Sindicatos rompem com tradição e tentam atrair trabalhadores hispânicos

Ana Radelat
EM WASHINGTON

Federico Reyes, sindicalista de Reno, no Estado de Nevada, representa a nova face do trabalho sindicalizado.

Em 1976, Reyes saiu do México para trabalhar em fazendas na Califórnia. Ele se mudou para Reno um ano depois, a fim de procurar um emprego melhor na cidade que era uma meca dos jogos de azar, e trabalhou como lavador de pratos e ajudante de cozinha. Vinte anos depois, liderou uma luta sindical em um dos maiores hotéis da cidade, o Hilton. Hoje, com 46 anos de idade, Reyes é um dos principais líderes do Sindicato Internacional de Funcionários de Restaurantes e Hotéis, e do Local 86, um outro sindicato.

"Atualmente, cerca de 70% dos trabalhadores do setor hoteleiro são latinos", diz Reyes. "E eles, assim como todo mundo, sabem que a organização trabalhista lhes proporciona respeito e benefícios econômicos".

Os atuais imigrantes latino-americanos estão fazendo o que os irlandeses, alemães, italianos, judeus e outros fizeram antes deles: se organizando para fazer com que as suas demandas façam parte da agenda sindical do país.

Isso é algo que pode ser percebido nas mudanças seguidas de posicionamento com respeito à questão da imigração por parte da AFL-CIO e outras grandes organizações sindicais norte-americanas. Os sindicatos que no passado pediam o fechamento das fronteiras, por acreditarem que a chegada de trabalhadores imigrantes causaria a diminuição dos salários e a perda de empregos dos seus membros, procuram agora atrair os recém-chegados ao país, a fim de fortalecer as suas bases.

"O que ocorreu foi que acordamos esse monstro", firma Linda Chavez-Thompson, a segunda pessoa mais importante da AFL-CIO.

Quando criança, Chavez-Thompson, neta de imigrantes mexicanos, trabalhou nos campos de algodão do oeste do Texas por 30 centavos a hora. Ela foi apresentada ao universo do trabalho sindicalizado ao ser contratada como secretária bilíngüe, aos 23 anos, quando já era mãe de dois filhos.

Ela acabou se filiando à Federação Americana de Funcionários Estaduais e Municipais, como organizadora, e subiu rapidamente na hierarquia daquele poderoso sindicato.

Quase dez anos atrás, o presidente da AFL-CIO, John Sweeney, e o tesoureiro Richard Trumka decidiram que precisavam de diversidade no alto escalão do sindicato e a convidaram para ser a vice-presidente executiva da organização.

"Os sindicatos precisam se parecer com os trabalhadores que estão tentando atrair", explica Chavez-Thompson, 59.

Mas o plano do presidente Bush de legalizar em caráter temporário milhões de trabalhadores ilegais pode atrapalhar a tática dos sindicatos. Chavez-Thompson diz que o plano presidencial, que precisa ser aprovado pelo Congresso antes de virar lei, é "uma promessa vazia para os hispânicos que trabalham duro".

Chavez-Thompson afirma que a proposta de Bush é "um pouco pior do que o velho programa bracero", um sistema sustentando por trabalhadores convidados, criado durante a Segunda Guerra Mundial, que trouxe milhares de camponeses mexicanos aos Estados Unidos quando os jovens fazendeiros estadunidenses estavam lutando no exterior.

O plano de Bush permitirá que trabalhadores estrangeiros sem documentos que forem capazes de provar que possuem um emprego, ou uma oferta de emprego, de um patrão norte-americano, possam se candidatar a um visto temporário de três anos. Aqueles aprovados poderiam renovar os seus vistos por um período adicional de três anos, mas precisariam retornar aos seus países de origem quando o visto renovado vencesse.

"Esse plano vai criar uma subclasse permanente de trabalhadores e implicar na redução dos salários de todos", garante Chavez-Thompson.

Os sindicatos começaram a cortejar os hispânicos que recebem baixos salários e que, em sua maioria, não têm documentos, há dez anos, procurando organizar os trabalhadores da avicultura, do setor de fabricação de tapetes, porteiros e empregados da construção civil.

Ao mesmo tempo, dezenas de hispânicos ascenderam a posições de liderança nos sindicatos, incluindo Eliseo Medina, presidente do Sindicato Internacional de Funcionários do Setor de Serviços; Miguel Contreras, diretor do Conselho Trabalhista Central do Condado de Los Angeles; e Maria Elena Durazo, diretora do sindicato dos funcionários do setor hoteleiro de Los Angeles.

