplantes de fígado feitos em todo o país no mesmo período.

Os pesquisadores dizem que é cedo demais para saber quantas pessoas com HIV -até 900.000 pessoas em todo o país- precisarão de transplante de fígado. Amigos e médicos dizem que o estudo traz esperanças a muitas pessoas com HIV. Outros estão preocupados em acrescentar nova demanda para uma oferta já escassa de órgãos.

Em todo o país, 17.392 pessoas esperavam transplante de fígado no dia 31 de dezembro, de acordo com a Rede Unida de Partilhamento de Órgãos. Entre janeiro e setembro de 2003, foram feitos 4.009 transplantes de fígado com órgãos de doadores mortos. Há muito que os debates éticos sobre transplantes de órgãos envolvem críticas a alguns estilos de vida.

Prisioneiros deveriam receber transplantes? Acontece. Pessoas que abusaram do álcool e de outras drogas deveriam receber transplantes? Freqüentemente isso acontece. Inclusive, houve um caso controverso, do cantor David Crosby, que teve hepatite C e histórico de abuso de substâncias.

"A lista de espera para transplantes de órgãos vem crescendo a cada ano, desde 1986. Mas as chances de receber um órgão não mudam grande coisa com esse estudo", disse Mark Somerville, diretor assistente da Rede de Doadores de Órgãos LifeCenter, que serve os Estados de Ohio, Indiana e Kentucky.

A médica Michele Roland, pesquisadora da Universidade da Califórnia em San Francisco e co-diretora do estudo, junto com 14 centros, disse que entre 23% e 33% das pessoas com HIV também são portadoras do vírus da hepatite C.

Outros 9% -como LaBolt- têm hepatite B. As três doenças são disseminadas de forma similar, pelo contato com sangue infectado ou fluidos corporais durante o sexo ou uso de drogas. Além disso, quase todas as drogas de combate ao HIV causam danos ao fígado, disse ela.

O objetivo do novo estudo é determinar quais medicamentos de controle de HIV funcionam melhor com as drogas anti-rejeição de transplante e quais combinações de remédios devem ser evitadas.

"Esse estudo questiona muitas premissas. Enquanto o paciente HIV positivo não desenvolve Aids, ele pode receber um transplante. A expectativa de vida para pessoas HIV positivas não é diferente de outros pacientes de transplante", disse Ken Sherman, especialista em doença do fígado que coordena o papel da Universidade de Cincinnati no estudo nacional. Deborah Weinberg

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