Pesquisa em Alzheimer pode deter a bomba-relógio da doença

Kathleen Fackelmann

Barbara McCulley nunca vai esquecer o dia em que sua irmã mais velha pegou o lado errado da auto-estrada, depois de uma visita rotineira ao dentista.

Ela a estava seguindo de carro, quando sua irmã entrou na contra-mão na auto-estrada da Carolina do Sul e acelerou. "Eu comecei a gritar", contou McCulley sobre o incidente, que ocorreu em 2000. As duas chegaram em casa bem, mas McCulley tirou as chaves do carro de sua irmã ali mesmo.

"Ela não entendeu", disse McCulley. "Achou que eu estava sendo má." Sua irmã tinha Alzheimer. McCulley, que hoje tem 65 anos, cuidou de sua irmã durante quatro anos, até que ela morreu da doença aos 86, no dia 23 de setembro de 2002.

Hoje, McCulley, de Simpsonville, Carolina do Sul, convive com o fato de que ela também talvez desenvolva a doença. Sendo a mais jovem de 10 irmãos, McCulley viu cinco irmãs e irmãs sofrerem da doença.

A família de McCulley provavelmente herdou um gene ou genes que a colocou em risco de desenvolver Alzheimer no final da vida. Nem todos da família apresentam a doença, mas alguns sim: é provável que o pai de McCulley tenha morrido da doença, assim como vários outros parentes próximos.

McCulley ainda não apresenta sintomas de Alzheimer, mas cada ano aumenta seu risco: "Se tiver a doença, os sintomas se apresentarão nos próximos 10 anos."

Em vez de se preocupar com o futuro, McCulley tomou uma decisão que espera que adie o relógio do Alzheimer - senão para ela, para a próxima geração: levou sua família a participar de um estudo recém terminado sobre a doença. A pesquisa identificou um gene que talvez controle não apenas se a pessoa desenvolverá Alzheimer, mas quando.

Essa descoberta, que apareceu na edição de 15 de dezembro da Human Molecular Genetics, poderia gerar novas drogas poderosas, que diminuíssem o ritmo da doença -talvez para sempre.

"Se você pudesse adiar o início da doença para depois da expectativa de vida natural -isso seria muito bom", disse Margaret Pericak-Vance, principal autora do artigo.


Procurando pistas genéticas

A forma mais comum da doença é a de início tardio, em geral depois dos 60. No passado, os pesquisadores se concentraram em genes que colocam as pessoas em risco de sofrer a doença. Pericak-Vance e seus colegas da Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte, adotaram uma nova abordagem, caçando genes que influenciam a época em que os sintomas surgem.

"Por que algumas pessoas desenvolvem a doença aos 60, e outras aos 80?" pergunta Pericak-Vance.

Para descobrir, a equipe começou a estudar o material genético isolado de sangue doado de famílias com histórico de Alzheimer. No ano passado, a equipe tinha estreitado a pesquisa para uma região do cromossomo 10, um pedaço de DNA contendo centenas de genes.

Eventualmente, a equipe cortou a quantidade de genes candidatos a quatro e, finalmente, concentrou-se em um, conhecido como GST01, ou Gusto.

Sua pesquisa sugeriu que as pessoas que tinham herdado determinada versão do gene poderiam desenvolver Alzheimer mais cedo, aos 60 anos, por exemplo.

Esse estudo também sugeriu que o mesmo gene influenciava a idade em que as pessoas desenvolviam outra doença do cérebro, Parkinson. Cerca de 1 milhão de americanos têm Parkinson, um distúrbio motor que causa tremores e dificuldade de locomoção.

Ninguém sabe ao certo como o Gusto poderia influenciar o início das doenças, mas os estudos sugerem que o gene está envolvido na regulação da resposta inflamatória do cérebro. Alguns cientistas acreditam que a inflamação tem um papel nos dois casos.

A forma mais comum de Alzheimer é provavelmente causada por uma mistura de fatores de risco genéticos e ambientais. Não há evidências de que o Gusto provoque a doença por si próprio. Mas uma determinada versão do gene pode acelerar a destruição silenciosa do cérebro, levando os sintomas a começarem mais cedo.

Genes como o Gusto dão instruções às células humanas para produzirem proteínas. A equipe de Duke acredita que esta versão do Gusto possa, de alguma forma, iniciar a doença. Em caso positivo, se os pesquisadores conseguirem compreender seu funcionamento, talvez possam produzir uma droga que bloqueie a ação da sua proteína resultante -e assim diminuir a progressão da doença por vários anos.

E se tiverem sorte, poderão adiar o relógio da doença ainda mais -para além dos 80, 90 ou até 100 anos, disse William Scott, epidemiologista da Duke.

"Isso ajudaria as pessoas a escaparem da doença."


Mais terapias são necessárias

Os pesquisadores sabem que demora décadas para Alzheimer destruir o cérebro. Se uma droga pudesse deter a doença antes que destruísse grandes partes do cérebro, isso poderia prevenir a confusão, perda de memória e problemas comportamentais característicos de uma doença que hoje aflige cerca de 4,5 milhões de pessoas nos EUA.

Melhores terapias são urgentes para atender a geração do baby-boom, que rapidamente está chegando à idade de risco para Alzheimer. O número de americanos sofrendo de Alzheimer poderá atingir a marca dos 16 milhões até 2050, diz Bill Thies, da Associação de Alzheimer, em Chicago.

Mas primeiro, os pesquisadores têm que provar que o gene Gusto, de fato, afeta a idade do início da doença. Outros cientistas podem contestar a ligação entre o Gusto e Alzheimer. "Um artigo não significa que essa descoberta está garantida", disse Marcelle Morrison-Bogorad, especialista em Alzheimer do Instituto Nacional do Envelhecimento, parte dos Institutos Nacionais de Saúde, em Bethesda, Maryland.

Mesmo assim, muitos especialistas acham que a descoberta do Gusto vai dar frutos. "Eu acho que o resultado é verdadeiro", disse Richard Mayeux, neurologista e especialista em Alzheimer da Universidade Columbia, em Nova York.

Se for, com mais pesquisas, os pesquisadores poderão um dia formular uma terapia que atrase o início de Alzheimer por 10 anos. Até mesmo um adiamento de poucos anos seria válido para muitos idosos, disse Mayeux.

McCulley sabe que os pesquisadores não obterão uma cura para o Alzheimer hoje, nem amanhã. Mas ela espera que os estudos genéticos revelem informações suficientes sobre a doença para ajudar a próxima geração.

"Sei que isso não vai me ajudar", diz ela. "Mas talvez possa ajudar meus filhos ou netos." Deborah Weinberg

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