Ex-jornalista do USA Today forjou grandes reportagens

Por Blake Morrison

Após passar sete semanas examinando o trabalho do ex-jornalista do "USA Today", Jack Kelley, uma equipe de jornalistas encontrou fortes evidências de que Kelley forjou porções substanciais de pelo menos oito grandes reportagens, retirou mais de vinte citações ou outros materiais de publicações concorrentes, mentiu nas declarações que deu ao jornal e conspirou para enganar aqueles que investigavam o seu trabalho.

Talvez a transgressão mais flagrante de Kelley tenha ocorrido em 2000, quando ele usou uma foto de uma funcionária de um hotel cubano para autenticar uma história que forjou sobre uma mulher que morreu fugindo de Cuba de barco. A mulher na foto não fugiu de barco, e tampouco morreu, e um jornalista do "USA Today" a localizou neste mês. Segundo a funcionária, se as autoridades cubanas soubessem que era a mulher da foto, ela poderia ter perdido o emprego e a chance de emigrar.

Kelley, 43, pediu demissão do jornal em janeiro deste ano, após admitir ter conspirado, juntamente com um tradutor, para ludibriar os editores que conduziam uma investigação do seu trabalho. À época, os editores do jornal disseram não serem capazes de determinar se Kelley teria exagerado ou fabricado as suas matérias.

Após a saída de Kelley, teve início uma nova investigação, estimulada pelos temores de que ele tivesse cometido plágio. Uma equipe de cinco jornalistas e um editor, monitorados por uma comissão de três ex-editores sem vínculos com o jornal, examinou mais de 720 matérias escritas por Kelley entre 1993 e 2003. Cada uma delas foi examinada por pelo menos dois membros da equipe.

As matérias foram consideradas forjadas nos casos em que relatórios, registros telefônicos, documentos oficiais ou testemunhas contradiziam nitidamente tudo ou parte daquilo que foi publicado, e as explicações de Kelley não conseguiam explicar tais contradições.

Os três ex-editores passaram cerca de 20 horas entrevistando Kelley. Ao longo dessas entrevistas, ele insistiu em dizer que nada fez de errado e exigiu a conclusão rápida da investigação do jornal. "Nunca forjei ou plagiei qualquer coisa", disse Kelley.

Na última quinta-feira, ao ser confrontado com as descobertas do jornal, Kelley passou duas horas e meia negando novamente ter feito qualquer coisa de errado. "Sinto que fui vítima de uma armação", disse ele aos jornalistas.

Mas um exame meticuloso de 100 das 720 matérias revelou evidências de que os pecados jornalísticos de Kelley foram amplos e substanciais. Essas evidências contradizem bastante as matérias publicadas por Kelley, que dizem que ele passou uma noite com terroristas egípcios, em 1997; que encontrou um colono judeu justiceiro chamado Avi Shapiro, em 2001; que viu um estudante paquistanês desdobrar uma foto da Sears Tower e dizer, "Essa aí é minha", em 2001; que visitou um local na fronteira entre Afeganistão e Paquistão suspeito de ser um ponto de passagem de terroristas, em 2002; que entrevistou a filha de um general iraquiano, em 2003; ou que participou de uma caçada de alta velocidade a Osama Bin Laden, em 2003.

Além disso:
- Partes significativas de uma das matérias mais interessantes de Kelley, a narrativa, como testemunha ocular, de um ataque suicida a bomba, que o ajudou a ser um dos finalistas do Prêmio Pulitzer 2001, são inverídicas. Kelley disse aos leitores que viu o homem-bomba. Mas o homem descrito não poderia ser o autor do atentado.
- As explicações de Kelley sobre como fez matérias no Egito, Rússia, Tchetchênia, Kosovo, Iugoslávia, Israel, Cuba e Paquistão entraram em contradição com registros de hotel, telefone e outras fontes que, segundo ele, confirmariam as suas histórias.
- Kelley escreveu roteiros que ajudaram pelo menos três pessoas a enganar jornalistas do "USA Today" que tentavam verificar o seu trabalho, segundo demonstraram documentos recuperados do computador utilizado por ele no jornal. Duas dessas pessoas eram tradutores, cujos serviços foram pagos por Kelley meses ou anos atrás. Um outro é um empresário de Jerusalém, descrito por Kelley como um agente secreto israelense.
- Em discursos dirigidos a grupos como a Associação de Imprensa Evangélica, Kelley falou sobre eventos jamais ocorridos.

"A conduta de Kelley representa uma traição triste e vergonhosa da confiança pública", disseram em uma declaração os editores do jornal, Bill Hilliard, Bill Kovach e John Siegenthaler. Os três editores disseram que sua "análise da forma como esses abusos ocorreram será concluída em um futuro próximo". Os jornalistas Michael Hiestand, Kevin McCoy, Blake Morrison, Rita Rubin e Julie Schmit investigaram o trabalho de Kelley.

Toda a carreira de 21 anos de Kelley foi passada no "USA Today". Os editores o indicaram cinco vezes para concorrer ao Prêmio Pulitzer. Agora, a editora Karen Jurgensen disse que o jornal retirou todas as indicações ao prêmio feitas em nome de Kelley. O jornal vai também exibir matérias suspeitas no seu arquivo online.

"Como instituição, desapontamos os nossos leitores ao não reconhecer os problemas de Jack Kelley. Por esse motivo, pedimos desculpas", disse o editor do "USA Today", Craig Moon. "No futuro, garantiremos que seja criado um ambiente no qual tais abusos nunca mais venham a ocorrer". Danilo Fonseca

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