Bermudas se recuperam da devastação causada pelo furacão Fabian

Gene Sloan
Em Tucker's Town, Bermudas

Thomas Garlich ainda não é capaz de compreender a força com que o furacão Fabian atingiu esta pequena ilha em setembro do ano passado - e tampouco a destruição causada neste balneário onde ele vive há dez anos.

"Foi algo de incrível", diz o assistente administrativo do Pink Beach Club, apontando para uma fileira de chalés pintados de rosa e branco, erguidos ao longo da praia na década de 50. "As ondas quebravam bem no topo daqueles telhados".

O pior furacão a atingir a ilha em mais de meio século fez com que muros inteiros fossem engolidos pelo mar e devastou grande parte do cenário circundante. Quando a tempestade acabou, até as quadras de tênis, que ficam a mais de 30 metros do oceano, estavam enterradas sob uma grossa camada de areia.

Segundo Garlich, foi um impacto devastador. Mas, ao contrário do que muitos temiam, não significou o fim do Pink Beach Club. Na verdade, o episódio marcou um recomeço.

"Agora, o interior de todas essas construções está novo em folha", diz Garlich, exibindo com orgulho os chalés recém-pintados e dotados de mobília nova, que voltaram a receber turistas em março. "O produto de que dispomos agora é bem melhor do que aquele que tínhamos um dia antes da tempestade".

Em princípio, o Fabian representou um problema terrível para um complexo de férias que já estava em má situação devido ao declínio do número de visitantes a cada ano. Mas, à medida que o pico da estação se aproxima neste mês, há quem diga que o furacão foi apenas a sacudidela da qual a antiga, mas bem cuidada, destinação turística necessitava. E, neste verão, os visitantes poderão ter uma surpresa agradável com aquilo que vão encontrar.

"Isso foi quase que uma bênção dissimulada", diz Allan Trew, gerente do Fairmont Southampton, o maior hotel-balneário da Bermudas, inaugurado há 32 anos, e que no próximo dia 15 reabrirá as portas com quartos inteiramente novos.

Assim como o Fairmont, vários dos hotéis e pousadas da Bermudas (muitos deles construídos há mais de 50 anos) foram revigorados por milhões de dólares de dinheiro dos contratos de seguro. As famosas praias de areias rosadas das Bermudas passaram por um rigoroso processo de limpeza, e alguns campos de golfe e quadras de tênis foram completamente reformados. Com as paredes pintadas em cores de sorvete de frutas e os tetos brancos, as casas brilham ao sol. Apenas determinadas áreas circundantes, que demoram a se recuperar, apresentam pontos de erosão dos quais emerge a terra amarronzada, indicando a extensão da fúria do Fabian.

O longo período de reconstrução também deu aos empresários do setor turístico um tempo para repensarem a sua abordagem.

Uma jóia do Atlântico que floresceu como destinação de primeira categoria após a Segunda Guerra Mundial, essa colônia britânica vem se apagando no cenário turístico há décadas, à medida que os viajantes em férias se dirigem a locais mais novos e badalados. No decorrer dos últimos quinze anos, o número de turistas que chega anualmente no aeroporto diminuiu em quase 50%. E, no ano passado, com uma temporada encurtada, a ilha atraiu apenas 256.600 visitantes - em um outro declínio de 10%; o pior em um período de décadas.

Há muito tempo os críticos rotulam as Bermudas, mergulhada em tradições e formalidades britânicas, de local sério e sufocante - um balneário perdido em um passado vitoriano. Mas antes mesmo da tempestade, os donos de hotel vinham tentando amenizar essa atmosfera. E a confusão causada pelo furacão só fez acelerar tais iniciativas. Neste verão, no balneário-hotel The Reefs, por exemplo, em um rompimento com mais de 50 anos de tradição, não se exigirá mais que os homens usem paletó à mesa de jantar.

"É um grande passo para nós, e estamos levando essa iniciativa a sério", diz David Dodwell, proprietário de um hotel na arenosa Costa Sul das Bermudas, que cobra uma diária de US$ 450. "Os turistas não querem mais usar gravata nas férias".

Dodwell, ex-ministro do Turismo, disse que após anos de sucesso a ilha não conseguiu mais acompanhar o ritmo das mudanças, não tendo antecipado o surgimento de novos balneários de clima tropical no Caribe e outros locais.

"Tínhamos um certo excesso de confiança, acreditando que as coisas iriam durar para sempre", diz ele. "Não percebemos que a concorrência era fortíssima".

A fim de atrair uma nova geração, Dodwell criou jantares informais na praia do The Reefs, e introduziu novidades, como passeios de caiaque, que atraem os turistas mais jovens e ativos. E ele não é o único hoteleiro a fazer mudanças.

Ainda assim, o equilíbrio dessas ações é delicado. A ilha possui um grupo de fãs leais que a visitam regularmente. São os milionários elegantes e tradicionais da costa leste dos Estados Unidos - a "multidão Lilly Pulitzer", conforme a expressão usada por um agente de turismo - que visitam a ilha há décadas e gostam dela do jeito que é.

E até mesmo os visitantes mais recentes, como Patty Roy, 44, de Toronto, que freqüenta as Bermudas há dez anos, adora o estilo formal da ilha. "É um clima civilizado", diz Roy, no Horizons, onde se exige paletó e gravata no jantar. "É legal ver que as pessoas ainda se vestem bem por aqui".

