Trabalhadores americanos demitidos treinam substitutos estrangeiros

Stephanie Armour
USA Today

Quando o programador de computador Stephen Gentry soube no ano passado que a Boeing o estava demitindo e transferindo sua função para o exterior, ele não ficou muito surpreso. Muitos de seus amigos sofreram a mesma experiência.

Mas o que realmente o surpreendeu foi sua última tarefa. Os gerentes o fizeram treinar o trabalhador da Índia que assumiria sua função.

"Foi muita insensibilidade", disse Gentry, 51 anos, de Auburn, Washington, um pai de três filhos, que ainda está desempregado. "Eles nos pediram para fazê-los se sentirem em casa enquanto nós os treinávamos para tomarem nossos empregos."

Mais empresas que estão cortando custos estão contratando trabalhadores em outros países para realizar o trabalho antes feito por empregados americanos. Mas em uma distorção dolorosa, alguns empregadores estão pedindo para os funcionários que estão demitindo treinarem seus substitutos estrangeiros -os obrigando a cavarem suas próprias covas de desemprego.

Quase um em cada cinco trabalhadores de tecnologia da informação perdeu o emprego ou conhece alguém que perdeu o emprego após treinar um trabalhador estrangeiro, segundo uma nova pesquisa da Aliança dos Trabalhadores de Tecnologia de Washington. O estudo é o primeiro a quantificar quão disseminada é a prática.

Eis como o processo normalmente funciona: os trabalhadores americanos que recebem a carta de demissão são informados que podem receber mais um contracheque ou receber um aumento no pagamento rescisório se quiserem ensinar os trabalhadores da Índia, China e outros países a realizarem suas funções. Os trabalhadores estrangeiros geralmente chegam para algumas poucas semanas ou meses de treinamento. Quando eles partem, eles levam os empregos americanos consigo. Os empregados americanos que os treinaram são então demitidos.

Os empregadores dizem que precisam de trabalhadores para treinar os substitutos para assegurar uma transição sem problemas, mas a prática está sendo atacada.

Em uma audiência no Congresso em fevereiro, alguns legisladores condenaram o treinamento de substitutos como "inescrupuloso".

E sete entre 10 trabalhadores de tecnologia da informação disseram que apoiariam uma legislação obrigando as empresas a informarem as autoridades locais quando planejarem usar trabalhadores americanos para treinar substitutos estrangeiros, segundo uma pesquisa da Aliança dos Trabalhadores de Tecnologia de Washington, conhecida como WashTech.

"Esta é a economia globalizada nos atingindo aqui em casa", disse Marcus Courtney, presidente da WashTech, um sindicato que representa os trabalhadores de tecnologia. "Ela levanta sérias questões morais. Talvez nós precisemos considerar a proibição desta prática. Para os trabalhadores americanos é terrível se ver nesta situação."

Transferência de conhecimento

Alguns empregadores disseram que estão contratando trabalhadores em outros países -uma tendência conhecida como "offshoring"- porque podem lhes pagar salários muito menores, o que lhes fornece uma vantagem competitiva muito necessária. Eles disseram que os trabalhadores americanos não são forçados a treinar os substitutos (prática conhecida como "transferência de conhecimento"), mas que lhes é oferecida a opção de participar.

Na WatchMark-Comnitel, uma empresa de software de telecomunicações em Bellevue, Washington, 17 funcionários do controle de qualidade foram demitidos em 2003 e foram contratados substitutos na Índia. Dezesseis trabalhadores americanos ajudaram a treinar seus substitutos. Os diretores da empresa disseram que nenhum trabalhador foi forçado a realizar o treinamento, mas os que o fizeram receberam incentivos adicionais.

"A participação deles foi uma opção voluntária", disse a porta-voz da WatchMark-Comnitel, Sherry Toly.

"Os pacotes de rescisão foram oferecidos independente de participarem ou não. Nós estamos muito felizes (com o offshoring) e sentimos que temos um produto melhor. Os custos menores foram transferidos para um produto melhorado."

Mas trabalhadores como Myra Bronstein não estão convencidos.