Além disso, Dennis Rivera está à frente do sindicato independente dos funcionários dos hospitais de Nova York desde 1999, e Geoconda Arguello é a líder do sindicato local de funcionários dos hotéis de Las Vegas. E o número de filiados hispânicos também disparou.

"Não estamos conseguindo treinar com a rapidez suficiente os sindicalistas que falam espanhol", conta Chavez-Thompson.

O número de hispânicos membros dos sindicatos aumentou em 400 mil nos últimos dez anos. Segundo o Departamento de Estatísticas Trabalhistas, os sindicatos tinham 1,2 milhão de membros hispânicos em 1992, e 1,6 milhão em 2002.

Mas a percentual de hispânicos sindicalizados declinou nos últimos dez anos, já que os problemas enfrentados pela economia atingiram áreas como o turismo, o setor manufatureiro e o de vestuários, que contratam um número desproporcional de trabalhadores hispânicos.

Embora a filiação sindical tenha caído de forma generalizada nos últimos dez anos, a parcela relativa aos hispânicos sindicalizados sofreu uma queda mais acelerada.

"Mesmo assim, os hispânicos se constituem no segmento da sociedade que mais cresce, e muitos analistas acreditam que o declínio da filiação sindical entre os latinos é uma tendência que será revertida", afirma Michele Waslin, diretora de políticas de imigração do Conselho Nacional La Raza. "O fato de haver uma tradição de sindicatos fortes na América Latina também ajuda".

Há momentos em que os sindicatos planejam recrutar mais hispânicos, mas esbarram em obstáculos.

Rocio Saenz estava travando a sua batalha mais acirrada como sindicalista, no verão de 2002, e ganhando, quando foi sabotada por outros setores do próprio movimento sindical.

Na época, Saenz, 40, era diretora do Sindicato Internacional de Trabalhadores do Setor de Serviços de Boston, e lutava para conseguir salários mais altos para os porteiros da cidade. Ela contava com uma cobertura favorável por parte da mídia e com forte apoio público.

Mas a publicidade quanto à militância incomodou um grupo local.

No passado, foram os imigrantes irlandeses e italianos criaram o sindicato em Boston. Mas, nos últimos 20 anos, a sua composição passou a ser preponderantemente hispânica - 70% dos seus membros são latinos - e esse fato não foi bem recebido pelos funcionários não hispânicos qualificados e sindicalizados, que trabalham em Harvard e outras universidades de Boston, conta Saenz.

"Eles viram as notícias na imprensa e se sentiram incomodados com a militância dos hispânicos", diz ela, cujo trabalho sindical na Califórnia inspirou o filme "Bread and Roses" ("Pão e Rosas"), de 2000, sobre a campanha por justiça para os porteiros.

Saenz disse que teve várias conversas ríspidas com sindicalistas locais não hispânicos, que acreditavam que os novos membros estavam tomando conta do sindicato. Ela ainda está lutando para reverter o descontentamento desses setores.

O patrão de Saenz, o diretor do Sindicato Internacional dos Trabalhadores do Setor de Serviços, Eliseo Medina, também ascendeu na hierarquia sindical.

Nativo de Zacatecas, México, Medina se mudou para os Estados Unidos com a família quando tinha oito anos de idade.

Medina tentou ajudar a família, trabalhando em campos agrícolas. Ele se lembra do dia em que conheceu Cesar Chavez, o famoso fundador do primeiro sindicato trabalhista dos Estados Unidos liderado por um hispânico, o United Farm Workers. Foi em 16 de setembro de 1965, durante uma passeata.

"Me senti inspirado", conta Medina. "Na manhã seguinte, abri o meu cofrinho e paguei adiantado três meses de filiação ao sindicato".

Medina afirma que o United Farm Workers foi "um centro de treinamento e multiplicação de afiliados para milhares e milhares de ativistas latinos".

Arturo Rodriguez, que substituiu Chavez como líder do sindicato rural, pressionou a AFL-CIO para que a organização adotasse uma resolução na sua convenção de 2000, o que significou uma virada completa da posição das federações trabalhistas com relação ao problema da imigração.

A resolução, batizada de "Standing Up for Immigrant Workers - A Call to Action" ("Defendendo os Trabalhadores Imigrantes - Um Apelo à Ação"), pedia a legalização de trabalhadores imigrantes e de suas famílias e o repúdio às sanções do governo federal contra os patrões que empregassem trabalhadores sem documentos.

"Creio que todos descobriram que a realidade atual é totalmente diferente", diz Rodrigues. Danilo Fonseca

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