Novo líder da Espanha quer alterar a guerra ao terror

Por John Diamond
DE MADRI

O recém eleito líder socialista da Espanha não só quer trazer os soldados espanhóis de volta do Iraque, mas transformar a guerra ao terrorismo: em vez de uma batalha conduzida por soldados, quer uma guerra de espiões.

Acusado pelo governo Bush de ceder aos terroristas, o primeiro-ministro eleito, Jose Luis Rodiquez Zapatero, disse a um importante jornal espanhol que a invasão do Iraque liderada pelos EUA foi um "grande erro", que agravou a ameaça terrorista. A chave para o sucesso, disse Zapatero ao El Pais, não é a ação militar e sim a capacidade de inteligência.

"A guerra é o último recurso e, em todos os casos, é apenas um instrumento de contenção entre países. Nunca pode ser um método eficaz de eliminar ou combater fanáticos, radicais ou grupos criminosos", disse ele. "Acho que o governo americano entenderá que o que aconteceu no Iraque prova que esse não é o caminho."

Os espanhóis tiraram o partido conservador do governo e elegeram Zapatero, três dias após o atentado de 11 de março que explodiu quatro trens de passageiros em Madri, matando 202 pessoas e ferindo 1.800. Os conservadores tinham prestado forte apoio à invasão americana do Iraque, e as pesquisas mostraram que muitos eleitores acreditavam que os ataques tinham sido uma retribuição a esse apoio.

A posição de Zapatero questiona diretamente a abordagem militar intensiva do governo Bush à guerra ao terrorismo. As divergências que estão emergindo na Espanha representam a maior cisão de Washington com um aliado europeu desde que a França opôs-se à política de Bush no Iraque, no ano passado.

Aludindo à determinação de Zapatero de retirar seus 1.300 soldados do Iraque, Bush disse aos líderes diplomáticos na sexta-feira: "Qualquer sinal de fraqueza ou retirada simplesmente valida a violência terrorista."

As observações de Zapatero foram feitas às vésperas de uma reunião de ministros de segurança da União Européia em Madri, para discutir estratégias de combate ao terrorismo, e três dias antes da missa pelas vítimas em Madri que contará co a presença do primeiro-ministro britânico Tony Blair. Segundo o jornal El Mundo, o chanceler alemão Gerhard Schroeder e o presidente da França Jacques Chirac também participarão da cerimônia.

O governo socialista eleito recusou no domingo uma oferta de negociação com o grupo separatista basco ETA. O grupo rebelde elogiou o plano de retirada de tropas espanholas do Iraque e disse que Zapatero também devia mudar drasticamente a política em relação à autonomia basca.

O governo que sai, do primeiro-ministro Jose Maria Aznar, inicialmente culpou o ETA pelos atentados aos trens, mas as evidências apontaram para militantes islâmicos. A investigação associou alguns dos suspeitos presos a células terroristas na Espanha e Marrocos, com elos com a Al Qaeda.

Apesar do ataque devastador de quatro trens lotados ter sido imediatamente apelidado de "11 de setembro europeu", o método e a reação foram diferentes.

A missão de 11 de setembro era suicida. As bombas de Madri foram detonadas por controle remoto, usando telefones celulares. Dez bombas escondidas em mochilas esportivas e colocadas nos trens explodiram; três não. Foram pistas obtidas nessas três que levaram a polícia a Jamal Zougam, um marroquino que mora em Madri, suspeito de organizar os atentados.

Zougam chorou e negou seu envolvimento diante do tribunal na sexta-feira. Além dele, foram acusados seu meio irmão, um terceiro marroquino e dois muçulmanos indianos. Há cinco outros presos, incluindo um espanhol, que teria ajudado o grupo de Zougam a roubar os explosivos e quatro outros africanos, três deles também marroquinos.

Depois de 11 de setembro, Bush delineou uma guerra ao terrorismo de cinco frentes, mas sua principal ação era militar: o envio de tropas ao Afeganistão.

Na Espanha, a palavra-chave desde o atentado tem sido "paz", expressa em manifestações e em mensagens deixadas na estação de trem próxima de onde ocorreram as explosões. A principal medida anunciada por Zapatero logo após sua vitória não foi a de enviar soldados, mas trazê-los para casa.

Cerca de 10.000 espanhóis lotaram a Puerta del Sol em Madri, no sábado, em manifestação contra a guerra no Iraque. Eles diziam "no a la guerra" e carregavam cartazes com dizeres contra Bush e o papel americano no Iraque.

No domingo, um grupo da considerável população muçulmana em Madri reuniu-se na mesma praça, para se opor ao terrorismo.

"Somos muçulmanos, não terroristas", repetiam cerca de 75 marroquinos. Deborah Weinberg

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