Em uma sexta-feira em 2003, a ex-testadora de software da WatchMark fez parte de uma equipe de trabalhadores que foi convocada para uma reunião. Lá, ela disse, os gerentes lhes entregaram cartas explicando que a equipe de teste estava sendo demitida. Os gerentes disseram ao grupo que seus substitutos seriam trabalhadores da Índia, disse ela. Os trabalhadores estavam a caminho e estariam no escritório na segunda-feira. Ela disse que foi instruída a treiná-los.

Bronstein se sentiu presa em uma armadilha. Se ela recusasse, Bronstein disse que achou que seria demitida sem o pagamento rescisório e não receberia os benefícios de desemprego. Se pedisse demissão, ela disse, ela não receberia o pagamento rescisório nem estaria apta a receber os benefícios de desemprego.

Na semana seguinte, ela e os outros funcionários que enfrentavam a demissão foram apresentados aos trabalhadores que ficariam com seus cargos. Os trabalhadores da Índia, ela disse, receberiam pouco mais de 6% do que ela recebia.

"Eu ficava olhando fixamente para meus sapatos tentando não chorar. Foi horrivelmente embaraçoso. Eu me senti forçada", disse Bronstein, 48 anos, de Mercer Island, Washington. Ela ainda está desempregada. "É muito degradante e inumano treinar seu substituto. Eu me senti explorada. É como se nos tivessem dado uma pá e dissessem: 'Aqui está, cavem sua própria sepultura'."

Um exagero?

Apesar de alguns economistas e autores de política terem dito que sem dúvida treinar seu substituto é difícil, eles também disseram que a atenção dada ao assunto é exagerada. Como este é um ano eleitoral, eles disseram que os sindicatos estão se concentrando na questão à medida que o sentimento popular se volta contra a perda de empregos americanos para o exterior.

"Treinar seus substitutos é uma situação desagradável. Mas ajuda a personalizar a questão. Faz com que as pessoas criem empatia', disse Bruce Bartlett, membro do Centro Nacional de Análise Política, com sede em Dallas. Ele disse que o medo quanto a perda de empregos é "extremamente exagerada. É sempre fácil colocar a culpa nos estrangeiros".

Em 24 de março, a central sindical AFL-CIO levou trabalhadores que sentiram o impacto do desemprego em uma excursão "Nos Mostre os Empregos", de Saint Louis até Washington. Os trabalhadores chegaram na semana passada em Washington para um encontro com alguns membros do Congresso. Vários dos 51 participantes da viagem são desempregados que disseram que tiveram que treinar seus próprios substitutos.

Pat Fluno, 54 anos e uma das participantes da excursão, é uma programadora de computador de Orlando. Há pouco mais de um ano, ela foi avisada que trabalhadores da Índia assumiriam sua função em um conglomerado alemão. Ela disse que recebeu um bônus para treiná-los e o pagamento rescisório.

"É um insulto", disse Fluno. "É um abuso. Eu acho revoltante. Eu não sou pró-Bush ou pró-Kerry. Eu só quero que os candidatos ouçam o que está acontecendo."

Ela disse que o treinamento levou cerca de dois meses.

Os trabalhadores forçados a treinar seus próprios substitutos disseram que a prática é uma ilustração clara de como a contratação de estrangeiros está tirando empregos americanos. Nos próximos 15 anos, os empregadores americanos terão transferido cerca de 3,3 milhões de empregos de colarinho branco e US$ 136 bilhões em salários para o exterior, segundo a Forrester Research, em comparação com US$ 4 bilhões em salários em 2000.

Em 1997, foi pedido a Darrell Rathburn, 61 anos, que treinasse seus substitutos em uma empresa de alta tecnologia, mas o desenvolvedor de software disse que se demitiu voluntariamente após o treinamento.

"Os salários deles eram cerca de um terço dos nossos", disse Rathburn, de Columbus, Ohio. "Eles voltaram para a Índia e meu projeto foi dado para eles. Há muitas pessoas por aí que são altamente qualificadas. Isto não é certo. Isto não é justo."

