Candidatos à presidência dos EUA usam Guerra do Vietnã para atacar adversários

Chuck Raasch
EM WASHINGTON

Toda vez que o Vietnã parece estar recuando para o seu lugar na história, surge um novo episódio que nos lembra o quanto a guerra ainda se constitui em uma cicatriz na alma norte-americana.

O exemplo mais recente é o GuardGate, a polêmica política quanto aos registros da passagem do presidente Bush pela Guarda Nacional, há mais de 30 anos. No dia em que Bush fazia um importante discurso sobre uma das questões mais importantes da nossa era - a proliferação de armas nucleares nas mãos de terroristas e de Estados que não respeitam a legislação internacional -, os democratas e os jornalistas que fazem a cobertura da Casa Branca examinavam a ficha odontológica militar de Bush, feita há mais de três décadas.

Por que? Para determinar se os registros provam de forma indubitável que Bush cumpriu as suas obrigações junto à Guarda Nacional antes de ser desligado com honras do serviço em 1973. Os jornalistas exploraram esse assunto na campanha de 2000, antes que Bush fosse eleito, mas a questão reapareceu em 2004, devido ao contraste com o principal contendor do Partido Democrata, e por causa, também, de uma acusação séria - a de deserção temporária - feita pelo líder do Partido Democrata, Terry McAuliffe.

O senador John Kerry, democrata de Massachusetts, que foi ferido e que serviu heroicamente no Vietnã, voltou para casa para liderar a organização Veteranos do Vietnã Contra a Guerra. A menos que seja torpedeado por um escândalo pessoal, Kerry parece estar bem encaminhado para ser nomeado candidato do Partido Democrata.

Faltam nove meses para a eleição, mas o clima já é semelhante ao daqueles dias aflitivos do final de outubro, quando as máquinas de calúnias e difamações estarão funcionando a todo vapor. O ataque da esquerda com base no histórico militar de Bush, reforçado neste momento por propagandas milionárias, se choca com as acusações feitas pela direita contra o ativismo antibelicista de Kerry. Os que não gostam de Kerry publicaram na Internet uma foto do candidato em uma manifestação contra a guerra, sentado ao lado da ativista Jane Fonda, uma jogada para associá-lo aos militantes pacifistas que deixou os seus correligionários lívidos. Kerry nunca escondeu as suas ações contra a guerra, e vários dos veteranos que trabalham com ele dizem que o candidato os atraiu exatamente por se opor a conflitos bélicos.

Sejamos bem claros: esses ataques e calúnias não dizem respeito à idéia de que o serviço militar seria um pré-requisito para a liderança, em se tratando da geração do Vietnã.

Bill Clinton, que evitou claramente servir naquela guerra, tendo escrito uma carta ao recrutador dizendo que "detestava" as forças armadas, foi eleito duas vezes comandante em chefe e é reverenciado pelos mesmos democratas que criticam agora a ficha militar de Bush. O que ocorre é que os ataques contra Bush e Kerry utilizam a guerra como base para bombardear aqueles traços de caráter que os norte-americanos buscam em um presidente: honestidade, sinceridade, amor ao país, lealdade ao serviço militar.

"Esse é um truque sujo típico dos republicanos, não há nada de novo, e estamos preparados para tal coisa", disse Tom Keefe, 54, veterano do Vietnã e morador de Sterling, Virginia, que ajudou a organizar os outros veteranos em torno da campanha de Kerry para as eleições primárias.

O defensor de Bush, Joe Repya, 57, que também é veterano do Vietnã e vice-diretor do grupo Minnesota Veterans for Bush, definiu os ataques com base nos registros do presidente na Guarda Nacional como "política suja, na melhor das hipóteses, e um ataque explícito contra o caráter do presidente, tudo isso em nome de lucros políticos baratos".

Até mesmo se Bush e Kerry pedissem uma trégua, eles seriam incapazes de impedir que o Vietnã fosse utilizado como instrumento de ataques políticos.

Esse é o custo da campanha permanente que marca o cenário político norte-americano. A campanha de 2004 já se sobrepôs à metade do mandato de Bush, e ainda estamos longe - sob o ponto de vista político - das eleições de 2 de novembro.

Com a redução das grandes doações aos partidos e políticos nacionais, o universo dos grupos profissionais de oposição foi ampliado, especialmente à esquerda. Enquanto a foto de Fonda e Kerry era publicada nos sites dos correligionários de Bush, um grupo liberal, o MoveOn.org Voter Fund, promovia uma série de propagandas televisivas atacando os motivos apresentados por Bush para lançar uma guerra contra o Iraque. Os primeiros ataques à ficha militar de Bush tiveram origem com o cineasta liberal Michael Moore, que chamou Bush de "desertor" em um comício a favor do general Wesley Clark, que desistiu na última quarta-feira de disputar as eleições primárias.

Clark se recusou a desmentir a acusação. A seguir, McAuliffe, um confidente de Clinton, botou mais lenha na fogueira.

Independentemente de quem vença em 2004, é surpreendente que alguém seja capaz de governar em meio a um clima desses. Danilo Fonseca

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