Aids atinge duramente índios americanos

Judy Nichols

A natureza isolada de muitas reservas protegeu os índios americanos do açoite da Aids por um tempo. Os únicos casos eram de pessoas infectadas nas cidades que voltavam para a aldeia para morrer.

Mas, em 2001, o então cirurgião geral David Satcher disse que a Aids era uma bomba-relógio para os índios americanos.

"Nós estudamos as estatísticas dos índios separadamente e vimos que estão crescendo rapidamente. Como o grupo era muito pequeno, o número de casos parecia estável, porque eram tão poucos se comparados com os outros", disse Satcher.

Hoje, os índios americanos são infectados com Aids a uma razão de 11,2 a cada 100.000, quase 1,5 vezes a taxa de brancos e mais que o dobro da taxa de asiáticos, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). Negros e hispânicos têm as taxas mais altas.

Satcher, que já dirigiu o CDC, disse que não só os índices de infecções são mais altos, mas também os de morte. "Acho que é uma combinação de diagnóstico tardio e menor acesso a tratamento agressivo", disse Satcher.

A doença pode ser até mais devastadora nas populações indígenas, por causa de outras diferenças em questões de saúde, como maiores taxas de incidência de diabetes, alcoolismo, suicídio e morte acidental, disse Jeanne Bertolli, epidemiologista do Escritório de Disparidades de Saúde do Centro Nacional de HIV, DST e Prevenção de Tuberculose do CDC.

"Os povos nativos são vulneráveis", disse Bertolli. "Suas condições dão mais chance à disseminação da doença, com altas taxas de infecção por doenças sexualmente transmitidas e uso ilícito de drogas."

A vida de Emerson Scott serve de exemplo. "Eu mudava de parceiro a cada quinze dias", disse Scott, 37, que foi criado na reserva Navajo e foi garoto de programa. "Meu pai disse: 'Você pode pegar uma doença com esses homens.' Ele tentou me proteger. Eu ouvi falar no rádio sobre a Aids, mas pensei: 'Isso não vai acontecer comigo.'"

Quando ele conheceu o índio Pueblo Jerry Archuleta, 50, do Taos, Novo México, Scott parou de beber. Os dois foram morar juntos e assumiram um compromisso monogâmico. O diagnóstico aconteceu em 1998.

Scott está convencido que pegou a doença durante seus anos na rua e que infectou Archuleta. No entanto, o exame de Archuleta foi o primeiro a dar positivo. O de Scott veio poucos meses depois. Ambos entraram no tratamento padrão; Scott está bem; Archuleta ficou doente demais para trabalhar e está lutando para conseguir receber pela previdência social. "Tem muita doença nessa área", disse Scott. "Muitos gays negam a questão ."

O número crescente de casos preocupa o principal consultor clínico de doenças infecciosas da Área Navajo, Jonathan Iralu, do Serviço de Saúde do Índio. Ele também se preocupa com a contaminação das mulheres, porque assinala maior amplitude do problema.

"A transmissão heterossexual é um padrão preocupante no mundo em desenvolvimento", disse Iralu. "É um sinal de disseminação mais geral, e nos diz que há um risco de disseminação congênita de mãe para filho." O Serviço de Saúde do Índio hoje pede às mulheres grávidas que façam o exame de HIV.

Pouca coisa mudou desde o comentário da bomba-relógio de Satcher, disse o deputado Jack Jackson Jr., do Arizona, um índio Navajo que trabalhou no conselho assessor de Aids do governo Clinton.

"O Serviço de Saúde do Índio ainda recebe fundos historicamente escassos. Os poucos recursos são usados para questões maiores, como diabetes", disse Jackson. "Sob este governo, grande parte dos fundos dedicados ao HIV em comunidades de cor e gay não está mais sendo distribuída."

Jackson disse que um sério problema é que os casos não são contabilizados. "Os números não refletem a realidade", disse ele. "Muitos índios não confiam no Serviço de Saúde do Índio por razões de confidencialidade, então estão saindo da reserva para serem examinados."

Larry Kairaiuak, índio Yup'ik que trabalha no Centro Nacional de Prevenção de Aids de Nativos Americanos, disse que o número de casos é mal representado por causa de erros na identificação.

"No Arizona e no Novo México, muitos índios têm nomes como Garcia e Gonzáles, e os funcionários (dos postos de saúde) assumem que são latinos", disse Kairaiuak. "Também há índios de cor clara que parecem anglo-saxões e podem ser identificados como caucasianos e tribos de pele muito escura, ou filhos de índios e negros, que são contados como afro-americanos".

Um novo relatório do CDC, documentando os índices de transmissão da doença na reserva Navajo, levou a tribo a criar novos programas de informação. Mas Jackson teme que os esforços não são suficientes.

"Acho que a bomba-relógio vai explodir", disse ele. "E será devastador para a comunidade." Deborah Weinberg

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