CIA financia produção de tecnologia para atividade de inteligência

Por Kevin Maney
EM ALGUM LUGAR PRÓXIMO A WASHINGTON

No interior deste movimentado prédio de escritórios, que não tem nenhuma placa ou lista de ocupantes, ficam as instalações da In-Q-Tel. Para fazer esta matéria, o USA Today concordou em não revelar a localização do escritório.

Trata-se de uma das várias mutações esquisitas resultantes de um dos mais radicais programas atuais do governo: a In-Q-Tel é o braço da Agência Central de Inteligência (CIA) na área de investimento de risco.

É verdade - a CIA está investindo em novas empresas de tecnologia. No momento em que a CIA sofre duras críticas devido aos seus lapsos de inteligência, a In-Q-Tel oferece uma rota promissora de acesso às tecnologias que podem ajudar a agência a detectar mais cedo os problemas e a cometer menos erros.

A In-Q-Tel, criada em 1999, investe cerca de US$ 35 milhões anualmente em companhias novas que criam tecnologias que poderão aprimorar a capacidade dos Estados Unidos de espionar os seus inimigos. Ela tem operado de forma discreta e não é muito conhecida fora da comunidade de inteligência e do Vale do Silício.

Embora a In-Q-Tel tenha começado como uma experiência destinada a durar cinco anos, a empresa fez tanto sucesso que a CIA quer prorrogar o seu prazo de funcionamento. E isso depende do Congresso, que, provavelmente, aprovará a medida. A In-Q-Tel se transformou no novo objeto de simpatias em Washington. O Departamento de Defesa quer até mesmo replicar o modelo da empresa nas forças armadas.

Mas no que investe a In-Q-Tel? "Não é nada parecido com os filmes de James Bond. Não se fazem carros invisíveis ou coisas do gênero", explica Gilman Louie, diretor da empresa.

Ao invés disso, várias das tecnologias se concentram na busca e seleção de dados - um gigantesco problema para as agências de inteligência. A cada três horas, relatórios de inteligência dos Estados Unidos fornecem uma quantidade de informação suficiente para lotar a Biblioteca do congresso, segundo noticiou a revista "Technology Review", publicada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Assim, uma companhia financiada pela In-Q-Tel, a Language Weaver, está participando do desenvolvimento de uma nova tecnologia para a tradução instantânea de documentos de línguas como o árabe para o inglês. Uma outra, a Inxight, se assemelha a um google mais "inteligente". É um mecanismo de busca capaz de selecionar documentos online por categorias. Ao todo, a In-Q-Tel investiu em 59 novas empresas.

O resultado foi uma mistura peculiar de tecnologia e espionagem. Por exemplo, a In-Q-Tel não é administrada por um oficial de inteligência da CIA. Antes de ocupar o cargo atual, Louie criou duas companhias de videogame.

Aqui, nos modernos escritórios em tons negro e bronze da In-Q-Tel, Louie tem que aguentar uma série de ironias de diretores-executivos de empresas e de investidores que não estão acostumados à presença da CIA. "'Posso te contar, mas depois terei que te matar'. Ouço essa gracinha a toda hora", conta Louie.

A direção da empresa é formada por uma miscelânea de executivos e assessores políticos famosos, incluindo James Barksdale, ex-presidente da Netscape Communications; Norman Augustine, ex-presidente da Lockheed Martin; e William Perry, que foi secretário de Defesa no governo do presidente Clinton.

Nas empresas de tecnologia fundadas pela In-Q-Tel, os executivos deixam o aspecto secreto e clandestino do trabalho a cargo da parceira diferente. Perguntem às companhias como a CIA está utilizando os seus produtos, e a resposta será um silêncio, muitas vezes acompanhado de um sorriso.

"Nunca falamos sobre 'o consumidor'", diz Robert Shaw, presidente da ArcSight, uma empresa de softwares de segurança criada pela In-Q-Tel. Em uma entrevista, Shaw sequer utilizou o termo "CIA".

Recuperando a dianteira tecnológica
A In-Q-Tel existe porque a CIA sabia que estava perdendo a dianteira na área de tecnologia de informática.

Em dezembro de 1998, o diretor da CIA, George Tenet, e o seu diretor-executivo, Buzzy Krongard, ligaram para Norman Augustine, o respeitado fundador da Lockheed Martin. Augustine recorda que Tenet lhe explicou que os laboratórios da CIA e do governo sempre detiveram a liderança tecnológica. Mas o boom ocorrido na Internet despejou tanto dinheiro sobre as novas empresas que estas passaram à frente da CIA. E cientistas e técnicos que tinham idéias inovadoras preferiram se tornar empresários e enriquecer, ao invés de ficarem na agência, ganhando os salários pagos pelo governo.