Prejudicando a moral e a imagem

Apesar de alguns expressarem amargura em relação aos trabalhadores estrangeiros que estão ficando com seus empregos, vários trabalhadores que treinaram seus substitutos reservam grande parte de seu antagonismo para seus ex-empregadores. 30% dos empregadores disseram que o offshoring prejudicou a moral em suas empresas nos Estados Unidos, segundo uma pesquisa de março da Hewitt Associates, uma consultora de benefícios; 11% disseram que isto teve um impacto negativo na imagem da marca.

Scott Kirwin, um consultor de informática de Wilmington, Delaware, era um contratado da J.P. Morgan Chase por cerca de três anos quando lhe disseram que seu trabalho não era mais necessário. Ele disse que o contrato foi encerrado para que trabalhadores indianos pudessem substitui-lo. Ele foi convidado a treinar seus substitutos, disse ele, para que pudesse continuar recebendo um contracheque.

"Você se sente como o sujeito vestindo a camisa vermelha em 'Jornada nas Estrelas'", disse Kirwin, se referindo aos personagens que geralmente morrem na série de TV. Ele ajudou a treinar seus substitutos em 2002. "É uma situação muito desagradável. É injusto. Estas pessoas aparecem, nos seguem e observam o que fazemos."

Kirwin se mobilizou, criando a IT Professionals Association of America, que visa conscientizar as pessoas sobre o offshoring e questões trabalhistas. Os visitantes do site na Internet podem encomendar uma camiseta que diz: "Meu emprego foi para a Índia e tudo o que recebi foi um estúpido envelope rosa (a notificação de demissão)".

A J.P. Morgan Chase se recusou a comentar.

Lobby por proteção

Os sindicatos têm feito lobby por proteções legais, desde simples restrições a vistos até garantias de que os trabalhadores que se demitirem em vez de treinarem os substitutos estrangeiros recebam os benefícios de desemprego.

Um projeto de lei apresentado em Olympia, Washington, exigia que os empregadores dessem aos funcionários um aviso prévio antes de pedirem para treinarem os substitutos estrangeiros. O projeto não foi aprovado neste ano, mas seu autor, o deputado estadual Zack Hudgins, disse que planeja apresentá-lo novamente.

"É uma coisa terrível pedir que alguém treine seu substituto e transfira o emprego para o exterior", disse Hudgins, um democrata. "Isto vai além de política de ano eleitoral. É uma mudança em nossa economia. Não é uma questão partidária."

Muitos se sentem impotentes. Em 2003, Kevin Flanagan foi demitido do Bank of America após treinar trabalhadores estrangeiros. Ele se suicidou com um tiro no estacionamento em Concord, Califórnia. Sua morte mobilizou outros trabalhadores de tecnologia de informação, que promoveram protestos contra a terceirização. Os membros do Congresso que são contra a prática também usaram este caso como um chamado à ação.

"Nós ficamos muito tristes com a morte de nosso associado", disse a porta-voz do Bank of America, Mary Waller. "Nossos pensamentos e orações vão para a família e colegas de trabalho. (...) Nós determinamos a melhor forma de realizar a transição dos processos para que os serviços sejam mantidos."

Quando ocorrem transições, a empresa disse que dá aos funcionários ajuda para encontrar trabalho ou assistência para encontrar outra posição na empresa se possível. O banco também oferece oportunidades de treinamento. Os diretores do banco disseram que as funções que foram transferidas para o exterior representam menos de 1% de sua força de trabalho total de mais de 180 mil funcionários.

Mas agora, próximo do primeiro aniversário da morte de Flanagan, seu pai, Tom, ainda lida com sua perda.

"A perda do emprego de Kevin no Bank of America foi o evento definidor em sua decisão de colocar um fim na sua vida. Certamente havia outras questões, demônios, com os quais ele era incapaz de lidar", disse Tom Flanagan. "A terceirização não é algo novo, mas agora empregos de colarinho branco estão sendo perdidos. Por quê? Dinheiro, é claro." George El Khouri Andolfato

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