Em meio à intifada, mães palestinas fazem escolhas dolorosas

Por Ellen Hale
EM QALQILYA, CISJORDÂNIA

Durante três meses todos os anos, quando os seus filhos retornam da faculdade no período de férias, Rasmiya Hannoun as mantém presas em sua própria casa.

Com medo dos soldados israelenses que patrulham o muro de segurança que rodeia a casa, e apavorada com a idéia de que os filhos possam ser atraídos por um grupo terrorista palestino, ela os tranca a residência com cadeados.

Fadi, 23, matriculado na Universidade do Cairo, passa tanto tempo levantando pesos que se parece com o seu herói do cinema, Jean-Claude Van Damme. Hadi, 19, aluno da Universidade Nacional An-Najah, em Nablus, joga sem parar no seu computador. E a filha Shatha, 24, que também estuda na Universidade do Cairo, assiste à televisão. Confinados, frustrados e entediados, os filhos mal podem esperar para sair de casa.

"Shatha diz que prefere se matar a voltar para cá", diz Hannoun, 55, uma psicóloga que leciona em An-Najah. "Dá para entender agora o que é ser mãe aqui?".

Em um conflito onde os filhos correm o risco constante de se tornarem vítimas acidentais da violência, ou de serem tragadas pelo perigoso ativismo, as mães palestinas enfrentam obstáculos e dilemas que pouca gente no mundo ocidental pode imaginar. Algumas, como Rasmiya Hannoun, adotam medidas radicais para proteger os filhos.

Pobreza, falta de escolaridade e desemprego fazem com que grande parte delas tenha pouco controle sobre os filhos. Outras, ficam dividas entre as expectativas religiosas e os instintos básicos da maternidade. "Tenho que atender a um número enorme de mães que desejam manter os filhos trancados, e até mesmo longe da escola, devido ao medo dos ataques a bomba desfechados pelas tropas israelenses", diz o famoso psiquiatra da Faixa de Gaza, Eyad al-Sarraj. Ele ouve também os desabafos das mães atormentadas pela culpa, porque não querem sacrificar os filhos como mártires por um Estado palestino.

Em três anos e meio de intifada, o levante contra a ocupação israelense do território palestino, 426 crianças e adolescentes palestinos foram mortos na luta, mais da metade deles com menos de 15 anos de idade, segundo o Grupo de Monitoramento dos Direitos Humanos, uma organização palestina. Segundo o grupo, cerca de 92 jovens israelenses com menos de 18 anos também morreram devido à violência. Mais de 2.800 palestinos e 870 israelenses foram mortos desde a erupção do conflito em setembro de 2000.

Na última quarta-feira, as forças de defesa de Israel anunciaram a detenção de um garoto de 16 anos, de Nablus, com um colete recheado de explosivos atado ao corpo. Uma semana antes, os soldados israelenses descobriram um garoto de 11 anos que, aparentemente sem saber o que fazia, tentava levar uma bomba em uma bolsa até um posto de revista policial.

As autoridades israelenses alegam que esses casos indicam um aumento da utilização de crianças e adolescentes por grupos palestinos para que realizem ataques terroristas, incluindo as ações suicidas a bomba - e refletem o sucesso das medidas de segurança draconianas adotadas por Israel.

Palestinos e israelenses, incluindo grupos palestinos que realizam as chamadas missões de martírio, condenaram ambos os incidentes. Mas os líderes palestinos também questionaram as alegações dos israelenses, e sugeriram que o garoto com o colete repleto de bombas faria parte de uma operação enganosa montada pelos militares judeus para atrair simpatias e desviar as atenções mundiais do recente assassinato por Israel do líder do Hamas, xeque Ahmed Yassin.

"Não temos controle"
Qualquer que seja a verdade, os incidentes e a atenção generalizada a eles dispensada reforçaram a sensação de que algumas mães odeiam mais os judeus do que amam os seus filhos, uma crença que teria sido expressa décadas atrás pela ex-primeira-ministra israelense Golda Meir.

Eugene Rogan, chefe da cadeira de estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Oxford, na Inglaterra, diz que, ao enfatizar o papel desempenhado por crianças e adolescentes no conflito, o governo israelense procura pintar as mães israelenses como "más mães".

"Essa imagem de que a família palestina é diferente precisa ser revista - ela não é verdadeira e não nos leva a lugar algum", adverte Arieh Shalev, diretor do departamento de psiquiatria do Hospital da Universidade Hadassah. "Nas famílias que atendemos nas instalações do hospital em Mount Scopus, em Jerusalém, não vemos quaisquer diferenças: eles amam as suas crianças e cuidam delas como qualquer outra família".

Mesmo assim, Shalev alerta que criar os filhos é, na melhor das hipóteses, "muito difícil" nas zonas de conflito.

"É quase impossível ser uma boa mãe nas circunstâncias em que vivemos. Não temos controle sobre nada", admite Wasfiya Idris, 60, cuja filha, Wafa, a primeira mulher-bomba, detonou a carga explosiva que trazia atada ao corpo em Jerusalém, em janeiro de 2002. Uma parede da pequena casa de Wasfiya, no campo de refugiados Al-Amri, nos limites da cidade de Ramalá, na Cisjordânia, está coberto com um pôster de Wafa, que vai do chão ao teto, elogiando a sua missão de martírio. Três dos netos de Idris brincam na casa arruinada, ou ficam confinadas em um pequeno quintal. Ao contrário do que ocorreu com a maioria das famílias de militantes suicidas, a casa de Idris não foi demolida, talvez porque esteja tão colada a outras residências.

