Iraquianos querem Estado religioso e menos direitos para mulher

Cesar G. Soriano e Steven Komarow
Em Bagdá

Uma nova pesquisa USA Today/CNN/Gallup demonstra que os iraquianos estão otimistas quanto ao futuro, apesar das profundas e potencialmente perigosas divisões entre facções antagônicas sobre o papel da religião no governo e a autonomia para a minoria curda.

A pesquisa de âmbito nacional, a mais abrangente realizada no período de um ano que se seguiu à derrubada de Saddam Hussein, foi conduzida no final de março e no início de abril. Ela revela que 63% dos iraquianos de todas as orientações religiosas e etnias esperam estar em uma situação melhor daqui a cinco anos.

Mas as suas metas referentes à autodeterminação muitas vezes diferem dramaticamente. Os dados demonstram que os iraquianos vivem em três países distintos no que diz respeito às questões básicas de governo. Os resultados da pesquisa levam em conta se uma região é dominada pelos árabes xiitas, que foram reprimidos pelo regime de Saddam Hussein; pelos árabes sunitas, que apoiavam o antigo regime; ou pelos curdos, que conquistaram uma independência de fato no norte do país e não querem abrir mão dela.

Os resultados foram divulgados na quarta e na quinta-feira passadas. Eis algumas revelações importantes da pesquisa feita com quase 3.500 iraquianos:

  • Uma grande maioria de curdos, que compõem 13% da população de 25 milhões de habitantes, e muitos árabes sunitas aceitariam uma democracia parlamentar no estilo europeu, um modelo que é visto com bons olhos pelo governo Bush.

    Mas a maioria dos árabes xiitas quer um Estado islâmico e não vai aceitar o modelo de democracia ocidental. "Não queremos uma democracia que não contenha as leis islâmicas. E tampouco queremos leis islâmicas sem democracia. Assim, estamos totalmente confusos quanto a essa questão", confessou Ammar Faleh, 22, um estudante universitário de Bagdá.

  • Quase todos os iraquianos são muçulmanos, mas somente os curdos, que são, em sua maioria, sunitas, apóiam a separação entre Igreja e Estado. Os árabes sunitas e xiitas se opõem a um governo secular e visualizam o clero islâmico desempenhando um papel de aconselhamento formal em vários aspectos do governo e da vida civil, incluindo a redação da constituição do país, a elaboração do currículo escolar, a decisão quanto ao material que pode ser publicado e difundido por rádio e televisão, e a permissão para que autoridades possam assumir cargos oficiais.

  • Só os curdos apoiariam vigorosamente uma iniciativa para que as mulheres tivessem direitos iguais aos dos homens. Todos os grupos dizem que as mulheres deveriam ter o direito de votar, de ter um emprego e de ocupar cargos públicos.

    Mas a maioria dos sunitas se opõe a permitir que mulheres ocupem posições de liderança de âmbito nacional. Tanto xiitas quanto sunitas dizem que as mulheres deveriam gozar de uma liberdade bem menor do que aquela que lhes era concedida durante o regime de Saddam Hussein. E 42% de todos os iraquianos apoiariam uma lei que regulamentasse a maneira como as mulheres se vestissem.

    A divergência mais profunda e potencialmente mais perigosa entre a etnia curda fortemente armada e todas as demais etnias se refere à questão da autodeterminação dos curdos. Três quartos dos curdos entrevistados se recusaram a aceitar até mesmo o conceito de "autonomia adicional", uma idéia apoiada pelos Estados Unidos. Eles exigem a independência completa. Uma forte maioria de árabes xiitas e sunitas se opõe a conceder autonomia adicional aos curdos.

    Apesar dessas diferenças, os iraquianos dizem preferir a democracia à ditadura. Eles também duvidam que o país mergulharia em uma guerra civil caso os norte-americanos se retirassem, uma idéia que é defendida com vigor por todos - com a exceção dos curdos.

    Só os curdos expressaram uma crença convicta em que os norte-americanos estão no Iraque para estabelecer a democracia e reconstruir o país. A pesquisa mostra que 28% dos não curdos acham que os Estados Unidos estão levando a sério a idéia de um Iraque democrático, e que 27% deles acreditam que o governo norte-americano está determinado a melhorar a situação econômica do Iraque.

    A maioria dos iraquianos preferiria assumir a tarefa de resolver os seus próprios problemas. A pesquisa revelou uma confiança generalizada de todas as etnias na nova força policial iraquiana, que é treinada pelos Estados Unidos.

    A maior parte dos iraquianos quer que os norte-americanos deixem imediatamente o seu país após a transferência de poder, em 30 de junho, para um governo de transição que ainda está indefinido. A Organização das Nações Unidas (ONU), que é mais bem aceita do que os Estados Unidos pelos iraquianos, está preparando um plano de transição.

    Mas os iraquianos acreditam que os Estados Unidos vão manter o poder em suas mãos pelo maior tempo possível. Uma sólida maioria disse que os Estados Unidos só deixarão o Iraque quando os iraquianos os obrigarem a sair.

    O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse na última quinta-feira (30/04) que o aparente antiamericanismo refletido pela pesquisa não chega a surpreender. "É claro que ninguém quer ser ocupado. E nós não queremos ser ocupantes", afirmou.

    Mas, embora muitos dos iraquianos entrevistados para a pesquisa discordem dessa afirmação, McClellan garantiu que os Estados Unidos estão no Iraque para "ajudar o povo iraquiano a criar um futuro livre e pacífico, porque isso é fundamental para que a guerra contra o terrorismo seja vencida".

    A pesquisa demonstra que um dos temores expressos por alguns iraquianos está se desfazendo. Em todas as regiões onde a pesquisa foi conduzida, a maioria absoluta dos iraquianos concordou que o regime de Saddam Hussein "foi esmagado para sempre".

    *Soriano escreveu de Bagdá, e Komarow de Washington Pesquisa revela quais são as aspirações de xiitas, sunitas e curdos do Iraque Danilo Fonseca
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