Aulas de cultura militar árabe para evitar enganos fatais

Por Steven Komarow
DE FORT DIX, Nova Jersey

Dois iraquianos imploram aos soldados americanos, do outro lado do arame farpado, que os deixem passar, mas são barrados pelos soldados temerosos. Logo, chega uma multidão, gritando e se acotovelando. Em pouco tempo, a multidão torna-se uma massa incontrolável, que invade as instalações americanas.

Os soldados perdem o controle e atiram, primeiro para o ar, depois diretamente para os iraquianos desarmados. O que começou com um engano -os primeiros dois visitantes pediam apenas assistência médica- tornou-se um incidente de grandes proporções.

Felizmente, esses soldados da 3664a Companhia de Manutenção estão atirando com tiros de festim. Os iraquianos "mortos" estão fingindo. É uma simulação.

Os eventos, entretanto, usam como modelo a realidade de Bagdá, Tikrit e outros pontos complicados. Impasses violentos, até mesmo quando não causam baixas, prejudicam o esforço de conquistar a simpatia do povo iraquiano.

Então, o Exército e os Marines acrescentaram ao treinamento de mais de 100.000 novos recrutas para o Iraque um pouco de cultura árabe.

O Exército enviou unidades selecionadas à Jordânia e outros países árabes, para estudarem costumes e tradições. Qualquer pequena informação que os soldados recebem aqui e em outras bases americanas, inclusive em Fort Polk, Louisiana, que o presidente Bush visitou na terça-feira, chama a atenção dos soldados.

Os campos nevados e as florestas de Nova Jersey não se parecem em nada com o Iraque, mas os iraquianos são verdadeiros -de comunidades iraqui-americanas dos Estados de Michigan e Washington. Eles provocam os soldados, que vêem como um pouco de conhecimento pode salvar vidas.

"Queremos fazer as coisas certas e não reagir demais quando não for necessário. Seus costumes e cultura são totalmente diferentes", disse o sargento Ricky Baker, 42, da 3664a, que é uma unidade da Guarda Nacional do Exército em Point Pleasant, Virgínia Ocidental.

Major Elizabeth Collins, 43, reservista de Richmond, Virgínia, observa os erros e sugere correções. Neste caso, diz ela, os soldados deveriam ter pedido a ajuda de um tradutor, assim que viram que não conseguiam entender o que os iraquianos queriam.

Seu desempenho será melhor, na próxima vez. Devem praticar até lá: "Cansados ou com fome, com calor ou frio. Não importa a situação, eles poderão reagir com a memória corporal e seguir os padrões", diz Collins.

Ser eficaz no Iraque significa desaprender uma vida de hábitos americanos. Por exemplo: É grosseiro apontar para alguém nos EUA; no Iraque, é um tremendo insulto.

Tocar a palma direita no peito depois de um aperto de mãos mostra respeito ou agradecimento. Não há necessidade daquele aperto de mãos firme, de macho americano.

O símbolo de "ok", com o dedão e o indicador formando um círculo, para os árabes, tem a conotação de "olho maligno".
Para fazer o sinal de pare, levantar a mão não funciona. Em vez disso, o soldado deve estender seu braço, palma para cima, com o dedão pressionando os dedos fechados.

O novo guia para as tropas também adverte contra o uso da mão esquerda para comer, tocar ou dar presentes, pois é considerada suja pelos árabes.
Os homens não devem encarar mulheres iraquianas, nem tocá-las, mesmo em situações nas quais se faria uma revista física nas mulheres nos EUA, como no trânsito ou em uma busca em residência.

"Se minha mulher estiver no carro, eles não têm o direito de colocar as mãos nela. Nenhum toque, nada. É muito importante saber disso", diz Salam Al-Buturky, 18, de Seattle, um dos treinadores iraqui-americanos.
Os soldados também precisam compreender que o confronto pessoal direto não funciona tão bem quanto a paciência e a sutileza. "Educação, comportamento socialmente correto e a preservação da honra são as principais características", diz o guia.

O Exército e os Marines não enfatizaram o treinamento cultural antes da invasão do Iraque, em março. Eles estavam concentrados na expectativa de confronto com os militares iraquianos. Especialistas dizem que um treinamento desse tipo poderia ter evitado mortes e a má vontade.

O general aposentado William Nash, comandante da Guerra do Golfo Persa de 1991 e da Bósnia, diz que mostrar respeito pelo povo iraquiano é crucial. Se as diferenças culturais não forem ultrapassadas, "então vão atrapalhar tudo o que fizermos".

A mudança no treinamento é dramática. Uma empresa que fornece treinadores iraqui-americanos, Operational Support and Services, foi contratada no último outono para fornecer 400 horas de treinamento. Em semanas, o contrato foi expandido para 4.000 horas, diz a empresa.
"Tentamos enfatizar uma coisa: que você tem que se comunicar. A falta de comunicação causa medo. E o medo leva a desastres", diz Amr Mohamed, supervisor da Operational Support and Services, que serviu de tradutor para as tropas das Forças Especiais durante a invasão.

Ali Al-Emeri, 44, de Seattle, diz que abandonou sua empresa, no ano passado, para servir de intérprete dos Marines durante a invasão iraquiana. Ele emigrou para os EUA depois do levante xiita contra Saddam, em 1991.

Os americanos, diz ele: "Salvaram minha vida. Segunda coisa, me deram uma vida melhor, me deixaram viver neste país e ter liberdade. Terceira coisa, liberaram meu país. Estou pagando o que devo." Deborah Weinberg

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