Mas, sugerir que ela fracassou como mãe porque a filha se tornou uma mulher-bomba, é algo que não faz justiça a Idris. "Se eu soubesse das intenções de Wafa, eu a teria escondido sob a cama. Quem quer que diga estar feliz quando o filho se transforma em mártir está mentindo".

"O meu maior temor é que os meus filhos sejam tragados pelo movimento", diz Mervat Idris, 31, cunhada de Wafa, cujo marido foi recentemente preso pelas forças armadas israelenses pelo seu suposto envolvimento com o grupo militante Brigadas dos Mártires Al-Aqsa, que operaria no campo de refugiados.

Estudos sobre as mães e as crianças palestinas sugerem o quanto é difícil criar os filhos aqui. Em uma pesquisa com 800 crianças da Faixa de Gaza, com idades entre 12 e 16 anos, feita por Sarraj no verão passado, 36% dos meninos e 17% das meninas disseram que morrer como mártir "é a melhor coisa da vida". Segundo ele, essa descoberta não chega a ser uma surpresa. "A vida aqui é dominada por essa luta".

"Aos 12 anos de idade, as crianças começam a procurar por modelos a serem seguidos. Nos Estados Unidos vocês têm artistas e atletas", diz Sarraj. "Nesta nossa parte do mundo, o negócio é ser mártir".

Para tornar o problema mais complexo, há a imagem que os filhos têm dos pais, muitos dos quais foram presos ou assassinados. Até mesmo os pais que estão presentes são freqüentemente vistos como impotentes face ao poderio militar israelense, diz Sarraj.

As crianças também são testemunhas freqüentes da demolição de casas palestinas pelo exército israelense, uma forma de punir a família dos militantes e também uma advertência a quem quer que deseje se juntar a intifada.

Maternidade versus martírio
As mães religiosas passam por um conflito particular quando se trata de criar os filhos. No islamismo, a vida na terra é considerada um teste para o ingresso no céu. Morrer como mártir assegura a ascensão imediata ao paraíso. Sarraj conta um incidente, ocorrido na semana passada, envolvendo uma mulher devota que padecia de uma culpa imensa porque o filho não parava de lhe dizer que desejava morrer como mártir. "Não quero que ele morra", disse a mãe a Sarraj. "Mas, ao mesmo tempo, sou uma boa muçulmana".

Os especialistas descartam as alegações de que qualquer mãe palestina desejaria que o filho morresse como mártir, ainda que as mães dos homens-bomba sejam freqüentemente citadas como pessoas que se enchem de glória com a morte dos filhos. Segundos os especialistas em saúde mental, tais comentários têm como objetivo demonstrar força e suavizar a pressão política e comunitária.

"Famílias são semelhantes em todo o mundo, e elas dão o melhor de si para cuidar das crianças", diz Shalev. "Quando um filho faz algo que os pais não apoiariam, a primeira reação é sempre endossar tal ação, porque é preciso acreditar no filho".

Em um estudo informal conduzido por Rasmiyah Hannoun junto a 151 mães palestinas - 78 das quais tiveram os filhos mortos na violência palestino-israelense, e 73 cujos filhos foram presos -, ela descobriu que as mães dos jovens que morreram sofriam de profunda tristeza e depressão. Muitas delas desenvolveram problemas físicos, como distúrbios digestivos que, segundo Hannoun, são causados pelos problemas emocionais.

"No início, elas demonstram alegria porque todos à sua volta lhes dizem que os seus filhos foram para o paraíso", explica Hannoun. "Mas a emoção está lá dentro, acesa como uma chama".

Para Hannoun, a tarefa de proteger os filhos exige vigilância ininterrupta. Quando Yassin, o líder espiritual do Hamas, foi assassinado na semana passada, ela dava aula na universidade onde o seu filho caçula, Hadi, estuda engenharia. Ela o localizou e não permitiu que o rapaz se juntasse a outros jovens que saíram às ruas para protestar.

No entanto, Hannoun tem o cuidado de frisar que ela e o marido contam com meios financeiros para proteger os filhos, sendo capazes, por exemplo, de comprar o equipamento de musculação para Fadi e o computador que mantém Hadi entretido.

Mas, no campo de refugiados Al-Amri, em Ramalá, muitas mães são incapazes de controlar os filhos. Alguns, com até dez anos de idade, precisam trabalhar para ajudar no sustento das famílias. Nas ruas, eles podem ser recrutados por grupos políticos, começando como batedores ou mensageiros, e, gradualmente, aumentando o grau de envolvimento com atividades militantes. Segundo Shalev, esse processo não difere daquele pelo qual passam as crianças de bairros pobres de Nova York e outras cidades norte-americanas, que são seduzidas pelas gangues e acabam usando drogas.

"As crianças daqui são atraídas por essas atividades devido à pobreza", diz Amina Salhiya, 75, uma mulher de uma loquacidade incomum, que mora com os cinco netos. "Esses malfeitores os fisgam com um shekel ou um cigarro".

Salhiya e a filha, Nirhaya, que é viúva, vigiam com rigor os cinco jovens. Elas impõe "toques de recolher" e lhes dão algum dinheiro, de forma que não sejam aliciados pelas gangues. Mas a pobreza no local é profunda. Salhiya enfia a mão no bolso do avental e mostra o rendimento do dia: apenas seis shekels, o que equivale a menos de US$ 2.

"Sou mãe", diz Salhiya. "Durmo com as minhas preocupações e acordo com elas. Me preocupo o dia todo. Para mim não há nada mais importante que meus filhos". Danilo Fonseca

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