Legislações americanas querem proibir distrações ao volante

Por Debbie Howlett

Quase no mesmo instante em que o membro da Assembléia Legislativa de New Jersey, Doug Fisher, propôs, no segundo trimestre do ano passado, a proibição da "direção distraída" - termo que inclui procedimentos como comer um "bagel" (um tipo de rosca), ou falar ao telefone celular enquanto se está ao volante -, a medida foi ridicularizada.

Os disc jockeys das estações de rádio, que se referem à medida como "DWE" (iniciais em inglês para o termo "comer enquanto dirige"), fizeram piadas com o fato de se procurar proibir motoristas de comer ao volante, chamando a iniciativa de Fisher de "lei sanduíche de presunto". Mas não se trata de assunto para risos. A Administração Nacional de Segurança de Transportes nas Estradas calcula que até 30% dos três milhões de acidentes anuais podem ser atribuídos à direção distraída.

"As pessoas acreditam que fazer o que querem no interior dos seus veículos se constitui em um direito básico", diz Fisher. "Elas estão literalmente lendo jornais enquanto dirigem pela auto-estrada I-95".

A questão dos motoristas distraídos se concentrou, nos últimos anos, no uso de telefones celulares. Nova York se tornou o primeiro Estado a proibir o uso de telefones celulares ao volante, em 2001. Nova Jersey se tornará o segundo Estado em julho, após a aprovação de uma lei semelhante no mês passado. E Washington, D.C. também aprovou a proibição de celulares ao volante no mês passado. A medida vai entrar em vigor na capital norte-americana em julho. Em Nova Jersey, a chamada lei DWE de Fisher foi suavizada para incluir apenas o uso de telefones celulares.

Os motoristas querem ser produtivos
Mas Fisher afirma que os Estados terão que lidar de forma mais abrangente com a questão dos motoristas distraídos. "Há mais carnificina nas estradas devido às distrações", garante.

Motoristas já foram flagrados comendo, lendo, conversando ao telefone, fazendo a barba, se penteando, enviando e-mails, assistindo a vídeos e mudando CDs enquanto dirigem. E todas essas atividades fazem com que a atenção se desvie da estrada.

Uma pesquisa Mason-Dixon, feita no segundo trimestre do ano passado, revelou que 91% dos motoristas entrevistados disseram ter se engajado em algum tipo de comportamento de risco quando ao volante, incluindo correr, comer, ou ler, durante os seis meses anteriores.

No mês passado, a polícia de Albany, no Estado de Nova York, mencionou um motorista que assistia a um filme de DVD, com cenas de sexo explícito, em uma tela embutida no quebra-sol do passageiro, no seu Mercedes.

O motivo para todas essas atividades paralelas é óbvio. Os motoristas estão passando mais tempo nas estradas - em média 300 horas em 2002, segundo o Instituto de Transportes do Texas - e querem ser produtivos durante este período.

No ano passado, dez Estados estudaram a adoção de leis que procurassem desencorajar esses hábitos ao volante. A maior parte dessas leis permitiria à polícia multar os motoristas desatentos, caso estes fossem parados por excesso de velocidade ou outros motivos.

As medidas propostas geralmente não especificam quais são os comportamentos proibidos, mas dão à polícia o poder de determinar os atos que se constituem em distrações. Nenhuma das leis foi aprovada, embora a California e a Louisiana tenham proibido a instalação de monitores de vídeo no campo de visão do motorista.

"A tendência emergente é lidar com uma ampla gama de comportamentos dos motoristas", diz Matt Sundeen, da Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais. "Ainda estamos no início do ano, mas continuamos a ver legislações que abordam o problema sob uma ótica ampla".

Alguns defensores das leis de segurança nas estradas estão se voltando para as campanhas educativas. Na Califórnia e no Arizona, a companhia de seguros 21st Century Insurance está usando painéis à beira das estradas para divulgar a sua mensagem. Um dos painéis mostra o desenho de um motorista olhado para o ketchup que escorre do seu hambúrguer. A legenda diz, "O Restaurante mais Perigoso do Mundo".

"Para nós, é uma propaganda óbvia", explica Larry Krutchik, vice-presidente da companhia. "Ela veicula uma mensagem de segurança de forma leve, a fim de lembrar a nós todos que a direção distraída não é motivo de riso. A resposta à propaganda tem sido tremenda".

Mas, será que um lanche com excesso de molho é mais distrativo do que a utilização de um telefone celular?

Um estudo da Universidade da Califórnia, divulgado em agosto do ano passado pela AAA (Associação Automobilística Americana), mostrou que os motoristas têm mais propensão a saírem de suas rotas quando comem ou tentam pegar algum objeto no interior do veículo.

Monitorando os motoristas por vídeo
Para a realização do estudo, 70 motoristas foram monitorados por câmeras de vídeo. Em vários episódios, 30% deles usaram o telefone celular, 90% mexeram nos controles do aparelho de som e 97% se inclinaram para pegar algum objeto. Ao todo, os motoristas estavam distraídos 16% do período em que dirigiam.

As leis relativas a telefones celulares se limitaram a proibir o uso de aparelhos de mão, significando que os motoristas podem usar no automóvel um conjunto composto por fone de ouvido e microfone.

A Verizon Wireless apóia as medidas estaduais para banir os telefones celulares de mão ao volante. A companhia chegou a prestar depoimento favorável às legislações de Nova York e Nova Jersey.

Mas a posição da indústria de telefonia celular é de que todas as modalidades de direção distraída - e não só o uso do telefone celular - deveriam ser abordadas por meio da educação, e não com legislações restritivas.

"Quanto mais os motoristas tiverem as duas mãos sobre o volante, melhor", afirma o porta-voz da Verizon Wireless, Jeffrey Nelson. "Mas isso é intuição, e não ciência. É preciso haver mais ciência nesse processo para que sejam divulgadas boas políticas públicas".

A ciência está começando a levar o problema a sério. Um estudo feito pela Universidade de Utah, que deve ser publicado no final deste ano, está entre os primeiros a medir o efeito distrativo do uso de telefones celulares, um fenômeno denominado "cegueira não intencional". Os pesquisadores descobriram que os motoristas que usam telefones celulares são mais perigosos do que os que dirigem embriagados.

Usando um simulador de direção, os pesquisadores monitoraram a performance de motoristas, após estes terem ingerido vodka e suco de laranja, até que o nível de álcool no sangue ultrapassou 0,08%, o limite legal para que se dirija na maioria dos Estados. Quando legalmente bêbados, os motoristas tiveram menos acidentes e apresentaram reações mais rápidas do que quando estavam sóbrios e falando ao celular.

"Existe uma grande diferença em termos de incapacitação cognitiva. O telefone celular tira o motorista do ambiente físico. A pessoa realmente se desliga do mundo", alerta David Strayer, o professor de psicologia responsável pelo estudo.

Saber se falar ao telefone celular representa um risco maior do que outras atividades, quando se está ao volante, não é tão importante quando impedir todo tipo de direção distraída, diz Fisher, o parlamentar de Nova Jersey.

Ele foi literalmente abalroado pela questão em maio do ano passado. O parlamentar dirigia rumo a Trenton, para falar sobre a sua legislação contra a direção distraída, quando o seu carro foi atingido por trás. O outro motorista, um âncora de uma estação local de TV, não viu que Fisher tinha pisado no freio, porque se inclinara para pegar uma laranja. Danilo Fonseca

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