A ministra do Turismo das Bermudas, Renee Webb, apontada por alguns como a responsável pelos problemas que afligem o setor turístico, se recusou a conceder entrevista. Mas Michael DeCouto, diretor assistente no escritório da ministra, diz que as pesquisas demonstram que os visitantes estão bastante satisfeitos com a atmosfera refinada.

"De acordo com o que temos presenciado, eles estão completamente satisfeitos", afirma. "Será que queremos fazer mudanças? É preciso entender os nossos clientes".

Uma outra preocupação dos empresários do turismo é a idéia de que as Bermudas são uma destinação cara. Vários hotéis cobram diárias de mais de US$ 300, e até mesmo um almoço simples em um pub de Hamilton pode custar mais de US$ 20 por pessoa. Um dos maiores empecilhos para os turistas é o preço da passagem aérea, que, para visitantes da Filadélfia, por exemplo, pode custar mais de US$ 400 ida e volta.

DeCouto afirma que os esforços para atrair mais empresas aéreas aumentarão a capacidade de transporte em mais de 20% neste verão, o que deve ajudar a reduzir os preços. Especialmente notável é a entrada em cena da empresa de tarifas baratas USA 3000, que dará início a vôos provenientes de Baltimore em maio, a partir de US$ 79 por passagem só de ida.

As Bermudas ainda contam com uma série de vantagens com relação a outras ilhas que recebem turistas. Para começar, aqui estão algumas das mais belas praias do mundo. Nem mesmo o furacão Fabian foi capaz de diminuir a beleza de Horseshoe Bay, uma praia em forma de crescente perfeito, com areias cor de rosa e cercada por montanhas vulcânicas.

Situadas a apenas mil quilômetros da costa da Carolina do Norte, as Bermudas também são de longe o balneário tropical mais próximo aos centros populacionais da costa leste, uma vantagem que cresceu em importância desde o 11 de setembro, que motivou os norte-americanos a ficarem próximos de casa.

"Não dá para chegar nem à Flórida mais rápido que isso", diz Bárbara Oppenheimer, 49, de Boston, que visita a ilha pela primeira vez, e que veio acompanhada da família para passar um fim de semana prolongado. "Este foi o único local de clima quente para o qual pudemos ir sem perder um dia sequer com a viagem".

Para os anglófilos, em particular, as Bermudas oferecem uma dose do charme do Velho Mundo, expresso no sotaque britânico e nos pubs que servem Guinness. Colonizada acidentalmente em 1609, quando um navio que levava colonos britânicos para a Virgínia naufragou nos seus arrecifes, as Bermudas permaneceram quase que mais britânicas que a própria Grã-Bretanha. A maior parte do hotel serve o formal chá da tarde, acompanhado de broinhas. E elegantes jardins ingleses adornam os chalés de estuque construídos nos sopés das montanhas.

Tudo aqui é muito limpo e apropriado, apesar de não ser exatamente vivaz. Ao contrário de outras destinações caribenhas que estão mais na moda, como Saint Barts, fazer topless por aqui pode resultar em prisão, e a vida noturna é controlada, embora as coisas nem sempre tenham sido assim.

"Nos anos 50 e 60, dava para ouvir a música enchendo a atmosfera todas as noites", conta Tom Butterfield, artista que mora por aqui. "Esta ilha era bem viva, mas isso desapareceu, o que é uma tragédia".

Butterfield fiscaliza a Fundação The Masterworks, que levanta fundos para a abertura de um museu dedicado a trabalhos inspirados pelas Bermudas por artistas que moraram na ilha, incluindo Georgia O'Keeffe e Winslow Homer.

"As artes visuais estão florescendo", diz Butterfield, checando os nomes em uma lista de museus, incluindo a Galeria Nacional das Bermudas.

As Bermudas ganharam recentemente algumas celebridades: o ator Michael Douglas, cuja mãe, Diana, nasceu na ilha, decidiu criar os seus dois filhos com a mega-estrela Catherine Zeta-Jones por aqui. Mas, embora as Bermudas atraiam celebridades como Ophah, John Travolta e Nicole Kidman, e o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e Ross Perot tenham casas aqui, este não é o local para o glamour de Hollywood, dizem os moradores locais.

Segundo Butterfield, a verdadeira atração deste pedaço de terra sereno, ligeiramente elevado, de 34 quilômetros de extensão, é aquilo que a ilha já tinha há meio século, quando chegaram os primeiros aviões a jato: o povo.

"Os nativos das Bermudas fazem com que você se sinta especial", diz ele. "Você encontrará tal coisa nos motoristas de táxi, nos vendedores e nos balconistas dos hotéis".

Roy, a turista que há dez anos visita a ilha com regularidade, concorda: "Aqui, nos sentimos como se fôssemos parte de uma pequena família", diz ela. "É isso o que me faz voltar sempre".

Informações sobre as Bermudas

  • Localização: 1.050 quilômetros a leste de Cape Hatteras, Carolina do Norte.
  • População: 62 mil habitantes.
  • Língua: Inglês.
  • Moeda: Dólar das Bermudas (que possui paridade com o dólar norte-americano).
  • Clima: semi-tropical; a temperatura máxima diária varia entre 20º C e 29º C.
  • Número de quartos de hotel: 2.600.
  • Restaurantes: 150.

    Fonte: Ministério do Turismo das Bermudas Danilo Fonseca
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