Taiwan prepara a recontagem de eleição presidencial contestada

Por Paul Wiseman
DE TAIPÉ, Taiwan

Taiwan está se preparando para uma repetição daquilo que os eleitores americanos passaram na Flórida há quatro anos: uma recontagem divisora após uma disputa eleitoral presidencial decidida por um punhado de votos dados em circunstâncias contestadas.

A Suprema Corte de Taiwan selou as urnas no domingo em preparação para a provável recontagem, um dia após o presidente Chen Shui-bian e a vice-presidente Annette Lu terem sido reeleitos por uma fração de um ponto percentual. A vitória por margem estreita ocorreu dois dias depois de ambos terem sobrevivido a uma misteriosa tentativa de assassinato que lhes proporcionaram votos por simpatia.

Chen derrotou seu opositor Lien Chan por 50,1% contra 49,9% -meros 29.518 votos entre mais de 12,9 milhões depositados nas urnas. Lien se recusou a reconhecer a derrota. Os simpatizantes de seu Partido Nacionalista (e do parceiro de coalizão, Partido Povo Primeiro) organizaram protestos que se tornaram violentos na madrugada de domingo nas cidades de Kaohsiung e Taichung. "O mundo todo está assistindo esta farsa ridícula", disse na noite de sábado um legislador nacionalista, Hong Hsiu-chu.

Mas enquanto a revolta ardia em cidades de Taiwan, os resultados da eleição provavelmente reduzirão outra fonte de tensão: os eleitores taiwaneses rejeitaram o referendo controverso defendido pelo atual presidente, que aumentava a chance de Taiwan declarar sua independência. Se o referendo fosse aprovado, ele poderia provocar um conflito com a China.

O governo comunista de Pequim considera Taiwan como uma província desgarrada e deseja retomá-la, à força se necessário. Talvez pelo fato do referendo ter sido rejeitado, a China não reagirá com fúria à notícia da vitória de Chen.

A fúria estava toda na própria Taiwan. Os partidos de oposição taiwaneses estão exigindo uma recontagem e buscando que a Justiça anule o atual resultado. Eles dizem suspeitar que:

- Dos 337.297 que foram anulados na noite da eleição. Isto representa 11 vezes a margem de vitória de Chen e um aumento em relação aos 122.278 votos declarados nulos na última eleição presidencial, em 2000. Há alguma especulação de que o aumento de votos nulos foi resultado não de trapaça, mas sim da campanha popular de protesto Aliança para Um Milhão de Votos Inválidos, que pediu aos eleitores que anulassem seus votos para mostrar seu descontentamento com ambos os candidatos.

- As circunstâncias em torno do atentado contra Chen e Lu na sexta-feira, em T'ainan, a cidade natal de Chen. Ambos sofreram ferimentos leves e foram rapidamente liberados do hospital. "Eu acho que não ocorreu nenhuma tentativa de assassinato", disse Jenny Hsiung, uma engenheira de 22 anos e eleitora de Lien. "Eu acho que foi uma farsa."

Nenhum suspeito foi pego. Taiwan tem um baixo índice de porte de arma e pouca violência relacionada com armas. Os nacionalistas estão perguntando o motivo de Chen ter sido levado para um pequeno hospital privado para tratamento em vez de um maior e mais próximo do local do atentado, além de preparado para lidar com uma emergência presidencial. "Estas coisas estão cheirando muito mal", disse um consultor de campanha nacionalista, Su Chi. "A única explicação é que ele queria ir para um hospital que pudesse controlar."

O Partido Democrático Progressista de Chen disse que não há nada sinistro na escolha; o hospital privado também estava preparado para cuidar do presidente e da vice-presidente.

Su Chi disse que as pesquisas internas dos nacionalistas na véspera da eleição apontavam para Lien vencendo por pelo menos 5 pontos percentuais. "O atentado da tarde de sexta-feira claramente reverteu a tendência", disse ele. Uma pesquisa feita pelo jornal "United Evening News" de Taiwan concluiu que o atentado conquistou para Chen cerca de 120 mil votos por simpatia.

Além disso, um alerta de segurança nacional imposto após o atentado fez com que muitos oficiais militares taiwaneses, que tendem a apoiar a oposição nacionalista, permanecessem em serviço no sábado e incapazes de votar. Lien estava visivelmente enfurecido e próximos das lágrimas quando discursou para milhares de simpatizantes em Taipé, após a votação na noite de sábado. "Esta foi uma eleição injusta", disse Lien. Ele prometeu tentar anular os resultados.

A campanha foi incomumente divisora mesmo para uma jovem democracia conhecida por sua política briguenta. Chen encenou uma vitória de virada provocando a China, a vizinha e rival de Taiwan, e explorando o ressentimento local para com a minoria de chineses "do continente", que fugiram para Taiwan depois que os comunistas assumiram o controle da China em 1949. Os chineses do continente formam a base do Partido Nacionalista.

Apesar dos alertas dos Estados Unidos, do Japão e de outros países, Chen arriscou um confronto com a China ao realizar um referendo juntamente com a eleição presidencial. O referendo perguntava aos eleitores duas questões basicamente simbólicas: se queriam aumentar as defesas contra os cerca de 500 mísseis que a China tem apontados contra Taiwan, ou se queriam negociar com a China formas de estabelecer a paz e a estabilidade. A maioria dos eleitores ignorou as perguntas; conseqüentemente, elas não conseguiram conquistar os 50% necessários para aprovação.

O referendo foi controverso porque a China o viu como um ensaio para um futuro referendo para a independência de Taiwan. Após a votação, Pequim emitiu uma declaração: "O referendo provou ser inválido. (...) Qualquer tentativa de separar Taiwan da China está fadada ao fracasso".

Os analistas financeiros ainda temem que o caos político abale o mercado de ações de Taipé. O Bloomberg Business News noticiou que Taiwan dispõe de cerca de US$ 3 bilhões prontos para sustentar os preços das ações. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos