Saúde frágil do papa gera questões sobre e limite de mandato

Por Ellen Hale
EM ROMA

O papa que bateu mais recordes do que qualquer outro quebrará mais um no próximo domingo, quando se tornará o segundo pontífice que mais tempo serviu nos 2.000 anos de história da Igreja Católica. Entre os líderes mundiais atuais, somente os ditadores Fidel Castro e Moammar Kadhafi estavam no cargo quando João Paulo II foi eleito, há 25 anos e cinco meses.

Mas, se a longevidade robusta do papa serve de modelo de graça para muitos, para outros inclui sérias implicações para futuros papados. Ela poderá gerar uma nova política de limites de tempo para o cargo, o que antes era impensável. Poderá também provocar a adoção de procedimentos para lidar com papas incapacitados.

"Está na cara, não é? Um papa morrendo diante das câmeras. Eles vão ter que lidar com isso", disse o reverendo Gerald O'Collins, acadêmico bíblico da Universidade Gregoriana Pontifícia de Roma.

O "eles" a quem O'Collins refere-se é o Colégio de Cardeais, com cerca de 120 cardeais que nomearão um sucessor depois da morte do papa João Paulo II. Observadores do Vaticano acreditam que será selecionado alguém mais velho -com 60/70 anos- para garantir um pontificado mais curto. Muitos também acreditam que o candidato compreenderá a necessidade de abordar o dilema moderno da vida longa.

"As pessoas entendem agora como um pontificado longo pode ser prejudicial", diz o reverendo Richard McBrien, professor de teologia da Universidade Notre Dame, em Indiana. Um dos problemas é que "um homem só coloca um selo muito profundo na igreja e em sua liderança", diz ele. O resultado é uma falta de reavaliações.

McBrien e outros defendem mudanças na lei canônica similares à 25a Emenda da Constituição dos EUA, que provê a substituição do presidente, caso torne-se incapacitado.

João Paulo II, que completará 84 anos em maio, tinha 58 quando foi nomeado papa. No dia 14 de março, ele superará o papa Leo XIII, que serviu 25 anos e cinco meses. Nenhuma cerimônia foi programada, de acordo com o Vaticano.

Em seus anos de pontificado, João Paulo II testemunhou um período de mudanças na história mundial de tirar o fôlego e foi debilitado por uma série de sérios problemas de saúde -e muito públicos. Seu papado viu a queda do comunismo e a ascensão do terrorismo internacional, assim como revoluções técnicas nos ramos da informação e da medicina e culturais, em direitos femininos e comportamento sexual. Enquanto isso, ele sobreviveu a uma tentativa de assassinato e várias cirurgias, combateu a artrite e agora luta contra sintomas cada vez mais debilitantes da doença de Parkinson.

"Ele esteve no centro dos eventos mundiais por mais tempo do que qualquer outra pessoa", disse George Weigel, que escreveu a biografia oficial do papa, "Witness to Hope" (testemunha da esperança). Weigel é co-diretor do Centro de Ética e Política Pública em Washington, D.C.

A longevidade do papa, entretanto, desafia o ditado antigo de que não existem papas doentes -só mortos. Diante das câmeras de televisão, o mundo todo viu seus assessores secarem baba de sua boca, sua voz hesitar por alguns minutos e seus esforços para manter a cabeça erguida.

O impacto da doença e do longo papado, dizem alguns, poderá levar à imposição de limites de idade ao próximo pontificado. Afinal, os bispos devem renunciar aos 75 anos, os cardeais não podem votar para papa depois dos 80 anos e chefes de departamento do serviço civil do Vaticano são forçados a se aposentar aos 75.

Até mesmo o cardeal Joseph Ratzinger, diretor do Colégio de Cardeais, sugeriu a possibilidade da adoção de prazos máximos. Em entrevista no mês passado à revista Famiglia Cristiana, Ratzinger admitiu que, como as pessoas hoje vivem mais, "também se deveria considerar novas normas".

"A questão está na mesa", diz Gerard O'Connell, jornalista veterano que trabalha na UCA News Agency. O'Connell diz que conversou com vários cardeais, que lhe disseram que vão estudar a possibilidade de limites de mandato: "É algo que eles falam entre si."

Poucos papas abdicaram e não se espera que João Paulo II o faça. Mas os temores que ainda tenha longa vida -ou torne-se mentalmente incompetente com a doença de Parkinson- estão levantando uma discussão de como a igreja deveria lidar com um pontífice incapacitado.

"Há um amplo reconhecimento de que isso é uma falha na lei da igreja. Perguntei a todo mundo na hierarquia o que aconteceria, se ele ficasse totalmente incapacitado. A resposta foi sempre a mesma: 'Não sabemos. Daremos um jeito'", diz John Allen, correspondente da National Catholic Reporter em Roma, uma das fontes mais autorizadas sobre o Vaticano.

Os esforços para lidar com pontífices envelhecidos podem sair pela culatra, como atesta a história papal. Depois do aparentemente interminável papado de 32 anos de Pius IX, o Colégio de Cardeais quis escolher um substituto que não ficasse tanto tempo na cadeira. Assim, escolheu o papa Leo XIII, de 68 anos. Seu papado acabou sendo o segundo mais longo, prestes a ser superado pelo papa João Paulo II.

Os cinco mais longos papados:
São Pedro (século 1) As datas são desconhecidas, mas é homenageado como o mais longo papado
Papa Pio IX (1846-78) 31 anos, 7 meses, 21 dias
Papa Leão XIII (1878-1903) 25 anos, 5 meses
Papa João Paulo (1978-presente) 25 anos, 5 meses
Papa Pio VI (1775-99) 24 anos, 6 meses, 8 dias

fonte: Our Sunday Visitor's Catholic Almanac, editado por Matthew Bunson. Deborah Weinberg

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