Ao mesmo tempo, as empresas de tecnologia prosperavam, não desejando lidar com as tramitações burocráticas envolvidas nos processos de licitação do governo. A maioria delas jamais pensou em manter contato com a CIA.

Essas empresas não tinham idéia do que a CIA precisava, e a CIA não sabia o que elas estavam inventando - uma perigosa falta de conexão, em um jogo no qual há vidas humanas envolvidas.

Augustine, Tenet e Krongard - um ex-banqueiro do setor de investimentos - encontraram uma solução potencial. "Tratava-se de uma idéia com um novo ingrediente, que nunca antes fora tentada", conta Augustine. "Nós criaríamos uma empresa que teria participação acionária em pequenas companhias de tecnologia".

E por que fazer isso, ao invés de simplesmente adquirir as últimas inovações tecnológicas?

No Vale do Silício, os investidores de risco - conhecidos, na sigla em inglês, por VCs - vêem oportunidades de negócios quando essas empresas ainda não passam de idéias. A seguir, eles injetam dinheiro nessas companhias para ajudá-las a se materializar. Assim, se a CIA fosse capaz de entrar para o grupo dos VCs, a agência poderia dar uma espiada nas novas tecnologias que lhes poderiam ser úteis, garantindo que os projetos recebessem verbas.

De certa forma, a rota do investimento de risco possibilitou à CIA utilizar toda a indústria de tecnologia como um laboratório.

A missão nunca foi obter lucros com os investimentos. A idéia era trazer as novas e promissoras tecnologias para a atividade de inteligência.

Para comandar a nova entidade, a CIA encontrou Louie. Ele havia criado o popular jogo de simulação de vôo Falcon F-16, e, nos anos 80, importara o popular videogame Tetris da União Soviética, à época o principal inimigo dos norte-americanos no contexto da Guerra Fria.

Quando o acharam, Louie chefiava o grupo de videogames Hasbro. Tenet apelou para o seu patriotismo. "Ele me convenceu de que, caso não resolvêssemos esse problema de informação para a CIA, a agência ficaria sobrecarregada", conta Louie.

Ele aceitou o emprego e criou a In-Q-Tel. O nome é uma homenagem a "Q", o cientista dos filmes de James Bond que fornece a 007 as câmeras em miniatura e as armas embutidas em sapatos. In-Q-Tel não é nada mais que "intel" - a abreviatura da palavra "inteligência" - com um "Q" no meio.

"Tivemos um começo muito difícil porque tudo era diferente", diz Augustine. Investigadores no Congresso suspeitaram de que a iniciativa visava o lucro. E os empresários do setor tecnológico desconfiavam das intenções da CIA.

O fator 11 de setembro
A In-Q-Tel não fica na CIA. A empresa funciona mais como um apêndice da agência. Vários dos 55 funcionários da In-Q-Tel não possuem credenciais de segurança. Dentro da CIA fica um grupo separado de 13 oficiais de inteligência de verdade, chamado de QIC, uma abreviatura em inglês para Centro de Interface In-Q-Tel. O QIC diz à In-Q-Tel qual é o tipo de tecnologia de que a CIA carece. Por sua vez, quando a In-Q-Tel financia uma empresa nova interessante, avisa ao QIC, que apresenta a nova tecnologia à CIA.

Louie e a maior parte dos funcionários da In-Q-Tel trabalham fora do escritório localizado na área de Washington, e cuja localização é mantida em sigilo. Mais visível é o escritório da empresa no Vale do Silício, ocupado por oito pessoas. Localizado em Menlo Park, ele fica às margens da estrada Sand Hill, onde estão quase todas as outras firmas de investimentos de risco. Sobre uma porta há a inscrição In-Q-Tel.

Foi nessa porta que bateram os empresários do setor de tecnologia após o 11 de setembro. O número de planos apresentados para a formação de empresas chegou a três ou quatro por dia - uma média de mil por ano, que, desde então, se manteve. Técnicos que anteriormente não consideravam a hipótese de auxiliar a CIA, de repente sentiram o desejo de contribuir.

A CIA recebeu bem essa onda de interesse. "Após o 11 de setembro, de repente a agência se viu em meio a um mundo de sofrimento", conta Louie. "A única forma que acharam para sair dessa situação foi a utilização da tecnologia".

Na mesma época, um outro fator fez com que a In-Q-Tel e a indústria de tecnologia se aproximassem: o estouro da bolha de tecnologia. Em 2001, o dinheiro das fontes tradicionais para as novas empresas de tecnologia praticamente sumiu.

A In-Q-Tel contava com o dinheiro da CIA para investir. Ela também trouxe a campo um mercado sedento de tecnologia - a CIA precisava desse tipo de coisa - em um momento no qual a maior parte dos consumidores tradicionais cortava os gastos.

Em 2002, a In-Q-Tel havia se transformado em uma peça atuante no Vale do Silício.

"Eles te acham"
Assim como várias outras empresas vinculadas à In-Q-Tel, a companhia de segurança ArcSight nunca pensou em atuar em parceria com a CIA. "Você não sai por aí procurando por eles", diz o diretor-executivo Shaw. "Eles te acham".

A companhia foi fundada em 2000 para desenvolver softwares de segurança para corporações. A sua função é identificar todas as brechas nas redes, ataques de hackers e outras ameaças a um sistema mantido por uma companhia e, a seguir, procurar por certos padrões nesses elementos antagônicos. Esse trabalho poderia ajudar as corporações a antecipar futuras ameaças ou até mesmo a localizar os hackers.

Shaw, que já foi um alto executivo da Oracle, diz que a In-Q-Tel analisou sigilosamente a sua companhia durante um ano. "Depois, eles surgiram do nada e me chamaram", conta. "Quando bateram à nossa porta, já sabiam muita coisa sobre nós".

Essa história é típica. A In-Q-Tel se tornou conhecida por ser rigorosa, mas furtiva. Nestes dias, quando uma nova empresa faz uma apresentação em um evento, um desconhecido pode entrar, ouvir com atenção, e depois desaparecer. A mística da In-Q-Tel é tamanha que os empresários acreditam freqüentemente que tais pessoas sejam olheiros da empresa, ainda quando esse não seja o caso.

Assim que a In-Q-Tels investe, ela assume um papel mais ativo com relação às suas companhias do que o fazem muitas firmas tradicionais de investimento de risco. Na ArcSight, representantes da In-Q-Tel deram sugestões sobre o software a ser desenvolvido. Segundo a diretoria da ArcSight, essas sugestões resultaram em melhores produtos não só para a CIA, mas também para os demais consumidores. "Eles são, de longe, o investidor mais participativo e útil que já tivemos", afirma Shaw.

É importante observar que as empresas da In-Q-Tel vendem para outras companhias e para os demais consumidores, e não só para a CIA ou o governo. A In-Q-Tel trabalha para fazer das suas empresas negócios viáveis e saudáveis. "A agência relutaria em confiar nas tecnologias desenvolvidas por companhias frágeis", afirma Stephen Mendel, que gerencia o escritório da In-Q-Tel no Vale do Silício. "A CIA não quer ficar com tecnologias obsoletas quando há vidas em perigo", acrescenta.

O que é sucesso
O difícil é avaliar o sucesso da In-Q-Tel. Será que ela vai ganhar dinheiro? Provavelmente. Vários companhias da In-Q-Tel vão muito bem. Dentre as 59 companhias nas quais a In-Q-Tel investiu, 39 estão operando com sucesso. E especialistas no Vale do Silício garantem que o índice de sucesso da In-Q-Tel é maior do que o da maior parte das principais firmas de investimento de risco.

Quando a In-Q-Tel obtém lucro, o dinheiro volta a ser investido em outras companhias. Louie espera que um dia a In-Q-Tel seja capaz de se auto-sustentar, exigindo pouco dinheiro do contribuinte.

Mas dinheiro não é a questão importante. O real indicador do sucesso da In-Q-Tel é a quantidade de tecnologia que a empresa insere na CIA, e a ajuda que presta à atividade de inteligência dos Estados Unidos.

"Estamos investindo para fazer diferença em algo muito grande", explica Mendel, da In-Q-Tel.

No entanto, esse sucesso não pode ser diretamente observado. As empresas não falam sobre especificidades e muitas vezes não sabem o que se passa no interior da CIA. "Podemos concluir que eles gostam dos nossos produtos, porque continuam pedindo mais", diz John Laing, o presidente da Inxight.

Os observadores da CIA também não são capazes de avaliar a magnitude do sucesso. "Honestamente, não tenho uma imagem nítida do que está ocorrendo", diz Steven Aftergood, da Federação de Cientistas Americanos. Mesmo assim, ele diz que foi uma boa idéia fazer com que a CIA recorresse à tecnologia produzida pelo setor privado.

E a visão da CIA? "Estamos extremamente satisfeitos", afirma Krongard. "Não posso entrar em detalhes, mas a In-Q-Tel deu contribuições significativas".

Louie oferece esta síntese: a In-Q-Tel investiu US$ 150 milhões, e o resultado foram 22 novas tecnologias inseridas em 40 programas do governo. Isso é o máximo que ele pode falar.

"O projeto excedeu em muito tudo aquilo que esperávamos quando tivemos a primeira reunião", diz Augustine. Mas ele recomenda um toque de cautela, apropriado à CIA, que se apegou durante muito tempo a métodos antigos para a obtenção de novas tecnologias. "Nenhuma idéia é boa para sempre", adverte. "Temos que observar o que acontecerá com o passar do tempo". Danilo Fonseca

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